quinta-feira, 26 de junho de 2014

Café contigo


Café contigo

Misturas no café os teus sabores
A campo, a celeiro e a pomares 
Na verdade, vás para onde fores
Tudo se modifica ao chegares.

Dispensas o açúcar que te dão
E fica abandonado sobre a mesa
Tens doses de doçura em tua mão
E nos olhos a espuma da beleza.

Mas não dispensas a colher pequena
Capaz de equilibrar a mistura
Entre a força africana tão serena
E a luz tão doce da Estremadura.

Misturas no café o teu sorriso
Que trazes na pele do teu dia
Beber café contigo é o paraíso
É estar na capital da alegria.


José do Carmo Francisco    

(nota: este poema foi musicado por José Cid e faz parte de uma das suas antologias editadas em cd)

 (O óleo é de Boyko Kolev)

sábado, 7 de junho de 2014

Retrato breve de Filipa em Vila Franca


Retrato breve de Filipa em Vila Franca

Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação 
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Há memória da barcaça
Com automóveis e gente
Ao lado fica um jardim
O ringue de patinagem
Os jogos não tinham fim
As palmas eram coragem
Olha de longe o Mouchão
Onde só olhar é preciso
E a terra vem dar razão
A quem busca o paraíso
Água, fogo, ar e terra
Conjugados num lugar
Coração em pé de guerra
Tem um poema de cantar
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade

José do Carmo Francisco


(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Segundo poema para Manuel Fernandes (1986)


Segundo poema para Manuel Fernandes (1986)

Não lhe podem já tirar tudo
mas escondem-lhe o nome, os golos,
as vozes de quem, nas humildes casas
lhe grita o nome à volta do som dum rádio
nas tardes interrompidas dum quotidiano igual.
Não são homens – são sombras, escondem o rosto,
furtivos, fechados nos gabinetes, nos automóveis,
roubam os sonhos, decretam a morte civil
dum jogador assim perseguido sem porquê.
Não lhe podem já tirar tudo
ao menos ficam os troféus oficiais, as recordações,
as homenagens mais particulares
as fotografias dos jornais e os abraços
dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Não são homens – são sinais dum castigo
que se perde no fundo do tempo, longe,
lá onde começou a primeira de todas as guerras
lá onde tábuas de morte se pregaram num coração.

José do Carmo Francisco    

(fotografia de autor desconhecido)

domingo, 11 de maio de 2014

Pranto e Lamentação para a Filipa em Maio


Pranto e Lamentação para Filipa em Maio

Eu oiço a voz calorosa do major Raúl Brandão
Na mesa mais distante do café da Faculdade
Sentada de costas vejo a princesa do mouchão
Que trouxe a luz do campo ao escuro da cidade.
Do que ficou das cheias formou-se um aluvião
Lodo, areia e matérias arrastadas nas correntes
A demora para processar esta nova situação
Leva milhares de anos vagarosos e pacientes.
Escreva sobre os Pobres lhe disseram numa casa
Num pátio de anarquistas numa noite de Lisboa
Filipa que estudava as palavras em fogo e brasa
Levou consigo a chave para decifrar uma pessoa.
Voltaremos todos nós a essa mesa mais distante
Do lado esquerdo da porta principal do edifício
Para saber o pormenor mais fino e importante
Da viagem iniciada ao esplendor do seu ofício.

José do Carmo Francisco    

(O óleo é de  Paco Ferrando)
     

terça-feira, 29 de abril de 2014

Atalaia da Barroca - um olhar sobre as casas velhas


Atalaia da Barroca – um olhar sobre as casas velhas

Atalaia da Barroca: nome antigo, fonte sem água, caminhos de silvas e de pó. Ao lado passa uma estrada do século XXI; vinte metros de distância e dois séculos de diferença. Ao som da água contra as pedras da ribeira, apenas os pássaros replicam a melodia que nunca termina. As uvas pretas estão ao lado das pedras e dos figos mas ninguém as vem colher. Aqui houve rapazes (tio Manuel, tio João, tio Nascimento) que subiam às figueiras. Maria do Rosário ficava em casa com a mãe. Aqui comia-se o que a terra dava; couves ou batatas, feijões ou grão-de-bico, favas ou ervilhas, os mimos da horta. Atalaia da Barroca, lugar onde respira ainda o que sobejou do primeiro paraíso. Onde tudo era justo, suficiente, pleno e circular. Entre sementeira e colheita, entre esforço e prémio, entre suor e festa, entre luz e sombra, ser feliz era então aqui um ofício de todos os dias.   

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Balada da casa da Ericeira


Balada da casa da Ericeira

A casa que não é minha
Mas onde me sinto bem
Os galos de manhãzinha
Não deixam dormir ninguém

O vento traz a frescura
Que bate à porta do Verão
Uma varanda segura
Longe da maior confusão

A janela dá para o mar
O pinheiro serve de espelho
Que reflecte a luz do lugar
No moinho branco e velho

Caldeirada de paciência
Faz refeição de alegria
Entre a arte e a ciência
Esplendor de gastronomia

Entre o mar e a montanha
A casa é balcão voltado
Para uma luz estranha
Que vem ter a este lado

Nesta escada da paisagem
Com o mar aqui defronte
É no azul desta viagem
Que desenho o horizonte

A casa que não é minha
Mas onde me sinto bem
A serra é nossa vizinha
O mar fica mais além

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Autor Desconhecido)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

As maças de Marta (Divertimento)


As maçãs de Marta (Divertimento)

São vinte e nove as caixas de madeira
A caminho do frigorífico num casarão
A terra ficou vermelha em sementeira
Foi o vento que à noite as pôs no chão

Lá as maçãs vão durar até Fevereiro
Resistindo à passagem das estações
Marta colou nestas caixas um letreiro
A fim de evitar possíveis confusões

Vejo as maçãs de Marta em Espanha
Na página dum livro semi-apodrecidas
A sua terra ficou ainda mais castanha
Juntando no meu poema as duas vidas

Marta López, minha amiga em poesia
Marta Lopes, minha filha mais pequena
O poema as veio juntar num fim de dia
Criando uma alegria profunda e serena

José do Carmo Francisco     

(O óleo é de James Borger)

domingo, 30 de março de 2014

A Voz de Fernanda


A voz de Fernanda

No som da tua voz há uma mistura
De alegria e de tristeza combinadas
Há nela todo o calor da tua ternura
Mais o frio trazido nas madrugadas

Oiço o som das tardes de sementeira
Na voz dentro do telefone da cidade
No entanto a sensação é verdadeira
Porque tudo na tua voz fala verdade

No som da tua voz há uma mistura
Do campo e da cidade de ruas vazias
Onde autocarros cheios de amargura
Passam junto à tua casa todos os dias

Oiço nela o som das tarefas da cozinha
Sinto nela o calor do forno a cozer pão
A tua voz nunca está longe nem sozinha
Está comigo entre o ouvido e o coração


José do Carmo Francisco

(Óleo de Karl Schmidt)

domingo, 16 de março de 2014

O gato da Fernanda - nove fragmentos


O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

José do Carmo Francisco 

(óleo de Carla Raadsveld)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Balada para uma foto de Guilhermina


Balada para uma foto de Guilhermina

Entre menina e menina
Entre Cecília e Teresa
Retrato de Guilhermina
Aparece de surpresa
Num livro é marcador
A convocar a leitura
A citação ao dispor
De quem vai à procura
Linhas de sabedoria
Nos livros que são família
O sorriso ao fim do dia
Entre Teresa e Cecília.
No jardim a tarde encerra
Livro novo que se festeja
Longe da paz e da guerra
Batem sinos de uma igreja
Passam comboios repletos
De gente cansada, urbana
Nos seus desejos secretos
Pensam no fim-de-semana
Retrato de Guilhermina
Apoteose em beleza
Entre uma e outra menina
Entre Cecília e Teresa.

José do Carmo Francisco

(foto da colecção particular de JCF)