quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Canção breve para José Paulo Ramos

 


Canção breve para José Paulo Ramos

No espaço do Pelourinho
Era a casa do Zé Latoeiro
Nunca me sinto sozinho
E chego sempre primeiro.
Sei que era um cemitério
Onde hoje é uma Avenida
Há dose forte de mistério
Nas linhas da nossa vida.

José do Carmo Francisco
 
(Aguarela de José Paulo Ramos)

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Balada da Calçada do Combro

 


Balada da Calçada do Combro
 
A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses
 
Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas
 
Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz
 
Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão
 
Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua
 
Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura
 
Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias
 
«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais
 
Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada
 
Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso
 
Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado
 
Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 7 de dezembro de 2025

Balada para os 50 anos da ADECO


 
Balada para os 50 anos da ADECO
  
Os anos já são cinquenta
É um especial aniversário
E aquilo que representa
Vem do olhar visionário.
A ADECO é uma Escola
Vai para além do ensino
O saber não pede esmola
Para marcar cada destino.
E lá na Rua da Palmeira
No centro desta cidade
Seja qual for a maneira
Nas salas há só amizade.
O recreio é outro Mundo
Entre as regras e os valores
O sentimento é profundo
Crianças vão ser senhores.
Num caminho da alegria
Ninguém se sente sozinho
Na memória em nostalgia
Vemos Victor e Zé Pinho.
A ADECO não vai parar
Esta marca é diferente
O seu é tempo de amar
Onde cabe toda a gente.
No Inventário e Balanço
Cinquenta anos de magia
A vida não dá descanso
Uma aventura por dia.
Seja a Orlanda ou a Dina
A sala nunca está vazia
Mesmo sendo pequenina
Permanece uma alegria.
No pátio das buganvílias
Com os pneus empurrados
Passam diversas famílias
Com óptimos resultados.
Sucessão de gerações
Na linha da nossa vida
Acumulam-se as razões
Para a festa repartida.
Para quem aqui viveu
Crianças são mais de mil
Tem um valor de Liceu
Sendo um Jardim Infantil.
 
José do Carmo Francisco
 
 (Óleo de Harold Harvey)

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Canção breve para Sandy Denny (1947-1978)

 


 Canção breve para Sandy Denny (1947-1978)

Já nasceu para ser rainha
Não abandona o reinado
A voz nunca está sozinha
É ouvida em todo o lado.
Seja em vinil ou em digital
Num quarto ou numa rua
O seu timbre de cristal
Permanece e continua.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


sábado, 11 de outubro de 2025

Canção breve do dia 27-7-1970

 


Canção breve do dia 27-7-1970

Soube da morte do velho
Ao ler um telex alemão
Presidente do Conselho
Tudo «a bem da Nação».
Na gaveta da memória
Entre cotações cambiais
Por aqui passou a História
Não temos dois dias iguais.

José do Carmo Francisco


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater


Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

 

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)
 
Não tive tempo para nada.
A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.
Não tive tempo para nada.
Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.
Não tive tempo para nada.
Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.
Não tive tempo para nada.
Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco

 
(Fotografia de autor desconhecido)


domingo, 21 de setembro de 2025

Canção breve para os meninos na Foz do Arelho


 
Canção breve para os meninos na Foz do Arelho
 
Sejam o Lucas e o Tomás
Sejam o Pedro e o António
Os quatro são gente capaz
De funcionar em harmónio.
Numas férias merecidas
Entre a Lagoa e o Mar
Quatro linhas quatro vidas
Sempre prontas a cantar.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Canção breve para o Montijo em 1958


Canção breve para o Montijo em 1958
 
Pode ser o Manuel Gaibéu
Ou o Joaquim Caramelo
Nem esta infância é o céu
Nem a memória o castelo.
Vem um homem na carroça
A vender vinho de Pegões
Nesta rua que é só nossa
Já é tudo em garrafões.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia de autor desconhecido)
 

domingo, 7 de setembro de 2025

Balada da sardinheira da Abadia


 
Balada da sardinheira da Abadia
 
Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.
 
José do Carmo Francisco    
    
(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 5 de julho de 2025

Celeste


 Celeste

Foi aluna da Casa Pia
Fez sementeira feliz
na manhã daquele dia
Que deu Pátria ao País
Ao juntar cravos à G3
Criou uma nova aliança
Deu ao tempo português
O horizonte da esperança

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)