quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma gramática de luz



Uma gramática de luz

A cidade, esta cidade de Lisboa tem uma gramática de luz que só se descobre quando, por um acaso no seu quotidiano sempre igual, o cidadão que a habita se vê obrigado a levantar-se muito cedo. Por muito cedo entendemos as seis horas da manhã. Mas não só o levantar; era preciso levar um elemento da família ao local de trabalho num automóvel que por acaso tinha uma marcação á porta da oficina da marca antes das oito horas da manhã para a revisão dos 135 mil quilómetros. De Moscavide ao Aeroporto foi como se estivesse a chegar de uma viagem à Europa. A cidade começava a abrir os olhos e, tal como uma pessoa, dava início a mais um dia sacudindo o sono da noite e dando os primeiros passos. Era ainda muito cedo, tão cedo que cheguei á oficina às sete horas em ponto. Tinha sido uma viagem verde desde o verde simpático dos semáforos ao verde feliz das árvores da Avenida Defensores de Chaves. Pouco a pouco a luz avança contra a névoa, uma ambulância sacode a pacatez da avenida com o som estridente da sua urgência. Será um velhinho ou uma criança, o início ou o fim da maratona que é, afinal, a vida?. Não sei nem nunca saberei. A velocidade não permite a identificação. Estou sentado num velho automóvel à porta de uma oficina para entregar à competência dos técnicos a revisão dos 135 mil quilómetros. Entretanto a gramática de luz da cidade vai conjugando as várias formas do verbo sorrir. A mulher da limpeza, o mecânico a chegar, o segurança que sai de turno, todos me dizem bom dia e me abraçam num sorriso lento, cósmico e doce. E chega a minha vez de dizer em voz alta, embalado na gramática da luz: Bom dia, Lisboa! Minha Cidade, Meu amor!        

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Alexandre Nobre)