segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre Menina e Moça de Lisa


Sobre Menina e Moça de Lisa

Quando Elza foi embora
De volta ao Algarve natal
Falámos mais de uma hora
Naquele átrio principal.
Como não tinha postais
Dos seus quadros antigos
Ofereceu quatro iguais
De pintores seus amigos.
Primitivos modernos
Faltava uma designação
Nos jornais e nos cadernos
NAIFS não estava à mão.
Desenho numa gaveta
Este quadro de Lisboa
Canteiros de uma praceta
Por cima a gaivota voa.
Entre pedras do Mosteiro
E as ameias do Castelo
Olhamos um cacilheiro
E um eléctrico amarelo.
Santa Engrácia, panteão
Autocarro para Belém
Cristo Rei em oração
Reza por nós também.
Que fazemos da cidade
Trajecto de teimosia
Nas praças a liberdade
Nas casas uma alegria.
E quando o dia se cala
Das cantigas e pregões
O artista fecha a mala
Amanhã há mais razões.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Roberto Slodmank)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

35 Anos Depois...


35 Anos Depois...

Não fazemos uma pausa à poesia.
Porque "Iniciais" é poesia.
Poesia da boa premiada pela APE
como o Prémio Revelação de Poesia (1980).

Felizmente,
35 anos depois, "Iniciais"
(inicialmente editado pela Moraes Editores, em 1981)
têm uma segunda edição
da "Apenas Livros".

Como queria José Gomes Ferreira
e quer José do Carmo Francisco:
«A poesia continua.»

Viva a Poesia!
Vivam os Poetas!

(Luís Alves Milheiro)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Olhar o monte (Viagem)


Olhar o monte (Viagem)

Vejo o monte quando olho para ti.
Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas. 
Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.
Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.   

Vejo o monte quando olho para ti.
Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Guy Troghton)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Louvor do pastel de nata (Doce Real)


Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã
O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura
Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais
No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A voz de Paulo Bragança


A voz de Paulo Bragança

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é (ela mesma) a nossa origem
Há um país, uma nação dentro do peito
Estar a ouvir é estar à beira da vertigem

Há uma luz que se prolonga na extensão
Há uma viagem a fazer dentro da voz
Ouvir-te é ser o destino de uma oração
A ligar de novo quem se julgava a sós

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é a que sabe juntar água e terra
Cantas e és o rio que fugiu já do seu leito
À procura de novos campos para a guerra

Quando tu cantas não há águas paradas
Na terra fértil da humidade, teu terreno
E há uma guerra, batalhas, emboscadas
Lá onde chega a tua voz e o teu veneno 

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Maria Eugénia


Maria Eugénia

Guardei o teu cartão nas folhas de uma agenda
As letras todas em azul, o teu nome manuscrito
Passados estes anos já faz parte de uma lenda
E dum espaço demarcado ele passou ao infinito

Veio acompanhar um pacote com novidades
De livros novos todos à espera de uma leitura
Contra o bulício e a pressa das nossas cidades
E o esquecimento que caiu sobre a agricultura

Nos nossos campos perdem-se as sementeiras
Tal como nas cidades se perdem os velhos laços
Das palavras mais essenciais e mais verdadeiras
Hoje fora dos seus valores e dos seus espaços

Quando veio nos livros ele foi lido como prenda
Trazia e conservava todo o calor do teu punho
Guardei o teu cartão nas folhas de uma agenda
Passados todos estes anos é cartão e testemunho 

José do Carmo Francisco

(òleo de Remy Boquiren)

domingo, 8 de maio de 2016

Salinas

Salinas

O sal da minha terra era daqui que vinha
Trazido em vagarosos carros de madeira
O abegão guiava os bois pela manhãzinha
E o destino do sal era a nossa salgadeira

O sabor dessa carne ficava ao nosso gosto
O lume fazia de cada refeição uma festa
Pelo tempo fora desde manhã ao sol-posto
A terra esperava tão incauta e tão honesta

Por quem lhe trazia o adubo feito de suor
A querer multiplicar a grande sementeira
No perfume da ternura, na força do amor
Duma vida mais dura mas mais verdadeira

O sal da minha terra era daqui que vinha
Dois quilómetros-hora, baixa velocidade
Anos depois esta memória está sozinha
O lugar da salgadeira é hoje uma saudade

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Artur Pastor)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Costa da Caparica


Costa da Caparica

Um grupo de gaivotas fazia a escrita
Da tarde que desceu tão devagarinho
Nos tractores, na sua forma expedita
De trazer cada barco em seu caminho

À direita vinha a energia mais barata
Do velho sol que teima e que resiste
Deixando sobre  as ondas luz de prata
E oferecendo o iodo ao homem triste

Passam barcos, excursões, tractores
De encontro à maior força do oceano
Mas é no olhar atento dos pescadores
Que esta vida se decide ano após ano

A espuma já desenha o fim deste dia
No poema que é afinal feito de areia
As gaivotas numa tão feliz ortografia
Anunciam uma manhã de maré cheia

José do Carmo Francisco

(Óleo de Adriano Sousa Lopes)
  

sábado, 9 de abril de 2016

Balada para Luís Filipe Maçarico


Balada para Luís Filipe Maçarico

Adeus Lisboa, cidade
Tenho a vida em partilhas
Caldeirada de saudade
Entre Almada e Cacilhas.
Eu digo adeus às matilhas
Em tuque-tuque infectado
Cidade das maravilhas
Está perdida no passado.
Se a Poesia é verdade
No fim tem sempre razão
Na Cova da Piedade
Tive prémio e ovação.
Por Incrível que pareça
Há sempre uma Academia
À espera de nova peça
Na mais teimosa alegria.
E um Céu que tem Maria
A captar em cada imagem
O preto e branco do dia
Povoamento e paisagem.
Na proa dum cacilheiro
O Mundo tem outra escala
Com Luís Alves Milheiro
Saltam poemas da mala.
Casario do Ginjal
Conservas e tanoeiros
Aqui em frente à Capital
Cantam versos derradeiros.

José do Carmo Francisco        

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, 3 de abril de 2016

Pavão (dez anos depois)


Pavão (dez anos depois)

Diria dele não um jogador – um símbolo
Centrocampista, armador, trinco, estratego
Mas sempre símbolo talvez do próprio futebol
Uma questão mais do que de vida ou de morte
Questão aberta que teve sempre consigo mesmo
Com a camisola número seis a descer o campo.
Vejo-o, ainda hoje, na Luz, no meio da chuva,  
Os chapéus abertos ao fundo, a baliza enorme
Vítor Baptista, Jordão e Simões na sua frente
Rodolfo muito perto, Rolando mais ao longe
Encharcado de água e de talento ele passava
Com a bola a construir os mais belos sonhos
Guttman e Monteiro da Costa ficavam no banco
Mas no relvado ele desenhava o jogo, a táctica
Os impulsos físicos e morais duma equipa inteira.
Diria dele não um jogador – um símbolo
Dez anos depois da morte em pleno campo
Questão aberta que todos temos connosco.

José do Carmo Francisco (1983)

(Fotografia de autor desoconhecido)