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sábado, 5 de julho de 2025

Celeste


 Celeste

Foi aluna da Casa Pia
Fez sementeira feliz
na manhã daquele dia
Que deu Pátria ao País
Ao juntar cravos à G3
Criou uma nova aliança
Deu ao tempo português
O horizonte da esperança

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 31 de maio de 2025

Canção trigésima sétima para Ana Isabel


Canção trigésima sétima para Ana Isabel

Havendo até quem duvide
Mas este lugar ajardinado
Já foi uma Escola da PIDE
Num pretérito passado.
Há quem teime e insista
Querem apagar a História
O Arquitecto paisagista
Só diploma, não memória.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido - o povo a assistir à ocupação da Escola pelos Militares na Revolução de Abril)


domingo, 6 de outubro de 2024

Novo poema nº 50 para Ana Isabel


Novo poema nº 50 para Ana Isabel

As três mesas juntas formam um rectângulo mas eles viram as costas ao tapete verde do jogo da Supertaça que a TV transmite em directo de Aveiro.

O vocabulário limitado, escasso e pobre é um evidente sinal de inferioridade tal como o uso da palavra mano para com alguém que não é irmão, tudo isto revela o básico universo de palavras do rapaz alcoolizado.

Porque entre as garrafas de cerveja a povoar as mesas juntas e a frase «Eu estou aqui», a única Supertaça em disputa é a do vazio, do temor e da morte. 

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


domingo, 21 de janeiro de 2024

Novo poema nº 42 para Ana Isabel


Novo poema nº 42 para Ana Isabel

Eram frugais os cavaleiros de Nuno Álvares Pereira a caminho de Monchique; davam de beber aos cavalos na ribeira de São Teotónio, a seguir rezavam e só depois comiam pouco e devagar.

É por tudo isso que ainda hoje tanto a imagem e como o altar antigo permanecem e continuam no pequeno Santuário do Monte da Orada.

Porque nem tudo se perde na erosão do tempo que, sempre e todos os dias, trabalha para o lado do esquecimento.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

25 de Abril para uma jovem

 


25 de Abril para uma jovem
 
Na caixa postal da tua idade
Deposito aos poucos a memória
 
Sei coisas que tu não imaginas:
A fome diária mal disfarçada
Ao longo das batatas da semana.
Os pés descalços na missa de domingo
Entre botas de quem podia mais.
A lágrima numa medalha ao sol
Num dia dez de Junho na TV.
 
Sei coisas que tu não imaginas:
A morte a instalar o luto
Por telefone e telegrama à porta.
A Europa num comboio nocturno
Sem fronteiras para a dor.
As prisões como navios pedidos
À procura duma chave ou da luz.
 
Podia ser um pedaço de pão
Hoje não se curvam já a ele
Nem o beijam em respeito à vida.
 
Perdem-se em buracos de som
Sapatos de ténis debaixo da terra.
 
E não escrevem cartas nem escrevem
O que não sabem nem procuram.
 
In «Leme de Luz»  (edição Sol XXI Poesia - 1993)   
 
José do Carmo Francisco

(Desenho de Manuel Ribeiro Pavia)

 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Balada para Adelino Gomes



Balada para Adelino Gomes

Tanta gente que foi presa
Para que houvesse eleições
Entre as urnas e a mesa
Com os sonhos e as opções.
Aqui vai Gomes Adelino
Como se escreve em França
Traçar um novo destino
Sementeira de esperança.
No Largo onde o capitão
Dá fogo com pré-aviso
E a força da multidão
É tudo o que é preciso.
Aqui não cabe ninguém
O Largo ficou repleto
Veio gente de Santarém
Trazia um plano secreto.
O Estado a que isto chegou
Já não pode continuar
E o soldado regressou
Do outro lado do mar.
Capitão Salgueiro Maia
Pela Rua do Arsenal
Havia uma outra praia
No destino em Portugal.
No mapa das prisões
Peniche, Aljube, Caxias
Tarrafal deu as razões
Para a força destes dias.

José do Carmo Francisco     

(fotografia de Carlos Gil)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pranto e lamentação de Joana em 22 versos


Pranto e lamentação de Joana em 22 versos

O nosso vinte e cinco de Abril veio tarde de mais
Setenta e quatro deveria ter sido sessenta e um
O meu irmão foi dos primeiros, ainda fardas velhas
E veio numa caixa de pinho como se diz na canção.
Aqui houve plenários, as secretárias tinham tabaco
E eu ia ao lado das manifestações e dos cadernos
Eu então reivindicava outro vinte e cinco de Abril
Para que o meu irmão já não morresse na guerra
As lágrimas de minha mãe teriam ficado por chorar.
Houve delegados sindicais e comunicados a stencil
E votos de punho erguido em plenários concorridos
Nas escadas de vidro vejo subir gente apressada
E nas sombras julgo ver o meu irmão mais novo
Como se não tivesse havido morte nem lágrimas
Que minha mãe chorou quando leu o telegrama.
Não canto, nunca mais cantei as modas da terra
A minha voz está na lama dos caminhos, no escuro
Lá onde toda a harmonia se desintegra tão devagar
Na noite onde o silêncio é mais forte que o soluço
Soluço repetido, magoado, duplo, de duas mulheres
Enquanto meu pai no terraço e fuma outro cigarro
Longe de nós para que ninguém oiça nem perceba.

José do Carmo Francisco  

(O óleo é de Linda Christensen)          

sábado, 11 de maio de 2013

25 de Abril para uma jovem



25 de Abril para uma jovem

Na caixa postal da tua idade
Deposito aos poucos a memória

Sei coisas que tu não imaginas:
A fome diária mal disfarçada
Ao longo das batatas da semana.
Os pés descalços na missa de domingo
Entre botas de quem podia mais.
A lágrima numa medalha ao sol
Num dia dez de Junho na TV.

Sei coisas que tu não imaginas:
A morte a instalar o luto
Por telefone e telegrama à porta.
A Europa num comboio nocturno
Sem fronteiras para a dor.
As prisões como navios pedidos
À procura duma chave ou da luz.

Podia ser um pedaço de pão
Hoje não se curvam já a ele
Nem o beijam em respeito à vida.

Perdem-se em buracos de som
Sapatos de ténis debaixo da terra.

E não escrevem cartas nem escrevem
O que não sabem nem procuram.

In «Leme de Luz»  (edição Sol XXI Poesia - 1993)    

José do Carmo Francisco

(Fotografia de José Marques)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato



Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato

Para acabar com o luto
De noivas, avós e mães
É que a noite deu fruto
Nas armas dos capitães.
Nas portas da madrugada
De Santarém nos limites
Foi Lisboa atravessada
Pelo grupo de Chaimites.
Passou no Terreiro do Paço
Ali bem defronte do rio
A caminho doutro espaço
Deu a volta no Rossio.
Para cercar com disparos
O Governo de surpresa
O quartel com fiéis raros
Tinha ali a sua defesa.
Porque foi em S. Torcato
Escola Primária pequena
Que desenhou o formato
De tanta força serena.
Vendo o pai ferroviário
Com a lancheira já fria
Quis o país ao contrário
Da guerra veio alegria.
Hoje é só mercadorias
Venda Novas ao Setil
Não se repetem os dias
Na estação que era febril.
Veio um grupo de rapazes
A governar a Nação
São coladores de cartazes
A cobrar a comissão.
Nada sabem do passado
Nem da guerra africana
Cada momento gravado
Cada dia uma semana.
Os votos de dois milhões
São apenas maioria
Porque ganhar eleições
Não chega a democracia.

José do Carmo Francisco 

(Foto de Alfredo Cunha)