quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Poema periférico para Mário Jorge



Poema periférico para Mário Jorge

Eu ainda comi os quadrados de marmelada
Eram dados ao intervalo pelo roupeiro Víctor
Filho do guarda-redes mais sério de Portugal.
Eu ainda fui a Bolonha como enviado especial
E vi como o árbitro careca deu a volta aos belgas
Para evitar cartões amarelos aos donos da casa.
Eu vi a melhor equipa de Iniciados de sempre
Vencer todos os jogos e marcar duzentos golos
Para as toupeiras não os deixaram ser campeões.
Eu percebi cedo que o resgate dum jogo mau
É sempre o próximo jogo que queremos ganhar
E por isso só falamos dele em toda a semana.
Eu também estava lá quando num Carnaval
Ninguém descobriu o misterioso mascarado
Que nasceu no circo tal e qual como o primo.
Hoje sei que tudo se perde no meio do pó
Porque a posteridade é mais que relativa
Com factores que não se podem controlar.  

José do Carmo Francisco  

(fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Balada da carreira da viúva



Balada da carreira da viúva

Bilhetes para o passado
Não os tem o cobrador
Quem os tivera comprado
Iria até seja onde fôr

O tempo em que os beijos
Não tinham preço ou valor
As lágrimas e os desejos
Eram grátis como o amor

Da Meda para o Pinhão
Ou no sentido contrário
Viagem dum coração
Capaz de ser solidário

Meter dentro da carreira
Os amigos de Joaquim
Sentados à sua beira
Uma viagem sem fim

Para sair em Vilarouco
Ou entrar em Ervedosa
Na viagem pouco a pouco
A carreira é vagarosa

Em S. João da Pesqueira
Desce quem vem da Horta
E ao sair desta carreira
Vai e não fecha a porta

Poço do Canto é que queria
Salvar uma alma sedenta
Camioneta desta alegria
Nunca passa dos quarenta

Entre Touça e Sequeira
Se perdeu o meu passado
Na viagem da carreira
Ninguém vai aqui ao lado

Joaquim do Nascimento
Na memória ao volante
Este livro é um momento
E a vida é só um instante

José do Carmo Francisco

(Foto de autor desconhecido)
                                                

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Poema periférico para Eduardo Guerra Carneiro


Poema periférico para Eduardo Guerra Carneiro

A velha fotografia em Mafra junta quatro talentos
Eduardo Guerra Carneiro, Nuno Guimarães, José Cid
E Adriano Correia de Oliveira, os músicos e os poetas.
Hoje apenas José Cid canta na quinta em Mogofores
Em nome da memória dessas quatro vozes antigas
No distante ano de mil novecentos e sessenta e dois.
Em Mafra se ensinava e se aprendia a matar negros
Em emboscadas, golpes de mão, assaltos de surpresa
Num Mundo apenas dividido em nossas tropas e inimigo.
Era José Cid que sempre levava ao ombro duas G três
A arma dele e a do Adriano, quase sempre cansado
A meio das marchas do pelotão na Tapada de Mafra.
As clarabóias das casas acendem mais cedo deste lado
Porque aqui o Sol chega primeiro na manhã de Lisboa
No Pai do Vento onde há hoje uma memória de moínhos.
Em Vila Real no Liceu chamavam «galego» ao Eduardo
Mas ele não se importava ele queria ser um emigrante
O Circo Mariano, os ciganos, os galegos, os nómadas.

José do Carmo Francisco
         

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Poema periférico para Thomas Francisco Sutherland



Poema periférico para Thomas Francisco Sutherland

Teu nome está na dedicatória de um livro de 2007
Escrito pelo teu tio Filipe sobre o Marquês de Alorna
Talvez por isso não é surpresa a estreia aos onze anos.
 O poema é uma casa como o Mosteiro de Alcobaça
Onde o primo Luís Almeida toca Trumpet Voluntary
De Jeremiah Clarke num casamento da nossa gente.
Aqui se juntam as cores das aguarelas da avó Joan
E as caminhadas do avô Alistair pelas montanhas
Como no mar do poema mas com pedras e neblina.  
Tudo pode ter afinal começado algures numa frase
Quando disseste preferir de longe a minha casa
Apesar dos gritos dos bêbados na Rua da Rosa.
Sinto no teu poema a música do avô do teu avô
A Filarmónica fazia peditório, arraial e procissão
Um intervalo de alegria no tempo sempre igual.
O poema é a tua casa onde cabemos todos nós
Onde te encontrou o carro-patrulha tão veloz
Chamado pelos polícias a cavalo de Lewisham.

José do Carmo Francisco    

domingo, 12 de agosto de 2018

Segunda balada para o Museu da Carrapateira



Segunda balada para o Museu da Carrapateira

No milho as sete meninas
Com o homem a fazer par
As águas frescas das minas
Matam a sede de cantar.
Na várzea desta ribeira
Tudo se dá tudo se cria
À noite junto à lareira
A ceia é sempre alegria.
Lugar feliz, verdadeiro
Do cansaço da colheita
Tulhas cheias no celeiro
Da sementeira perfeita.
Linha de separação
Entre a terra e o mar
E corta a respiração
A quem veio espeitar.
Ali qualquer distracção
Pode perder uma vida
Presa à corda com a mão
Pescaria apetecida.
Na mesa do restaurante
Em forma de um petisco
Num lugar longe distante
Ninguém lembra esse risco.

José do Carmo Francisco   

(fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Balada do Museu da Carrapateira


Balada do Museu da Carrapateira


Neste resumo do Mundo
Feito numa casa de luz
Há um sentido profundo
Do que a memória produz.
Num arado tão comprido
Puxado por dois muares
Fica um passado relido
De todos estes lugares.
Nos fósseis tão presentes
Em memória do passado
Há nas escalas diferentes
Partes do mar reservado.
Mar e terra lado a lado
Pescaria e sementeira
Há um tempo registado
Museu da Carrapateira.
Para além deste lugar
E além desta memória
Parte da terra e do mar
Entram na mesma história.
Dos corsários invasores
Vinham roubar amiúde
Escravos para os senhores
A mais bela juventude.     

José do Carmo Francisco

domingo, 22 de julho de 2018

Poema periférico para João B.S.



Poema periférico para João B.S.

Havia no ar um puro som da trompa de harmonia
No ensaio geral dos Restauradores a meio da tarde
Como no arraial à torreira do sol no centro da Praça.
Sinto no resto desse som todos os bombardinos
Todos os trombones, os fliscórnios ou as trompetes
Sem esquecer esse meu velho cornetim de 1922.
Meu avô José Almeida Penas terá tocado algures
Entre as Alcobertas, a Granja Nova e a Ramalhosa
Todas as manhãs de peditório, procissão e arraial.
Lembro as cavacas das Caldas que no sol e no pó
Se tornavam mais macias com o vinho tinto fresco
Mergulhado na celha com a água mais fria das noras.
És tu que segues hoje na nova marcha do Mundo
No lugar onde meu avô deixou o pequeno som
Do velho cornetim que hoje já ninguém toca.
Não te esqueças porque és mais que uma figura
Trazes no teu olhar o fim das minhas lágrimas
E da marcha mais grave que eu até hoje ouvi. 

José do Carmo Francisco

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Poema periférico para Fernando de Castro Branco


Poema periférico para Fernando de Castro Branco

Estamos os dois na morte de John Wayne
Aliás Marion Michael Morrison de seu nome
Lá pelos idos de 1979 tinha o Fernando 20 anos.
Os facínoras andam a monte na maior impunidade
E estou à espera de homens bons para uma posse
Mas do xerife não há nada nem novas nem mandados.
Estamos os dois e eu também penso que afinal Deus
É da Ovarense quando se trata do assunto basquetebol
E os campeonatos se perdem a três segundos do fim.
Sem todos os contactos desde Maio do ano de 2010
Que fazer agora que recuperei de novo o livro perdido
E assinado num encontro em Vila Nova de Foz Côa?
Talvez seja possível um novo encontro noutro barco
A subir o Douro entre vinho fino e amêndoas torradas
Até ao novo tempo dum novo livro assinado por si.
Um bando de corvos sobrevoa estes pensamentos
Seja aqui ou em Londres junto a Blackheath Park
Onde os meus dois netos correm sem olhar para trás.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A relva em frente



A relva em frente    

(a Jacinto do Prado Coelho)

Numa grande chuva de silêncio / Perfilavam-se as palavras
Erma cartas na praia da mesa  / Com notícias e livros distantes.
A relva em frente continuava a crescer.
Não a relva dos pastores fugidos à escola
Não a infância dos livros escolares da infância
Mas a relva possível aqui entre automóveis
E o passe social perdido nos meus bolsos.
Numa grande chuva de folhas  / Perfilavam-se as árvores
Eram os sentimentais sumários / Dum exercício escrito por fazer.
A relva em frente continuava a crescer.
Agora no mar doméstico dum grande jardim
Podia conhecer um diário talvez de bordo
(A navegação proibida numa onda de receios
Instalada em relatórios e em batas brancas)
Numa grande chuva de sons  / Perfilava-se uma melodia
Eram nuvens caseiras a dispersar  / Num céu boquiaberto pelo vento.
A relva em frente continuava a crescer.
Não havia já sorrisos à cautela nem o medo
Havia um profundo olhar uma quase alegria
Outra árvore (isto pensará quem não souber)
Aqui está pronta a dar ainda mais palavras.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Poema periférico para o Bom Retiro



Poema periférico para o Bom Retiro

O Bairro começava nos prédios da Confidente
E ia até ao fresco da Fonte de Santa Sofia
Para acabar ao lado do Colégio Sousa Martins.
No Jorge os homens jogavam ao chinquilho
Nas tardes dos sábados sem horas a contar
E as mulheres falavam na falta das azeitonas.
O homem GazCidla usava a caixa de fósforos
Para ter a certeza de que o gás não fugia
E sempre na casa com crianças ali ao lado.
Uma mulher chamou-nos gente ambulante
Mal sabendo ela a pobre o que estava a dizer
Porque a gente ambulante eram os ciganos.
Claro que já não eram ciganos como os outros
Mas o que a mulher dizia com rancor para nós
Era comos os cães do gado frente à caravana.
Ciganos a vida inteira a trabalhar para os outros
Nas hortas, nas eiras, nas vinhas, nos olivais
E a tristeza nos olhos sem idade e sem destino.

José do Carmo Francisco