sexta-feira, 8 de novembro de 2019

E tem tudo a ver com a Geografia



E tem tudo a ver com a Geografia

                                      (poema autógrafo para Carlos Nogueira)

Tombou sobre a Cidade uma chuva
Capaz de enlouquecer semáforos
No fim da tarde do Campo Grande.
No Largo do Rato a mesma coisa
Não anda nem desanda o tráfego
Parado lá para a Dom João Quinto.
Quando cheguei à Torre do Tombo
Estava em Amarante com O´Neill
Desça que já não há nada a fazer!
Aqui era o Mercado Geral de Gados
Onde pelo ano de 42 o adolescente
Viu no carro da PIDE a mão a acenar.
O poema é a maneira de não morrer
Numa fresta do carro celular ronceiro
Com gente de Alhandra e Vila Franca.
Havemos de voltar a marcar encontro
Ou Vigo ou Valongo ou Pai do Vento
Talvez a Teresa volte a ter 19 anos.
Com sorte temos o bolo de iogurte
Feito pela Dona Alice só para nós
E para o Eduardo Guerra Carneiro.
Se o tempo quente lembrar a praia
Ouvimos mulheres a chamar os filhos
Luís Vítor Bruno Manuel Mafalda Sofia.
Alexandre O´Neill pode até aparecer
Do lado da Rua da Escola Politécnica
E tem tudo a ver com a Geografia.

José do Carmo Francisco
   

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Entre a rua e a freguesia



Entre a rua e a freguesia

Amargura é nome de rua
Lá nas Caldas da Rainha
Muitos lhe chamam sua
Eu porém a quero minha.
E lá na cidade da Horta
Angústias é a freguesia
Elas não batem à porta
Só trazem melancolia.
No tempo de ser recruta
Eu fazia o meu cominho
Morte e vida em disputa
E nunca estava sozinho.
Angústias permanentes
Amargura é um registo
Os tristes e os contentes
Só eu não sei se existo.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Manuel Amado)         

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Cantiga Catarinense



Cantiga Catarinense

Novembro Natal à porta
E a festa da Padroeira
Poesia em hora morta
A quadra é uma cadeira.
Quatro versos são pernas
Dá o resumo do Mundo
Com palavras modernas
Um sentimento profundo.
Entre ser bom e ser mau
Vai o menino ao leilão
Carne, louro e colorau
Leva um prato na mão.
Com tanto sol tanto pó
Cavacas doces com vinho
Não vejo pena nem dó
Para o rapaz mais sozinho.
Rebentou-lhe o morteiro
A mão ficou esfacelada
O tempo era verdadeiro
E ninguém dava por nada.
Está no ar uma cantiga
No tempo nunca distante
É uma voz de rapariga
Que fica no altifalante.

José do Carmo Francisco

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Camisola a preto e branco



Camisola a preto e branco

(poema autógrafo para Carlos Lobão)

Às segundas-feiras logo de manhã
Os jornais aqui não dão os resultados
Mas nem por isso nós somos menos
A caminho da pequena posteridade.
Quando a equipa chegou do Funchal
Havia crianças com ramos de flores
E o som feliz da nossa Filarmónica
Misturava a voz da Terra com o Mar.
No átrio todos estão à minha espera
Hoje eu sou um dos rapazes do andor
Levo a camisola lavada dum defesa
E já sei que não me posso demorar.
Se eu estiver atónito e comovido
Não tomem a sério nem reparem
Afinal é só uma nuvem de incenso
A brasa era grande como o soluço.

José do Carmo Francisco       

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Lamentação no Rossio para Ana e Marta



Lamentação no Rossio para Ana e Marta

Desiguais fusos horários
Para saber de duas filhas
Em hemisférios contrários
As duas diferentes ilhas.

Uma fica do lado inferior
Outra no Hemisfério Norte
Mas o tamanho do Amor
Tem a proporção da sorte.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Émile Claus)

sábado, 28 de setembro de 2019

As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira


As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira

Era pelo ano de mil nove quarenta e sete
Os Belenenses foram campeões em Elvas
Luís Alberto vinha de Luanda para o Liceu
Já formatado na paixão pelo azul de 1919.
Foi no Atlético de Luanda que começou
Depois no eléctrico do Chile para Belém
Encontrava três dos jogadores famosos
Mas nenhum tinha uma carta de chófer.
Eram as previsões, anseios e augúrios
Ali na palhinha do lugar no transporte
Eram três, eram cinco, era uma abada
No olhar de Amaro, Quaresma, Feliciano.
Tudo era possível mas só nos sonhos
A Revista Stadium não era nada barata
Mas todos queriam as vitórias a haver
A paixão é uma seara a perder de vista.
Da Baía de Luanda ao Mar da Palha
O mesmo azul do mar e das lágrimas
As viagens e os naufrágios esquecidos
Hoje cem anos depois do primeiro dia.

José do Carmo Francisco

(Foto de autor desconhecido)

domingo, 22 de setembro de 2019

Fala de António Durães, actor de «A dama das camélias» no São Luís em 8-9-2019



Fala de António Durães, actor de «A dama das camélias» no São Luís em 8-9-2019

O ruído do eléctrico chega aos bastidores
Mas os turistas deste «28» em tarde de sol
Esses nunca irão ler nenhum dos seus livros
Nem saber quem foi José Augusto França. 
Há uma muito lamentável caixa baixa
No nome da sala Luís Miguel Cintra
Impresso no bilhete desta récita
Por possível erro dum computador.
Nem Pai tirano nem Pátio das cantigas
Apenas a encenação século vinte e um
Com recurso a áudio-texto mas sem mail
Coisa que hoje até os sem-abrigo usam.
Seja como for eu sou um pai dividido
Entre a força do amor e as convenções
Porque o casamento da minha filha
Depende muito da dama das camélias.
Não é verdade que eu esteja indisposto
O anúncio sonoro do meu estoicismo
É apenas o que resta do século dezanove
Quando havia peixe frito e caldeiradas.
Sabemos que o amor não acaba nunca
Tal como já São Paulo nos tinha escrito
Com telemóveis logo será outra história
No fundo tudo isto permanece e continua.

José do Carmo Francisco 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Com António Fialho e Duarte Jorge, seminaristas


Com António Fialho e Duarte Jorge, seminaristas

Nesta procissão da Padroeira
Eu levava o turíbulo do incenso
À frente do pálio do sacerdote
Com um resplendor de prata.
Muitas vezes eu fui a correr
Buscar brasas ao lume da casa
Onde nasci, casa de meus avós
Que hoje é apenas uma ruína.
Outras vezes era meu tio Álvaro
Dividido entre músico e sacristão
A correr, sempre a correr a tudo
Só na torre Zé Pombo não falhava.
À frente do pálio as bandeiras
Os pendões e os estandartes
Levados por homens e rapazes
Que ouviam a grave Filarmónica.
Um grupo de miúdos aparece
A dizer a um homem solene
Que um morteiro esfacelou
A mão de seu filho curioso.
Pois não lhe tivesse pegado
Que eu agora não posso largar
A espia do pendão ao vento
(Era Novembro, o Natal à porta)

José do Carmo Francisco

(Fotografia da colecção particular de JCF)

sábado, 17 de agosto de 2019

As bicicletas de 1959



As bicicletas de 1959

(poema para os oito anos do meu neto Pedro)

Quando eu tinha oito anos
Ia sempre a pé para a Escola
Porque era assim o tempo
E eram outras as palavras.
Festejei a idade no Montijo
Nessa Rua Sacadura Cabral
Com marmelada e azeitonas
Tio Cristiano, homem do pão.
À porta da Pastelaria Mimosa
Uma senhora importante
Disse para o teu bisavô atónito:
«Filho de motorista não vai para Liceu».
Era assim naquele tempo escuro
Quando o nosso Quim Zé marcou
Um grande golo pelo Sporting
No minuto 87 ao Barreirense.
Em 1989 teu pai fez oito anos
Estava eu a publicar um livro
Desporto na Poesia Portuguesa
Poemas que vão subir ao palco.
A única coisa que permanece
Do tempo dos meus oito anos
É a recomendação ao aluno:
«Não tragas bengalas e bicicletas»

José do Carmo Francisco 

(Fotografia da colecção particular de JCF)

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Balada para Adelino Gomes



Balada para Adelino Gomes

Tanta gente que foi presa
Para que houvesse eleições
Entre as urnas e a mesa
Com os sonhos e as opções.
Aqui vai Gomes Adelino
Como se escreve em França
Traçar um novo destino
Sementeira de esperança.
No Largo onde o capitão
Dá fogo com pré-aviso
E a força da multidão
É tudo o que é preciso.
Aqui não cabe ninguém
O Largo ficou repleto
Veio gente de Santarém
Trazia um plano secreto.
O Estado a que isto chegou
Já não pode continuar
E o soldado regressou
Do outro lado do mar.
Capitão Salgueiro Maia
Pela Rua do Arsenal
Havia uma outra praia
No destino em Portugal.
No mapa das prisões
Peniche, Aljube, Caxias
Tarrafal deu as razões
Para a força destes dias.

José do Carmo Francisco     

(fotografia de Carlos Gil)

terça-feira, 23 de julho de 2019

Poema periférico para Ana Santos Barros



Poema periférico para Ana Santos Barros

Meu avô José Almeida usava as lágrimas
Em vez de pregos nos caixões dos anjinhos
Que fazia sem levar dinheiro pelo trabalho.
Vinham rapazes de longe, primos ou irmãos
Do menino morto com o tifo ou o garrotilho
Com o pedido por favor do pai da criança. 
Vestir o morto e chorar era coisa delas
Das mulheres da família reunidas em casa
A comer apenas o que as vizinhas davam.
Meu avô trabalhava devagar na oficina
Na nossa terra nem médico nem farmácia
Mais que solidão aquilo era o desamparo.
«Fazer versos dói» como pregar pregos
No caixão para o anjinho a pedido do pai
Chama-se S. Catarina podia ser S. Mateus.
Qualquer lugar serve para sofrer a vida
Sem os momentos felizes nem as ilusões
Do Cinema, do Teatro ou da Literatura.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Musa entre Cecília Correia e Maria Keil



Musa entre Cecília Correia e Maria Keil

Limões, hortaliças, verduras
Num carrinho ao fim da rua
Dez histórias de aventuras
Cada leitor chama-lhe sua.

O Mundo visto à janela
Debruçado sobre o Tejo
E a camisola amarela
Ganha corrida ao desejo.

José do Carmo Francisco

domingo, 30 de junho de 2019

Musa em som de Frank Smalley



Musa em som de Frank Smalley

Na sobreloja o piano
A viajem na melodia
O recital quotidiano
Antes do som já ouvia.

E os livros da Livraria
Não cabem nas estantes
São a estrada da alegria
No eterno dos instantes. 

José do Carmo Francisco

terça-feira, 18 de junho de 2019

Musa em canção nocturna



Musa em canção nocturna

No nocturno cancioneiro
O poema é uma resposta
Se poético é verdadeiro
Só a mentira não gosta.

Desta estranha liturgia
A ligar como oração
O sonho do novo dia
Entre instinto e razão.

José do Carmo Francisco


(Desenho de Warwick Goble)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Musa em café de subúrbio



Musa em café de subúrbio

São sete mulheres em duas mesas
Os homens esquecidos, obliterados
Circulam nas rotinas portuguesas
São outros os encontros marcados.

Aqui o púlpito é esta televisão
Uma mensagem circula pelo ar
A reportagem no lugar do sermão
Os fiéis no café rezam devagar.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de autor desconhecido)

terça-feira, 4 de junho de 2019

Musa em fim de semana


Musa em fim de semana

Quando chega a sexta-feira
Nas folhas dum calendário
Na Quinta da Regaleira 
O tempo passa ao contrário.

A musa abre um império
De sonhos e de segredos
No poço que é um mistério
O som do mar nos penedos.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Edward Cucuel)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Balada para Vila Nova da Barquinha



Balada para Vila Nova da Barquinha

Vou abalar, vou-me embora
Quero ir para a Barquinha
Lá eu não sou visto de fora
E sinto a terra como minha.
Montijo, Escola Primária
Vila Franca e Santarém
Está na minha secretária
O Ribatejo é Terra Mãe.
Mesmo que teime e insista
Num destino que se perdeu
Este filho dum motorista
Não foi mesmo para o Liceu.
Foi no Esteiro do Nogueira
Numa memória confusa
Que a mais linda avieira
Se tornou a minha musa.
Na Escola o «Velas do Tejo»
O jornal numa parede
Nasceu assim um desejo
Mas nunca mata a sede.
Nessa Escola Comercial
Com História e Geografia
Meu destino natural
Era o balcão, quem diria.
Em Santarém n´O MIRANTE
A escrever na nova luta
Tudo o que fui em diante
Nasceu daquela recruta.
Sou do tempo em que o avio
Do campino mais sozinho
Quando um pão seco e frio
Dava um petisco quentinho.
Sou do tempo do campino
Sem telemóvel ou jeep
Trabalhava o seu destino
Sem algum medo da gripe.
Roupa que a chuva molhava
Não podia ser substituída
Vinha o Sol que a secava
E era assim aquela vida.
  
José do Carmo Francisco

sábado, 18 de maio de 2019

Musa em tarde de esplanada



Musa em tarde de esplanada

Um lugar marcado na esplanada
Para bolo e café contra a rotina
Se passa a correr não dá por nada
Nem vê o perfil da mulher-menina.

Empurrou a neblina da madrugada
Forte e compacta como um muro
Na dúvida aos poucos decifrada
Se desenha o rumo para o futuro.

José do Carmo Francisco

(Quiosque do Oliveira no Principe Real por M. Nagashima)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Balada dos brinquedos da infância (para o Pedro)



Balada dos brinquedos da infância (para o Pedro)

O pedreiro cheira a cal
O carpinteiro a madeira
No ofício de cada qual
Passou uma lavadeira.
A roupa num alguidar
Na cabeça uma rodilha
Não se cansa de cantar
A tarde é uma maravilha.
Passado que se desenha
Lugar de pedra e sabão
A água vem da azenha
Já moeu todo o seu grão.
O brinquedo improvisado
O carro é uma lata lavada
As pinhas estão lado a lado
Como uma junta na estrada.
Para que a carga seja mais
Há uma pedra pequena
E imagino uns animais
Na nossa tarde serena.
Às vezes oiço um sinal
Comboio em S. Martinho
É o vento em vendaval
Traz a chuva de caminho.
Tenho toda a infância
Nas linhas duma balada
Mesmo a grande distância
Aqui ninguém deu por nada.

José do Carmo Francisco

(Óleo de André Henri Dargelas)

Poema autógrafo para Adelino Gomes em 24-4-2019  

domingo, 28 de abril de 2019

Jocelyn e Philip no camarote do Queen Mary 2



Jocelyn e Philip no camarote do Queen Mary 2

Nem tudo cabia no belo saco vede do Sporting
Além do kispo do Tomás, das calças do Lucas
E dos livros da Ana Maria e do Ian Sutherland.
Faltou um comboio para Francisco José Viegas
Faltou também um palco para Jorge Silva Melo
O mesmo é dizer Miguel Torga e Enda Walsh.
Em vão recomendei todo o cuidado a Philip
Por causa dos carteiristas do eléctrico nº 28
Em Barcelona um profissional levou tudo.
Maneira de dizer dinheiro e documentos
Mas não tirou nem podia tirar o espírito
Porque um viajante nunca será um turista.
Vemos a fotografia tirada no Funchal em 1928
A caminho do Rio de Janeiro também de barco
Marinheiro, operário e marquês de Penafiel.
É esta mistura feliz que o saco verde recorda
E insiste na memória do jogo de 1902 em Belas
Ou outro em 1904 no Jardim do Campo Grande.
Vimos a cidade do alto do Castelo de São Jorge
Almoçámos na Paparucha, sentimos as árvores
Mais inesperadas do Jardim do Príncipe Real.
Fizemos a rota das livrarias Bertrand e Ferin
Juntando sague pisado e estilo, vida e poema
Entre o pó dos minutos e a posteridade relativa.

José do Carmo Francisco    

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Balada dos meninos do Montijo em 1958


Balada dos meninos do Montijo em 1958

Os meninos tão diferentes
E já passaram tantos dias
Trazem os olhares quentes
No fervor das nostalgias.
Tantos anos terão passado
Sobre a foto tão singular
Andamos por todo o lado
Voltamos sempre ao lugar.
E até a côr do retrato
Está no tempo passado
Castanho, sépia, exacto
Num desenho recortado.
O tempo desses meninos
É um profundo mistério
Por cada um dos destinos
Entre o cómico e o sério.
Sobre o processo mental
De quem guardou o incenso
Há um olhar principal
Um tempo inda suspenso.
Na naveta da memória
Nas casas da nostalgia
Estamos todos na glória
De cantar em cada dia.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

sábado, 13 de abril de 2019

Encomendação das Almas no Palácio Baldaya



Encomendação das Almas no Palácio Baldaya

Quem canta por conta sua
Canta sempre com razão
Nas Corgas cantam na rua
No Baldaya foi num salão.
A Cultura e a Natureza
Unidas numa oração
A cantar também se reza
Pela voz dum coração.
Entre as sete senhoras
A voz do homem pontua
Esta liturgia das horas
Numa igreja que é a rua.
Ficou o cheiro da cera
Das velas duma lanterna
Perfume de Primavera
Nem antiga nem moderna.
E num Dia do Senhor
Voz do Campo na Cidade
Veio levantar um clamor
E deixar uma saudade.
Bendita e louvada seja
A força que fez juntar
Numa privada igreja
Este grupo neste lugar.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor Desconhecido)