quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ruy Belo


Ruy Belo

Na tua morte lembrei-me do canal do Panamá
Uma coisa que de certeza não te deve dizer nada
Agora que circulas pelo traçado de uma outra estrada
Á procura de uma praia como a Consolação – e que não há.
Formado em Direito Canónico e leitor de jornais desportivos
É possível que não conheças a história deste canal
Ainda por cima ele é tão longe de Portugal
E desse tempo há hoje apenas três operários vivos.
Morreram mais de vinte mil trabalhadores franceses
E nas sepulturas há apenas um número que os identifica
Não sei se morreste de malária ou febre-amarela – nada te rectifica
E nada me devolve as palavras que te ouvi algumas vezes.
Cada um escreve à sua maneira o poema que lhe calha
E tu já não podes acrescentar nada à tua poesia
Na tua morte percorro a tua margem de alegria
E peço-te desculpa por alguma inevitável falha.

José do Carmo Francisco 


(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo


Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo

Tu comias uma banana dentro de um pão
E nunca paravas de jogar em toda a Ilha
Nos torneios diários de futebol de salão
Dando às equipas um toque de maravilha

Nas férias eu já não era o teu treinador
Mas o amigo sempre atento e preocupado
Procurando que te alimentasses com rigor
E seguindo os teus passos por todo o lado

Em Lisboa eu era então o teu motorista
E pronto a ir buscar-te a qualquer hora
Tua ligavas mal o avião chegava à pista
E nós ficávamos a falar pela noite fora

Agora tu fazes anúncios de publicidade
Não tens tempo para o treinador antigo
Mas nada destrói a força duma amizade 
E nunca deixei de ser muito teu amigo


José do Carmo Francisco   

(fotografia de autor desconhecido)

sábado, 4 de janeiro de 2014

Frente ao Jazigo em Sesimbra


Frente ao Jazigo em Sesimbra

Podias ter morrido no Porto ou em Coimbra
Nas curvas das estradas dessa antiga idade
Teu corpo repousa no castelo de Sesimbra
Onde tua mãe levava as flores da saudade.
Estou com gente sem memória desta dor
Que fez encher os móveis com teu retrato
Na cozinha, na sala, no quarto, no corredor
A união possível entre concreto e abstracto.
Teu nome assim por escrito e por extenso
Desenhado em pedra no silêncio do jazigo
No tempo onde eu estou e onde pertenço
Não alcanço palavras que procuro e persigo.
Encontro que não esperava com o passado
Em Sesimbra num castelo frente ao mar
Neste muro aqui em frente derrubado
Vejo a chave para os mistérios do lugar.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Luís Milheiro)