Mostrar mensagens com a etiqueta Sonhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sonhos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de junho de 2024

Novo poema nº 47 para Ana Isabel


Novo poema nº 47 para Ana Isabel

Há nos algarismos desta idade um misto da infância que não se despede dos nove e da maturidade dos quarenta; é uma mulher-menina a olhar o Mundo no Outono de 2021.

Sobe um rumor de alegria dos pratos da Balança que simboliza toda a ternura, todo o sereno equilíbrio e todo o generoso estoicismo do signo que perdura e nunca se despede.  

Porque primeiro chegou num sonho mas o seu tempo cola-se à verdade do quotidiano do calendário na parede seja num talho seja numa oficina de automóveis; qualquer lugar é sempre tempo de Balança. 

José do Carmo Francisco 

(Óleo de Aron Wiesenfeld)


quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Novo poema nº 40 para Ana Isabel


Novo poema nº 40 para Ana Isabel

Há sonhos que se perdem dentro das ruas escuras e no barulho do mar; talvez sejam mesmo pesadelos porque trazem no seu bojo uma angústia pesada.

A cidade tem a dimensão da narrativa, desenha-se como uma novela com as suas figuras, os seus interesses e as suas expectativas. 

Porque tudo se revela quando o vento empurra a neblina para dentro do mar e os telhados começam a brilhar com o sol que se demora e faz daquela superfície uma espécie de espelho.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Luís Eme - Sesimbra) 


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater



Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

Não tive tempo para nada.
A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.
Não tive tempo para nada.
Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.
Não tive tempo para nada.
Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.
Não tive tempo para nada.
Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de autor desconhecido)
          

terça-feira, 18 de junho de 2019

Musa em canção nocturna



Musa em canção nocturna

No nocturno cancioneiro
O poema é uma resposta
Se poético é verdadeiro
Só a mentira não gosta.

Desta estranha liturgia
A ligar como oração
O sonho do novo dia
Entre instinto e razão.

José do Carmo Francisco


(Desenho de Warwick Goble)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Poema algures


Poema algures

Há um poema. Um certo poema. Julgo que esse poema é feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.  
Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeiras de infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo. Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza faz a sua sementeira multiplicada.
Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavras e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.
Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser. Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual à das brincadeiras da infância quando o Mundo estava organizado ente os sonhos e os seus resultados.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de Earl Christy)

segunda-feira, 14 de março de 2016

Balada para Nuno Costa Santos


Balada para Nuno Costa Santos

Na balada que componho
À esquina da minha idade
Tudo começa num sonho
Que de repente é verdade.
Que avança na vertigem
Do som que se junta a nós
Na voz da Terra a origem
Duma harmonia sem voz.
Que Rafael bem organiza
Nas notas que são caminho
Da melodia tão precisa
E ninguém fica sozinho.
Como se romeiro isolado
A rezar por toda a gente
Caminhasse ao nosso lado
Numa direcção em frente.
Há uma chuva paralela
No meu tempo da infância
Fechava a porta e a janela
A noite era essa distância.
E o vento trazia o mar
E o vinho era aquecido
Na lareira do meu lar
Junto ao avô perdido.
O açúcar mais barato
Era o doce sumo da uva
Que fica no meu retrato
Nas noites de frio e chuva.
Minha terra era o espaço
Sem estradas e isolado
Onde a voz marcava passo
E não ia a todo o lado.
No fim de tarde em Lisboa
Não me cansa a melodia
Rafael dá-me em pessoa
O que o «youtube» trazia
Na feliz banda sonora
Dum livro que é oração
A ligar a toda a hora
O tempo e o coração.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Jornal


Jornal

Era um jornal a tua voz tão cristalina
Às três da tarde numa edição especial
A notícia eras tu, natural e vespertina
Ao lado os turistas buscavam Portugal

Gritarei o teu nome na voz dos ardinas
Anunciando esta mais recente novidade
Tu trazes nas tuas mãos tão pequeninas 
Um fogo para dar calor a esta saudade

Guardarei feliz estes fotolitos do teu rosto
Felizmente já não há chumbo nem granéis
No frio de Março tu trazes calor de Agosto
Quando alteras a sombra dos meus papéis

E ao nosso lado ninguém dava por nada
Só eu podia ver nos teus olhos a alegria
Chamar-te jornal é uma forma exagerada
Mas tu foste a melhor notícia do meu dia

José do Carmo Francisco

(Óleo de Emile Bernard)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Aldeia


Aldeia

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Uma daquelas aldeias pequeninas
Por cima um monte, a vida cheia
Por baixo o rio de águas cristalinas 

Sinal de vida, o fumo das lareiras
Todos os dias o trigo é a verdade
E as mulheres casadas e solteiras
Cozem o pão no forno sem idade

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Na esperança de ser um habitante
Acabei preso na grande cadeia
Numa cidade afastada e distante

Hoje sou um citadino desolado
Bate o frio, vem a chuva pela rua
Na aldeia que sonhei do teu lado

Vejo uma casa vazia que é só tua

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Paul Corfield)

sábado, 17 de agosto de 2013

Balada para um menino


Balada para um menino

Numa tarde encalorada
Em que te espero na escola
O Mundo não dá por nada
Rua do amor em esmola.

Feira da Ladra, estendal
De coisas velhas, antigas
Desfazendo o enxoval
Invernos das raparigas.

Quando tempo prolongado
Pela noite escura e fria
Pressentia em todo o lado
O sonho de uma alegria.

Nós passamos pelo jardim
De esplanada barulhenta
Os anos que são para mim
Já passam dos sessenta.

Eu procuro a televisão
E os desenhos animados
Fecho os olhos com razão
Os sonhos estão acordados.

Num olhar determinado
De criança, gente em flor
Fica à espera deste lado
Da chucha e do cobertor.

Parece que há dois sóis
Na linha do céu acima
Como se os teus caracóis
Fossem a força da rima.

Fossem ritmo de balada
Do menino que procura
Na cidade desarmada
O jardim só de frescura.

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Thomas Ehertsmann)