sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Poema periférico para José Carlos Almeida



Poema periférico para José Carlos Almeida

Todos os domingos de manhã são dias
De meu luto e sofrimento ao telefone
Pelo som do grito de quem dava a notícia.
Tinhas ido comprar os jornais desportivos
A saber novidades do nosso primo jogador
Que fora selecionado para as Esperanças.
Sem esperança ficámos nós num dia de Maio
Do ano de mil novecentos e oitenta e nove
A dez anos da morte do nosso comum avô.
Há na nossa vida uma álgebra tenebrosa
Com datas marcadas para todas tragédias
Todas assim sem saber como nem porquê.
De nada vale alguém circular pela direita
Quando o homicida corta todas as curvas
E se apresenta na curva pela sua esquerda.
O telefone é o mesmo e eu não mudei nada
Sei que todos estes domingos de manhã
O telefone toca para dizer da tua morte.

José do Carmo Francisco        

(Fotografia de Autor Desconhecido)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Filipe (1984)



Filipe (1984)

«Habitamos um corpo em perigo»
diria o João Miguel Fernandes Jorge
que tu não sabes sequer quem é
preso ainda à tua vida de criança
os bolsos cheios de miniaturas
as cantigas do colégio na tua voz.
E contudo poderias ter ficado ali
como já em São Bernardino no Verão
quando vias o mar para ti sem fim.
Esse mesmo mar que com os castelos
forma um dos campos ricos do teu vocabulário
que te enche a voz quando vês água
e chamas mar pequeno às minúsculas lagoas
breves como a chuva neste mês de Maio
breves como o grito de quem te viu
quase a ficar debaixo de um automóvel
em Algés – a fugir da pastelaria.
E esse automóvel não era como tu 
uma miniatura - era real e estava ali
como o mar e os castelos que quase perdeste.

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Bebé



Bebé

Só podes ver o que podes ver do berço
E choras para dizer que queres alcançar
Mais do que este horizonte submerso
No limite que determinas com o teu olhar.
Nos teus sonhos cheios de segredos
Navegas como um barco às escuras
E a cama quase cheia de brinquedos
Não te dá a alegria que procuras.
Nas palavras que apenas anuncias
Há o som dos pensamentos a nascer
Na surpresa à flor dos teus dias
Vais adormecer bebé e acordar mulher.

José do Carmo Francisco

(Foto de Mário Ribeiro)

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Poema periférico para Aurelino Costa


Poema periférico para Aurelino Costa

O Mundo é como a morte de São Bernardo
Num dos azulejos do Mosteiro de Alcobaça
Música e lágrimas, uns a rir outros a chorar.
Abriram as portas do Palácio Foz em Lisboa
Fecharam as do cemitério da minha terra
Onde a música foi a dos sinais dobrados.
O sol batia em chapa na cruz do cortejo
As velas não apagavam com a brisa do mar
Porque são de tecnologia pós-moderna.
Só as capas são iguais às velhas capas
Do meu tempo de menino nesta aldeia
Calendário entre sementeira e colheita.
Não podia estar em dois lugares nessa hora
Não podia ouvir nem piano nem aplausos
Do concerto onde seria apenas espectador.
Entre lágrimas e música passei este meu dia
Da bela despedida de meu pai a este Mundo
Que é afinal como a morte de São Bernardo.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Marta (1985)



Marta (1985)

Nada sabes ainda dos telhados e do sol
Olhas sem ver as flores na janela.
O som dos barcos mais abaixo no rio
chega-te diluído pela distância, pelo vidro
talvez pela tua distraída maneira
de estar aqui como quem não está.
Soltas monossílabos no impulso da cadeira
- são ainda os primitivos da tua voz
a que não existe ainda e está em construção.
Sobes de tom, olhas tão profundamente
que quase assustas na serenidade.
Uma vez por outra dormes – no silêncio
dizes tudo, cansada, costas voltadas para nós.
Não tens ainda sonhos ou remorsos
demasiado pequeno é o teu universo
e levantas o olhar como quem duvida
como quem nada sabe dos telhados e do sol.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção de JCF)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Poema periférico para Luísa Amaro



Poema periférico para Luísa Amaro

Os Ilhéus de Langerhans estão longe
Fora do mapa do turismo e das férias
Longe da vida e do sol das manhãs.
Esse homem foi professor em Friburg
Ló onde estudou a fundo o meu caso
Que afinal é igual em todo o Mundo.
Há 40 anos no «Popular» o meu poema
Tinha as três palavras «Na tua morte»
Porque todo o poema é uma resposta.
Todas as manhãs há uma a menos
Mas o Mundo esse não pára de rodar
Como as músicas do seu próximo CD.
Escrever é aqui uma maneira de sofrer
Para que o pó se perca na posteridade
E a canção seja mais forte que a lágrima.
Tinha razão o poeta Ruy Belo a escrever
«O medo da morte é a fonte da arte»
Por isso se junta o que a morte separou.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Poema periférico para Mário Jorge



Poema periférico para Mário Jorge

Eu ainda comi os quadrados de marmelada
Eram dados ao intervalo pelo roupeiro Víctor
Filho do guarda-redes mais sério de Portugal.
Eu ainda fui a Bolonha como enviado especial
E vi como o árbitro careca deu a volta aos belgas
Para evitar cartões amarelos aos donos da casa.
Eu vi a melhor equipa de Iniciados de sempre
Vencer todos os jogos e marcar duzentos golos
Para as toupeiras não os deixaram ser campeões.
Eu percebi cedo que o resgate dum jogo mau
É sempre o próximo jogo que queremos ganhar
E por isso só falamos dele em toda a semana.
Eu também estava lá quando num Carnaval
Ninguém descobriu o misterioso mascarado
Que nasceu no circo tal e qual como o primo.
Hoje sei que tudo se perde no meio do pó
Porque a posteridade é mais que relativa
Com factores que não se podem controlar.  

José do Carmo Francisco  

(fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Balada da carreira da viúva



Balada da carreira da viúva

Bilhetes para o passado
Não os tem o cobrador
Quem os tivera comprado
Iria até seja onde fôr

O tempo em que os beijos
Não tinham preço ou valor
As lágrimas e os desejos
Eram grátis como o amor

Da Meda para o Pinhão
Ou no sentido contrário
Viagem dum coração
Capaz de ser solidário

Meter dentro da carreira
Os amigos de Joaquim
Sentados à sua beira
Uma viagem sem fim

Para sair em Vilarouco
Ou entrar em Ervedosa
Na viagem pouco a pouco
A carreira é vagarosa

Em S. João da Pesqueira
Desce quem vem da Horta
E ao sair desta carreira
Vai e não fecha a porta

Poço do Canto é que queria
Salvar uma alma sedenta
Camioneta desta alegria
Nunca passa dos quarenta

Entre Touça e Sequeira
Se perdeu o meu passado
Na viagem da carreira
Ninguém vai aqui ao lado

Joaquim do Nascimento
Na memória ao volante
Este livro é um momento
E a vida é só um instante

José do Carmo Francisco

(Foto de autor desconhecido)
                                                

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Poema periférico para Eduardo Guerra Carneiro


Poema periférico para Eduardo Guerra Carneiro

A velha fotografia em Mafra junta quatro talentos
Eduardo Guerra Carneiro, Nuno Guimarães, José Cid
E Adriano Correia de Oliveira, os músicos e os poetas.
Hoje apenas José Cid canta na quinta em Mogofores
Em nome da memória dessas quatro vozes antigas
No distante ano de mil novecentos e sessenta e dois.
Em Mafra se ensinava e se aprendia a matar negros
Em emboscadas, golpes de mão, assaltos de surpresa
Num Mundo apenas dividido em nossas tropas e inimigo.
Era José Cid que sempre levava ao ombro duas G três
A arma dele e a do Adriano, quase sempre cansado
A meio das marchas do pelotão na Tapada de Mafra.
As clarabóias das casas acendem mais cedo deste lado
Porque aqui o Sol chega primeiro na manhã de Lisboa
No Pai do Vento onde há hoje uma memória de moínhos.
Em Vila Real no Liceu chamavam «galego» ao Eduardo
Mas ele não se importava ele queria ser um emigrante
O Circo Mariano, os ciganos, os galegos, os nómadas.

José do Carmo Francisco
         

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Poema periférico para Thomas Francisco Sutherland



Poema periférico para Thomas Francisco Sutherland

Teu nome está na dedicatória de um livro de 2007
Escrito pelo teu tio Filipe sobre o Marquês de Alorna
Talvez por isso não é surpresa a estreia aos onze anos.
 O poema é uma casa como o Mosteiro de Alcobaça
Onde o primo Luís Almeida toca Trumpet Voluntary
De Jeremiah Clarke num casamento da nossa gente.
Aqui se juntam as cores das aguarelas da avó Joan
E as caminhadas do avô Alistair pelas montanhas
Como no mar do poema mas com pedras e neblina.  
Tudo pode ter afinal começado algures numa frase
Quando disseste preferir de longe a minha casa
Apesar dos gritos dos bêbados na Rua da Rosa.
Sinto no teu poema a música do avô do teu avô
A Filarmónica fazia peditório, arraial e procissão
Um intervalo de alegria no tempo sempre igual.
O poema é a tua casa onde cabemos todos nós
Onde te encontrou o carro-patrulha tão veloz
Chamado pelos polícias a cavalo de Lewisham.

José do Carmo Francisco