sábado, 30 de novembro de 2019

Jornal (António)



Jornal (António)

Foi ao almoço ao Cacém
Adormeceu no caminho
O Pedro que ia também
Ficou a brincar sozinho.

Chama Escola ao Colégio
Está na sala da Patrícia
Ana à porta é privilégio
Cada dia uma notícia.

José do Carmo Francisco

sábado, 16 de novembro de 2019



Absurdíssimo de Santos Fernando na Casa da Achada

                                                  (a Luís Santos e Pedro Oliveira)

Há palavras e navios por fretar
No porto dominados pelas algas
Nascidas do tempo explicativo.
Há depois o morto a beber
Com o ajudante e o motorista
Na viagem longa para a terra.
Há um navio na rua da cidade
À procura dum amor possível
Contra a rotina e o quotidiano.
Há um doente a sofrer de vazio
No tempo mais do que absurdo
De quem tem quatro empregos. 
Há denominador comum na cena
Cantar mesmo se nada justifica
Para se trocar a morte pela vida.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

E tem tudo a ver com a Geografia



E tem tudo a ver com a Geografia

                                      (poema autógrafo para Carlos Nogueira)

Tombou sobre a Cidade uma chuva
Capaz de enlouquecer semáforos
No fim da tarde do Campo Grande.
No Largo do Rato a mesma coisa
Não anda nem desanda o tráfego
Parado lá para a Dom João Quinto.
Quando cheguei à Torre do Tombo
Estava em Amarante com O´Neill
Desça que já não há nada a fazer!
Aqui era o Mercado Geral de Gados
Onde pelo ano de 42 o adolescente
Viu no carro da PIDE a mão a acenar.
O poema é a maneira de não morrer
Numa fresta do carro celular ronceiro
Com gente de Alhandra e Vila Franca.
Havemos de voltar a marcar encontro
Ou Vigo ou Valongo ou Pai do Vento
Talvez a Teresa volte a ter 19 anos.
Com sorte temos o bolo de iogurte
Feito pela Dona Alice só para nós
E para o Eduardo Guerra Carneiro.
Se o tempo quente lembrar a praia
Ouvimos mulheres a chamar os filhos
Luís Vítor Bruno Manuel Mafalda Sofia.
Alexandre O´Neill pode até aparecer
Do lado da Rua da Escola Politécnica
E tem tudo a ver com a Geografia.

José do Carmo Francisco
   

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Entre a rua e a freguesia



Entre a rua e a freguesia

Amargura é nome de rua
Lá nas Caldas da Rainha
Muitos lhe chamam sua
Eu porém a quero minha.
E lá na cidade da Horta
Angústias é a freguesia
Elas não batem à porta
Só trazem melancolia.
No tempo de ser recruta
Eu fazia o meu cominho
Morte e vida em disputa
E nunca estava sozinho.
Angústias permanentes
Amargura é um registo
Os tristes e os contentes
Só eu não sei se existo.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Manuel Amado)         

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Cantiga Catarinense



Cantiga Catarinense

Novembro Natal à porta
E a festa da Padroeira
Poesia em hora morta
A quadra é uma cadeira.
Quatro versos são pernas
Dá o resumo do Mundo
Com palavras modernas
Um sentimento profundo.
Entre ser bom e ser mau
Vai o menino ao leilão
Carne, louro e colorau
Leva um prato na mão.
Com tanto sol tanto pó
Cavacas doces com vinho
Não vejo pena nem dó
Para o rapaz mais sozinho.
Rebentou-lhe o morteiro
A mão ficou esfacelada
O tempo era verdadeiro
E ninguém dava por nada.
Está no ar uma cantiga
No tempo nunca distante
É uma voz de rapariga
Que fica no altifalante.

José do Carmo Francisco

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Camisola a preto e branco



Camisola a preto e branco

(poema autógrafo para Carlos Lobão)

Às segundas-feiras logo de manhã
Os jornais aqui não dão os resultados
Mas nem por isso nós somos menos
A caminho da pequena posteridade.
Quando a equipa chegou do Funchal
Havia crianças com ramos de flores
E o som feliz da nossa Filarmónica
Misturava a voz da Terra com o Mar.
No átrio todos estão à minha espera
Hoje eu sou um dos rapazes do andor
Levo a camisola lavada dum defesa
E já sei que não me posso demorar.
Se eu estiver atónito e comovido
Não tomem a sério nem reparem
Afinal é só uma nuvem de incenso
A brasa era grande como o soluço.

José do Carmo Francisco       

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Lamentação no Rossio para Ana e Marta



Lamentação no Rossio para Ana e Marta

Desiguais fusos horários
Para saber de duas filhas
Em hemisférios contrários
As duas diferentes ilhas.

Uma fica do lado inferior
Outra no Hemisfério Norte
Mas o tamanho do Amor
Tem a proporção da sorte.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Émile Claus)

sábado, 28 de setembro de 2019

As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira


As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira

Era pelo ano de mil nove quarenta e sete
Os Belenenses foram campeões em Elvas
Luís Alberto vinha de Luanda para o Liceu
Já formatado na paixão pelo azul de 1919.
Foi no Atlético de Luanda que começou
Depois no eléctrico do Chile para Belém
Encontrava três dos jogadores famosos
Mas nenhum tinha uma carta de chófer.
Eram as previsões, anseios e augúrios
Ali na palhinha do lugar no transporte
Eram três, eram cinco, era uma abada
No olhar de Amaro, Quaresma, Feliciano.
Tudo era possível mas só nos sonhos
A Revista Stadium não era nada barata
Mas todos queriam as vitórias a haver
A paixão é uma seara a perder de vista.
Da Baía de Luanda ao Mar da Palha
O mesmo azul do mar e das lágrimas
As viagens e os naufrágios esquecidos
Hoje cem anos depois do primeiro dia.

José do Carmo Francisco

(Foto de autor desconhecido)

domingo, 22 de setembro de 2019

Fala de António Durães, actor de «A dama das camélias» no São Luís em 8-9-2019



Fala de António Durães, actor de «A dama das camélias» no São Luís em 8-9-2019

O ruído do eléctrico chega aos bastidores
Mas os turistas deste «28» em tarde de sol
Esses nunca irão ler nenhum dos seus livros
Nem saber quem foi José Augusto França. 
Há uma muito lamentável caixa baixa
No nome da sala Luís Miguel Cintra
Impresso no bilhete desta récita
Por possível erro dum computador.
Nem Pai tirano nem Pátio das cantigas
Apenas a encenação século vinte e um
Com recurso a áudio-texto mas sem mail
Coisa que hoje até os sem-abrigo usam.
Seja como for eu sou um pai dividido
Entre a força do amor e as convenções
Porque o casamento da minha filha
Depende muito da dama das camélias.
Não é verdade que eu esteja indisposto
O anúncio sonoro do meu estoicismo
É apenas o que resta do século dezanove
Quando havia peixe frito e caldeiradas.
Sabemos que o amor não acaba nunca
Tal como já São Paulo nos tinha escrito
Com telemóveis logo será outra história
No fundo tudo isto permanece e continua.

José do Carmo Francisco 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Com António Fialho e Duarte Jorge, seminaristas


Com António Fialho e Duarte Jorge, seminaristas

Nesta procissão da Padroeira
Eu levava o turíbulo do incenso
À frente do pálio do sacerdote
Com um resplendor de prata.
Muitas vezes eu fui a correr
Buscar brasas ao lume da casa
Onde nasci, casa de meus avós
Que hoje é apenas uma ruína.
Outras vezes era meu tio Álvaro
Dividido entre músico e sacristão
A correr, sempre a correr a tudo
Só na torre Zé Pombo não falhava.
À frente do pálio as bandeiras
Os pendões e os estandartes
Levados por homens e rapazes
Que ouviam a grave Filarmónica.
Um grupo de miúdos aparece
A dizer a um homem solene
Que um morteiro esfacelou
A mão de seu filho curioso.
Pois não lhe tivesse pegado
Que eu agora não posso largar
A espia do pendão ao vento
(Era Novembro, o Natal à porta)

José do Carmo Francisco

(Fotografia da colecção particular de JCF)