quinta-feira, 18 de abril de 2019

Balada dos meninos do Montijo em 1958


Balada dos meninos do Montijo em 1958

Os meninos tão diferentes
E já passaram tantos dias
Trazem os olhares quentes
No fervor das nostalgias.
Tantos anos terão passado
Sobre a foto tão singular
Andamos por todo o lado
Voltamos sempre ao lugar.
E até a côr do retrato
Está no tempo passado
Castanho, sépia, exacto
Num desenho recortado.
O tempo desses meninos
É um profundo mistério
Por cada um dos destinos
Entre o cómico e o sério.
Sobre o processo mental
De quem guardou o incenso
Há um olhar principal
Um tempo inda suspenso.
Na naveta da memória
Nas casas da nostalgia
Estamos todos na glória
De cantar em cada dia.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

sábado, 13 de abril de 2019

Encomendação das Almas no Palácio Baldaya



Encomendação das Almas no Palácio Baldaya

Quem canta por conta sua
Canta sempre com razão
Nas Corgas cantam na rua
No Baldaya foi num salão.
A Cultura e a Natureza
Unidas numa oração
A cantar também se reza
Pela voz dum coração.
Entre as sete senhoras
A voz do homem pontua
Esta liturgia das horas
Numa igreja que é a rua.
Ficou o cheiro da cera
Das velas duma lanterna
Perfume de Primavera
Nem antiga nem moderna.
E num Dia do Senhor
Voz do Campo na Cidade
Veio levantar um clamor
E deixar uma saudade.
Bendita e louvada seja
A força que fez juntar
Numa privada igreja
Este grupo neste lugar.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor Desconhecido)

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lamentação de Wanninger a Jorge Silva Melo



Lamentação de Wanninger a Jorge Silva Melo

Tudo na vida se resume a isto:
Não haver quem atenda e pague
As facturas deste encadernador.
Uma, duas, três vezes foi em vão
Ninguém quer saber das facturas
De Wanninger, o humilde oficial.
Karl Valentin continua entre nós 
Nos cafés-teatro de fumo e música
Onde ninguém atende o telefone.
Foi o vazio deste tempo vazio
Onde não se comunica nada
Sequer o princípio da atenção.
Wanninger fala a Jorge Silva Melo
E sabe que «A mesa está posta»
No jardim do Príncipe Real.
De resto tudo continua assim
Sem resposta ao encadernador
Como o poema que ninguém lê.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 21 de março de 2019

Balada para meu neto Pedro (2019)



Balada para meu neto Pedro (2019)

Nos parabéns do postal
Todo feito artesanato
Sem pai ou mãe no aval
Há um directo contrato.
Um balão verde no ar
Rumo a um céu presente
Olha para mim a cantar
Cantigas de toda a gente.
Na boleia desta leitura
Dum livro sobre a Cidade
Lisboa é uma figura
Entre o sonho e a verdade.
No tempo do calendário
Meu neto Pedro sorria
A descer a Voz do Operário
Na escada do fim do dia.
São sessenta e oito ou sete
Os números de cada idade
O futuro tudo promete
No meio da Liberdade.
Seis e oito são a soma
Do dobro do teu registo
Se tem boca vai a Roma
Por isso nunca desisto.
Da ternura em sementeira
Do amor enquanto lema
Uma vida assim verdadeira
Não cabe dentro do esquema.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da colecção particular de JCF)

domingo, 10 de março de 2019

Balada breve para Cecília



Balada breve para Cecília

Cidade das sete gruas
Já foi das sete colinas
No labirinto das ruas
Há retratos de meninas.
No balcão sobre a cidade
Não é precisa a mobília
Chega a força e a verdade
Da presença de Cecília.
Na linha do horizonte
Onde o olhar não tem fim
A voz tem água de fonte
Que alimenta um jardim.
Um castelo e uma igreja
As batalhas e as orações
Tudo aquilo que sobeja
São motivos e razões.
Entre distância e espaço
Da paisagem povoada
O olhar desenha um laço
Outros não dão por nada.
Entre a sopa e os talheres
Peixe e carne, refeição
Povoado por mulheres
A sala tem dimensão.
Mesmo breve é alegria
Mesmo frágil é memória
Fica no registo do dia
Um capítulo da História.
Juntar dois Continentes
Fazem parte do Mundo
São distintos e diferentes
E bem iguais lá no fundo.
Perfil de mulher-menina
Sorriso que instala a paz
A balada não termina
Continua e volta atrás.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Balada da colónia balnear do Montijo



Balada da colónia balnear do Montijo

Numa toalha estendida
Que era como um muro
Estava o mistério da vida
Onde o passado é futuro.
Na caixa de fato de banho
Fundo negro branca espuma
Sem dimensão ou tamanho
Tudo é coisa nenhuma.
Sessenta anos depois
Da colónia balnear
Ficamos aqui os dois
Para sorrir e cantar.   
Na Praia da Figueirinha
Ou será na Cachofarra
Da neblina da tardinha
Só fica uma algazarra.
Do passado é só memória
E do futuro é só sonho
O poema conta a história
Do mistério que proponho.
De tantos anos passados
 A vida não se revela
Anda por todos os lados
Entre sépia e amarela.
Perto do Cais da Cortiça
Com galeras de Pegões
Um sabor a injustiça
Sem motivos ou razões
Mesmo que tente e insista
Num futuro apenas meu
Este filho dum motorista
Nunca irá para um Liceu.
Seu destino é só cantar
Na camionete da carreira
Que a colónia balnear
É tempo de vida inteira.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Poema para a Escola Primária do Montijo



Poema para a Escola Primária do Montijo

Pouco ou nada sei dos meninos da Escola do Montijo
Eu próprio estou na primeira fila mas não de certeza
A única certeza é a passagem do tempo em todos nós.
Havia só uma piada possível no Circo sobre o Arroios
Que tinha perdido no Luís Almeida Fidalgo por 8-0
Os palhaços jogavam com as palavras para dar o arroz.
Jogar com as palavras é o que todos nós afinal fazemos
Cada um no seu lugar, função ou competência particular
Umas vezes pela afirmação e outras pelo deixado silenciar.
Alguns morreram talvez mas os mortos empurram os vivos
E é deles que vem a força para olhar o espanto do Mundo
Que todos os dias se repete nas novas manhãs a chegar.
Lembro ou julgo lembrar que o Moura era mais pobre
E o Joãozinho era talvez o mais rico da primeira classe
Mas isso pouco importa hoje no momento da fotografia.
Dê as voltas que isto der eu continuo a pensar o mesmo
Pouco ou nada sei dos meninos da Escola do Montijo
Nem do menino que fui de bata branca há 60 anos.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da colecção particular de JCF)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Balada para 1978 em Santa Catarina



Balada para 1978 em Santa Catarina

Na casa onde eu nasci
E hoje é só uma ruína
Avô e Avó estão aqui
Ana Maria é menina.
Olho voltado para trás
Quem diria, quem diria
Com Ian, Lucas e Tomás
O mundo de Ana Maria.
Naquela rua tão discreta
Não se vê o Pelourinho
Os avós olham a neta
Com orgulho e carinho.
Se o frio já era mais rijo
Com Natal no calendário
Logo deixava o Montijo
Na viagem ao contrário.
Na noite da consoada
Sapatos na chaminé
Missa do galo atrasada
Caridade, esperança, fé.
Água da fonte, almude
Presépio roda a azenha
No cantar da juventude
Futuro que se desenha.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Balada para Luísa Amaro em Alcochete



Balada para Luísa Amaro em Alcochete

Uma musical cartografia
Doze faixas desenhada
Assim ninguém desconfia
E passa sem dar por nada.
Vendaval de sentimentos
Tempestade de emoções
Aqui todos os momentos
São motivos, são razões.
Um mundo que se revela
Nas etapas de um roteiro
O som que bate à janela
É a voz dum marinheiro.
Concentrada de repente
Nas notas de melancolia
Na boca de toda a gente
Vai viver até ser dia.
Em Alcochete as salinas
Esperam a tarefa solar
De romper as neblinas
Rumo ao sal que é o mar.
Servido às praias da casa
Onde a praia é de linho
O fumo que sai da brasa
Sobe ao céu devagarinho.
Num azul que é todo luz
Quem diria, quem diria
O terço do Padre Cruz
É uma sombra e um guia.
Porque se vamos saber
Fonte da arte é a morte
Nos dedos duma mulher
Há um roteiro de sorte.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor desconhecido)

domingo, 20 de janeiro de 2019

Balada da mesa de sete na casa do Monte



Balada da mesa de sete na casa do Monte

A Cultura e a Natureza
Na mesa de sete talheres
No cozido à portuguesa
Predominam as mulheres.
Os homens são apenas três
Dois Zés e Fernando é guia
As mulheres por sua vez
São quatro são a maioria.
Duas Marias uma Manuela
Uma Ana que olha o Sul
Pelos vidros da janela
Da casa de barra azul.
Um vinho branco divino
Na amizade em liturgia
São as linhas do destino
Que se cruzam neste dia.
Há o comboio derradeiro
Na direcção de Lisboa
Só está neste apeadeiro
A sombra duma pessoa.
Fui eu e fiquei à espera
Guia de marcha perdida
Setenta e dois já não era
Solução da minha vida.
Na Rua dos Mercadores
Entre Muralhas e Praça
Orgulho dos moradores
Bairristas de certa raça.
Que é assim esta vaidade
Que não discute ou hesita
Ser do centro da Cidade
Nossa coisa mais bonita.
A Natureza e a Cultura
No dia que não esquece
Aquilo que se procura
É juntar como uma prece
O azul do céu sem limite
O som da Terra a cantar
O poema já não permite
Como um rio vai pró mar.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Álvaro Carvalheiro)