sexta-feira, 15 de julho de 2016

Marta


Marta (1985)

Nada sabes ainda dos telhados e do sol
Olhas sem ver as flores na janela.
O som dos barcos mais abaixo no rio
chega-te diluído pela distância, pelo vidro
talvez pela tua distraída maneira
de estar aqui como quem não está.
Soltas monossílabos no impulso da cadeira
- são ainda os primitivos da tua voz
a que não existe ainda e está em construção.
Sobes de tom, olhas tão profundamente
que quase assustas na serenidade.
Uma vez por outra dormes – no silêncio
dizes tudo, cansada, costas voltadas para nós.
Não tens ainda sonhos ou remorsos
demasiado pequeno é o teu universo
e levantas o olhar como quem duvida
como quem nada sabe dos telhados e do sol.


José do Carmo Francisco 

(Óleo de Maluda)

domingo, 10 de julho de 2016

Sobre Menina e Moça de Lisa


Sobre Menina e Moça de Lisa

Quando Elza foi embora
De volta ao Algarve natal
Falámos mais de uma hora
Naquele átrio principal.
Como não tinha postais
Dos seus quadros antigos
Ofereceu quatro iguais
De pintores seus amigos.
Primitivos modernos
Faltava uma designação
Nos jornais e nos cadernos
NAIFS não estava à mão.
Desenho numa gaveta
Este quadro de Lisboa
Canteiros de uma praceta
Por cima a gaivota voa.
Entre pedras do Mosteiro
E as ameias do Castelo
Olhamos um cacilheiro
E um eléctrico amarelo.
Santa Engrácia, panteão
Autocarro para Belém
Cristo Rei em oração
Reza por nós também.
Que fazemos da cidade
Trajecto de teimosia
Nas praças a liberdade
Nas casas uma alegria.
E quando o dia se cala
Das cantigas e pregões
O artista fecha a mala
Amanhã há mais razões.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Roberto Slodmank)