segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Novo poema nº 8 para Ana Isabel


Novo poema nº 8 para Ana Isabel

O grupo de mulheres mandou o menino «brincar para a estrada» mas em 1956 não era perigoso porque entre Alcobaça e Caldas da Rainha o trânsito era muito reduzido.

As vizinhas insistiam nas toalhas limpas e nas panelas de água quente para que tudo corresse bem à criança a nascer e à mãe de vinte e cinco anos.

Porque nem a tosse convulsa nem a infecção intestinal a conseguiram derrotar é que a alegria de hoje é feita de lágrimas e de sangue pisado.    

José do Carmo Francisco  

(Óleo de Frederic Bazille)


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Novo poema nº 7 para Ana Isabel



Novo poema nº 7 para Ana Isabel

Algumas das portas dos prédios desta Rua ostentam flores pequenas em cima da madeira da porta como se ela fosse um lugar de oração e não um ponto de passagem.

Nesta liturgia urbana é como se houvesse uma missa campal: o sol, o altar, o calor, a palavra, as espécies do ofertório, as lágrimas da comunhão.

Porque em Janeiro morreu uma menina e por cada sonho adiado surge uma flor sobre a madeira da porta na teimosia ingénua mas profunda de juntar de novo tudo aquilo que a morte separou.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Henri Matisse)


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Novo poema nº 6 para Ana Isabel


Novo poema nº 6 para Ana Isabel

Esta rua discreta tem um arco de pedra como se fosse um agrafe gigante a unir duas casas; dois blocos de telhado, a parede, as portas e as janelas.

Por aqui passaram noutro tempo muitas carruagens com gente apressada; tanto quanto se podia ter pressa no século XVIII.

Porque tudo se dilui na memória dos afectos pessoais, cinquenta e cinco anos depois da primeira passagem entre a Rua de O SÉCULO (que já foi Rua Formosa) e o Hospital de Jesus.   

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Paulo Guedes)


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Brado e clamor nº 26 para Ana Isabel


Brado e clamor nº 26 para Ana Isabel

Hoje soube que na Festa do Jardim Infantil do meu neto António que tem cinco anos cantaram uma canção de José Mário Branco na qual se diz que «quando for grande quero ser pequeno». 

Poucos minutos depois vi um filme sobre Sandy Denny (1947-1978), vocalista do Grupo Fairport Convention e ainda agora rainha da pop inglesa cujo corpo repousa num dos cemitérios de Londres.

O segredo está em perceber que ao lado da luz da vida está o escuro da morte, entre o Príncipe Real e Putney Vale, um jardim e um cemitério, uma possível chave para «ser pequeno quando for grande» como diz a canção de José Mário Branco.

 José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


domingo, 12 de dezembro de 2021

Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel


Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel

Gonçalo Pereira Rosa escreve na N.G.M. que «metade dos enterros realizados em 1839 na cidade de Londres era de pequenas criaturas com menos de dez anos» e dá razão a uma ideia antiga pois «nenhuma filosofia resgata as lágrimas de uma criança».

Claro que Charles Dickens escreveu (era quase inevitável) uma mistura notável de ficção e reportagem no seu «Conto de Natal» tal como cinco anos antes já o tinha feito no seu livro «Oliver Twist».     

O segredo está em saber que os companheiros de Charles Chaplin na carroça de saltimbancos em 1910 eram do mesmo bairro pobre no qual o pai de Charles Dickens foi frequentador da prisão de devedores em Londonbridge, junto ao  Tamisa.

José do Carmo Francisco


domingo, 28 de novembro de 2021

Novo poema nº 5 para Ana Isabel


Novo poema nº 5 para Ana Isabel

«Não nos tratamos por V. Exas., não há nada disso. É uma conversa entre rapazes.» - numa carta de Maio de 1906 José Alvalade referia-se assim ao ambiente nos fundadores do Sporting Clube de Portugal.   

Tinha havido uma tentativa no ano de 1902 em Belas, outra em 1904 no Campo Grande mas só em 1906 se organizou o Sporting Clube de Portugal sob o símbolo do leão rampante do Conde de Pombeiro.

Porque é no livro de Luís Costa Dias e Paulo Barata que se explica em pormenor esse tempo dos pioneiros quando ser sócio do Clube implicava uma conduta irrepreensível e ser de boa sociedade, afinal os padrões da época.

 José do Carmo Francisco     

(Postal do Sporting CP)

 

domingo, 7 de novembro de 2021

Novo poema nº 4 para Ana Isabel


Novo poema nº 4 para Ana Isabel

Para Vergílio Ferreira «A música é sempre anterior a si, não existe no momento em que a ouvimos»; eu, modesto escriba, em Iniciais escrevi poemas para diversos compositores e intérpretes.

Um Domingo de manhã, a Filarmónica Catarinense parou à porta da casa: minha mãe fez o bolo de iogurte, minha filha Ana tinha um prato com fatias, meu pai veio encher copos de vinho para os músicos.

Porque as lágrimas não cabiam no estojo do clarinete do primo, num Domingo pouco posterior, morreu de AVC três dias depois, frente à televisão num particular Portugal-Espanha em futebol.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Novo poema nº 3 para Ana Isabel


Novo poema nº 3 para Ana Isabel

«Os livros são como o Teatro, é sempre como se fosse a primeira vez» disse Luís Miguel Cintra, encenador e actor com muitos anos de palco.

Na verdade, desde a escolha dos poemas à criação de um ficheiro no Word, o nervoso miudinho cresce e torna-se igual ao do livro anterior. E este ao anterior deste.

Porque aqui a idade não é um posto e, por mais anos que passem, a confusão permanece e a serenidade não se instala no quotidiano do autor.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Novo poema nº 2 para Ana Isabel


Novo poema nº 2 para Ana Isabel

«A Pátria só de alguns» lê-se no poema «O rio a vida» de Liberto Cruz dedicado a António Valdemar mas sendo um simples verso há nele o peso da farda e do posto, da arma e da guerra, do exílio e da morte.

Não os mesmos mas outros mais novos continuam hoje a querer uma Pátria à sua medida; rural, distante, sem voz porque calada pela força dos ditos legítimos superiores.

Porque na verdade este conflito hoje só muda de cenário e de palco mas no essencial permanece e continua como no passado.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme)