domingo, 15 de outubro de 2017

Balada para uma fotografia de 1978


Balada para uma fotografia de 1978

Minha filha Ana Maria
Quando era pequenina
Ficou na fotografia
Lá em Santa Catarina.
Entre a avó e o avô
Nessa rua sossegada
O que era e o que sou
Está tudo, não falta nada.
Quarenta anos passados
O tempo quase que voa
Há luz por todos os lados
Como se fosse em Lisboa.
Seus filhos Lucas e Tomás
Meus netos junto ao Tamisa
Procuram saúde e paz
Tudo aquilo que se precisa.
Nos mistérios desta vida
Entre sonhos e escuridão
Não passa despercebida
Toda a nossa situação.
Papagaios no planalto
Com crianças e seus pais
Num tempo de sobressalto
Há horas de nunca mais.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 1 de outubro de 2017

Balada para Carlos Teixeira em Évora


Balada para Carlos Teixeira em Évora

Na Rua dos Mercadores
Ao lado da do Raimundo
Havia os vasos de flores
O cheiro era profundo.
Nos cafés daquela Praça
Eu ficava na procura
Da medalha da desgraça
Na poesia mais pura.
Feita de frio no Inverno
E de calor no Verão
O tempo não era eterno
Perdi o meu coração.
Entre o sonho e a saudade
Naquilo que eu escrevia
Estava o selo da cidade 
No poema a cada dia.
Entre muralhas e ruas
Passei parte da vida
Entre a uma e as duas
A sombra era perdida.
Ah! O Hospital Militar
Quem diria, quem diria
Que eu viria a cantar
A luz dessa nostalgia.
Dum cabo miliciano
Noventa escudos o pré
Furriel ao fim do ano
A fingir o que não é. 
Na luz da cal das paredes
Ou na chuva miudinha
Tempo do guarda-redes
Era a solidão sozinha.
Lá vai o Carlos Teixeira
A jogar pelo Lusitano
Desta ou doutra maneira
Vai se o golo do ano.
Vila Franca, Rosa Branca
Diz a canção popular
Na Escola de Vila Franca
Andámos nós a estudar.


José do Carmo Francisco  

(Óleo de Pablo Picasso)

sábado, 23 de setembro de 2017

Poema periférico para Armando Silva Carvalho


Poema periférico para Armando Silva Carvalho

Os campinos agora usam telemóvel
E jeeps velozes nas lezírias e charnecas
Onde perseguem touros tresmalhados.
Aqueles rapazes do balcão dessa tasca
Onde se vendia o seu tabaco, fugiram
E já não são rapazes nem falam assim.
Hoje os treinadores não se discutem
Nem as tácticas para vencer jogos
Por causa das apostas dos chineses.
Já não se diz o prélio nem o ferrolho
Apenas fio de jogo e linhas de passe
Por onde circula o esférico da alma.
Esperam de nós domingos da verdade
Vencer o adversário entre serra e mar
Para assim trocar a morte pela vida.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 16 de setembro de 2017

Poema Mais periférico



 Poema mais periférico     (para Fernando Venâncio)

Uma colheita perdida de palavras
Em «Os esquemas de Fradique»
Na prateleira dum alfarrabista.
No país que não lê os seus autores
Não admira este gesto das élites
Quando o livro fica fora do circuito.
Mas alguém o compra para o ler
Dezoito nos depois da dedicatória
Num Mundo que não pára de mudar. 
Periférico, marginal, sem as atenções
O livro está por fim no seu lugar
De onde parece nunca ter saído.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de Walter Humphrey)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tempestade de Verão


Tempestade de Verão

Quem diria, quem diria
Quarenta anos depois
Que a balada deste dia
Era feita entre nós dois.
Que na casa da costura
Com dedais em colecção
Uma nuvem de amargura
Traz tempestade de Verão.
Que coração naufragado
Sem direito a cemitério
Vai comigo a todo o lado
Entre a mágoa e o mistério.
Que na areia desta praia
Houve um golpe de calor
E traz no desenho da saia
Meu olhar de pescador.
Quem diria, quem diria
O mundo faz a fronteira
Entre esta luz da Abadia
E toda a Praia da Vieira.
Que Charneca é aridez
E Lezíria é abundância
O teu Bairro português
Fica longe da distância.
É uma casa, é um casal
O poço de água tão fria
Perto da estrada real
Quem diria, quem diria.
Nos livros que eu escrevia
E em poemas de nada
Uma teimosa alegria
Nasce cada madrugada.

José do Carmo Francisco      

(Óleo de Philippe Jacquet)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Balada do cabo miliciano de 1972


Balada do cabo miliciano de 1972

Segunda incorporação
Setenta e dois era o ano
Um frio no coração
Dum cabo miliciano.
Era nas Linhas de Torres
Que a Escola do Lumiar
Ensinava outros horrores
Que não morrer ou matar.
Na Rua dos Mercadores
E na Rua do Raimundo
A escola sem professores
Era o tamanho do Mundo.
Num Hospital Militar
Diligência permanente
Nunca me viram chorar
À frente de muita gente.
Noventa escudos por mês
Era o pré duma trapaça
O medo valia por três
Na presumida desgraça.
Duma embocada tardia
Que podia ser matinal
E a família não sabia
Mas pagava o funeral.
Era assim que eu morria
Ou de uma outra maneira
Não teria ido a Leiria
Nem à Praia da Vieira.
Naufragou nesse Verão
Minha alma de soldado
Que colada ao coração
Foi com ele a todo o lado.
Não vi cruzes nem choro
Pelo anónimo do mar
Os homens vão para o coro
Ficam bem longe do altar.
Se morresse nesse dia
Quarenta anos depois
Nenhum de nós quem diria
Lembrava o nome dos dois.
O tempo passou depressa
Na mais negra geografia
Quando perdia a cabeça
E aos poucos eu morria.
Olho o passado defronte
Num balanço negativo
A linha do horizonte
Não me garante se vivo.
Como um filme ao contrário
O meu tempo se revela
A folha do calendário
E a sombra na janela.
Dessa casa da costura
Entre a eira e a estrada
Num registo de secura
Viagem do zero ao nada.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia do autor)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Balada para um poema de David Mourão Ferreira


Balada para um poema de David Mourão-Ferreira

Dizem que era Primavera
Quem diria, quem diria
Ó meu amor quem me dera
Ter morrido nesse dia. (citado de memória)
Vai comigo a todo o lado
O remorso que subia
O tempo era o passado
Um sabor a cobardia.
E na Praia da Vieira
O melão era em fatia
A paixão mais primeira
Nunca mais acabaria.
Do naufrágio do Salsinha
Treze mortos por chorar
Quando a dor é tão vizinha
Viramos costas ao mar.
Dizemos adeus na areia
O tempo corre tão veloz
Quando chega maré cheia
Deixo de ouvir tua voz.
O amor seca as raízes
Nasce de novo e prospera
Conheço novos países
Mas na mesma Primavera.
Quem diria, quem diria
Na camioneta que passa
Morre a luz daquele dia
A caminho de Alcobaça.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 13 de agosto de 2017

Canção breve para uma foto de 1957


Canção breve para uma foto de 1957

Quem diria, quem diria
Seis por nove de ocasião
Na casa onde eu nascia
A primeira comunhão.
Era apenas na tranqueta
A porta da casa velha
O peixe frito na gaveta
Pão no tecto junto à telha.
Quando alguém ia a correr
Buscar brasas para o incenso
Com soluços de mulher
As lágrimas ficam no lenço.
Quem diria, quem diria
Sessenta anos mais tarde
O retrato que eu sabia
É a fogueira que arde.
Na casa feita em ruínas
Só uma memória resiste
Nas horas mais pequeninas
A infância é um campo triste.
Das ilusões semeadas
Numa fazenda em pousio
A eira das madrugadas
Tem o milho junto ao rio.
Era em Santa Catarina
Que os sonhos eram reais
Música ao virar da esquina
Nasciam as festas anuais.
Naquilo que foi destino
Ruínas em vez de amor
Meu retrato pequenino
Perdeu-se e não tem valor.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Balada para Hélder Oliveira


Balada para Hélder Oliveira

Transporte Sentimental
Na viagem ao passado
Este som de Portugal
Vai comigo a todo o lado.
Em Moscovo de surpresa
Os parabéns do amarelo
Uma história portuguesa
Entre a Estrela e o Castelo.
Há um homem faz agulha
No cruzamento um destino
Estou no carro da Pampulha
E sou de novo um menino. 
Vou ao Chile pela chapa
Para poder trabalhar
Troco palhinha por napa
Junto à janela o lugar.
E nas Escolas Gerais
Inda resiste a carreira
Avisos não são de mais
Cuidado com a carteira.
Num dia de manhã cedo
Escola Marquês de Pombal
Fiz o exame do medo
No Instituo Comercial.
No mapa desta cidade
Há jogos no calendário
Tapadinha e Alvalade
Luz e Restelo ao contrário.
Foi de eléctrico atrelado
No Estádio foram leões
E o Celtic foi festejado
Campeão dos campeões.
Lá vai Helder de Oliveira
Que caminha sem receio
Está na Praça da Figueira
Saudando o guarda-freio.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Balada da sardinheira da Abadia


Balada da sardinheira da Abadia

Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta  bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.

José do Carmo Francisco    

(Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia)


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Canção para Francisco Filipe Martins


Canção para Francisco Filipe Martins

(a Luísa Amaro)

Canção da Primavera nas guitarras
Na alegria teimosa de quem chora
Como barco de repente sem amarras
Como um tempo sem passado, só agora.
Só presente, só tempo que não muda
Porque a mágoa se instalou no olhar 
De quem nesta cidade já não estuda
E vai com o Mondego para o mar.
Canção da Primavera falsa ligeira
 Palavras que não sei não sou capaz
As lágrimas vão para além da Figueira
Misturadas com o rio mas logo atrás.
Ficou uma canção para o futuro
Repetida em serenata de alegria
No tempo que a morte fez escuro
Só há resposta da força da melodia.

José do Carmo Francisco     


(Óleo de autor desconhecido)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Canção Breve para Carolina


Canção breve para Carolina

Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.
Cidade que a luz revela
Silhueta pombalina
Entre o rio e a procela
Passa uma mulher-menina.
Que deixa as suas raízes
Num país num continente
Seu olhar tem dois países
Uma imagem diferente.
Na solidão mais povoada
Dum tempo em velocidade
Ninguém a vê assustada
Quando enfrenta a cidade.
Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.

José do Carmo Francisco     


(Óleo de Michael Malm)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Balada para Dionísio Mendes em Coruche


Balada para Dionísio Mendes em Coruche

Por mais que tente e insista
No futuro que o esqueceu
Este filho de um motorista
Nunca irá para um Liceu.
Lá vem Álvaro Cunhal
Fato-macaco e lancheira
Do Norte de Portugal 
Passa a noite na Figueira.
Misturado na multidão
Na berma dessas estradas
No fim de uma reunião
Até amanhã Camaradas.
No quadrado das prisões
Vergonha de Portugal
Castigo de opiniões
De Peniche ao Tarrafal.
Do Aljube até Caxias
Vai a distância sofrida
Do que só encontra dias
Quando procura mais vida.
No carro do seareiro
Vai amizade e esperança
Os mimos vão primeiro
Logo a seguir à matança. 
Com o rancho melhorado
Os detidos desta prisão
Passam um melhor bocado
Com as coisas do carrão.
Nos Domingos de intervalo
Entre o trabalho aturado
A bicicleta é um cavalo
Que me leva a todo o lado.
Vem o Pachancho de Braga
Vem a Famel de Aveiro
Na prestação que está paga
Há um mundo novo inteiro.
Na mesa com telefonia
Copo de água a despistar
Rádio Moscovo anuncia
Tudo contra Salazar.
Descoberto o desconhecido
Nas notícias reveladas
O Mundo tem outro sentido
Vai para além das estradas.
Para Coruche e para Mora
Para Lavre e Azervadinha
Com notícias a cada hora
A terra não está sozinha.

José do Carmo Francisco  
      

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pequeno retrato dum olhar de mulher


Pequeno retrato dum olhar de mulher

Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma pequena mas dolorosa percentagem de melancolia. Como se surgisse, no seu campo visual, para além de eléctricos cheios como cachos de uvas, uma luz cinzenta capaz de tudo reduzir a escuro, a estranho e a triste. Um telefone sacode a monotonia da tarde. São pequenas conversas, pedidos de ajuda, desabafos, ligeiros acrescentos a outras conversas já passadas mas, afinal, sempre presentes. Ao fundo os livros arrumados nas estantes esperam de Fernanda a demorada atenção de quem sabe uma verdade essencial: depois da invenção da roda só o livro se pode comparar em importância na vida do Mundo. A roda deu origem a todas as viagens; o livro partilhou todas as aventuras do pensamento. Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma busca incessante de harmonia. Aos poucos a porta da livraria transforma-se num quadro onde as personagens se cruzam ao ritmo de uma marcação teatral. Como se cada toque de campainha de eléctrico fosse um relógio a dar as suas badaladas para acordar Fernanda da sua melancolia. Existe, no olhar cansado de Fernanda, o prenúncio de um novo povoamento do seu espaço. A rua vai ficar mais alegre, as cores das pessoas e das coisas vão mudar, o tempo vai ter um ritmo de alegria e de descoberta, o calor do Verão vai trazer uma nova cadência aos dias de Fernanda que percorre, aos poucos, um caminho de imprevistas emoções.
Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma inquieta mas teimosa procura de outros ritmos de vida e de outros lugares de ser. Onde seja possível conjugar todos os verbos de uma nova gramática de sons. Mais vivos, mais quentes, mais inteiros e mais felizes.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Fréderick Carl Friesske)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma gramática de luz



Uma gramática de luz

A cidade, esta cidade de Lisboa tem uma gramática de luz que só se descobre quando, por um acaso no seu quotidiano sempre igual, o cidadão que a habita se vê obrigado a levantar-se muito cedo. Por muito cedo entendemos as seis horas da manhã. Mas não só o levantar; era preciso levar um elemento da família ao local de trabalho num automóvel que por acaso tinha uma marcação á porta da oficina da marca antes das oito horas da manhã para a revisão dos 135 mil quilómetros. De Moscavide ao Aeroporto foi como se estivesse a chegar de uma viagem à Europa. A cidade começava a abrir os olhos e, tal como uma pessoa, dava início a mais um dia sacudindo o sono da noite e dando os primeiros passos. Era ainda muito cedo, tão cedo que cheguei á oficina às sete horas em ponto. Tinha sido uma viagem verde desde o verde simpático dos semáforos ao verde feliz das árvores da Avenida Defensores de Chaves. Pouco a pouco a luz avança contra a névoa, uma ambulância sacode a pacatez da avenida com o som estridente da sua urgência. Será um velhinho ou uma criança, o início ou o fim da maratona que é, afinal, a vida?. Não sei nem nunca saberei. A velocidade não permite a identificação. Estou sentado num velho automóvel à porta de uma oficina para entregar à competência dos técnicos a revisão dos 135 mil quilómetros. Entretanto a gramática de luz da cidade vai conjugando as várias formas do verbo sorrir. A mulher da limpeza, o mecânico a chegar, o segurança que sai de turno, todos me dizem bom dia e me abraçam num sorriso lento, cósmico e doce. E chega a minha vez de dizer em voz alta, embalado na gramática da luz: Bom dia, Lisboa! Minha Cidade, Meu amor!        

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Alexandre Nobre)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Senhora do Monte


Senhora do Monte

Teu nome é princípio de oração
Palavra impressa numa pagela
A marcar um livro no cadeirão
Da casa da costura na janela.
Teus olhos são ponto e destino
Deste romeiro cansado no altar
Feliz por ser mais um peregrino
Com força de sorrir e de cantar.
Teu rosto é a capela tão perfeita
Que nela todo o tempo principia
A cruz entre esquerda e direita
É o centro do amor de cada dia.
Outra coisa não se pode proclamar
No caminho a subir da minha vida
O poema é o teu nome e o teu lugar
Na liturgia quotidiana e repetida.


José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Búzio


Búzio

Sofia tem o perfil de sentinela
Na sala povoada por meninas
O olhar abre a cidade na janela
Com cortejo de pressa e rotinas.
Com paisagem de árvores e gruas
Onde sobe material de construção
As chuvas afastam a gente das ruas
Juntando todos de novo em oração.
Sofia tem o perfil de sentinela
Tempo que passou noutra cidade
Há neste céu azul súbita estrela
Que brilha em nova claridade.
Na sombra se aponta o mistério
Pontua o tempo a luz do seu olhar
No Mundo agora em planisfério
A sua voz concentra o som do mar.


José do Carmo Francisco 

(Óleo de Paul Gustave Fisher)   

terça-feira, 18 de abril de 2017

Dissertação sobre um amor


Dissertação sobre um amor

O amor não morre nunca. Todos os dias nasce de novo com a madrugada. Então rompe na escuridão mais negra e do silêncio mais fundo, empurra com força a névoa e canta, canta a idade da sua paixão. O amor não morre nunca. Em 1973 uma menina-mulher chegava à cidade com o sétimo ano do liceu debaixo do braço. Trazia um fogo no olhar, uma luz diferente, mesclada entre as praias e a serra. Sentada no miradouro do jardim da Estrela não via os pombos das aldeias à volta de Leiria nem as gaivotas fugidas à tempestade de São Pedro de Muel. Outra paisagem, outro povoamento. Era uma menina-mulher e as «maçãs do rosto» cheiravam mesmo a maçã. Todo o seu rosto era uma geografia de sentimentos. No seu cabelo apetecia-me semear todos os meus sonhos. E os sonhos dela. Nos seus lábios apetecia-me matar toda a minha sede. E a sede dela. Nos seus ouvidos apetecia-me contar todos os meus segredos. E ouvir os dela. Hoje, 30 anos depois, a mulher-menina mantém intacto o fulgor dessa geografia de afectos. A voz é igual à voz desse tempo inicial, tempo de descoberta e de fascínio. Trinta anos depois, na passagem do tempo, nada se perdeu do timbre, da altura e do calor dessa voz que trazia o campo para a cidade. A voz da menina-mulher abria-me as portas de todos os celeiros, de todas as adegas, de todas as casas, de todos os palheiros. Ouvi-la era ser, de repente, cavador e abegão, pastor e lagareiro num lagar que produz o mais fino azeite da Serra de Aire. Hoje ouvir a sua voz de mulher-menina é estar de novo no meio da eira, saber a gramática das sementeiras, ouvir a campainha dos bois, rezar para que não haja colheitas perdidas, oferecer vinho a quem passa no dia de Pão por Deus. O amor não morre nunca.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Romaine Brooks)