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sábado, 5 de julho de 2025

Celeste


 Celeste

Foi aluna da Casa Pia
Fez sementeira feliz
na manhã daquele dia
Que deu Pátria ao País
Ao juntar cravos à G3
Criou uma nova aliança
Deu ao tempo português
O horizonte da esperança

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Balada para Adelino Gomes



Balada para Adelino Gomes

Tanta gente que foi presa
Para que houvesse eleições
Entre as urnas e a mesa
Com os sonhos e as opções.
Aqui vai Gomes Adelino
Como se escreve em França
Traçar um novo destino
Sementeira de esperança.
No Largo onde o capitão
Dá fogo com pré-aviso
E a força da multidão
É tudo o que é preciso.
Aqui não cabe ninguém
O Largo ficou repleto
Veio gente de Santarém
Trazia um plano secreto.
O Estado a que isto chegou
Já não pode continuar
E o soldado regressou
Do outro lado do mar.
Capitão Salgueiro Maia
Pela Rua do Arsenal
Havia uma outra praia
No destino em Portugal.
No mapa das prisões
Peniche, Aljube, Caxias
Tarrafal deu as razões
Para a força destes dias.

José do Carmo Francisco     

(fotografia de Carlos Gil)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pranto e lamentação de Joana em 22 versos


Pranto e lamentação de Joana em 22 versos

O nosso vinte e cinco de Abril veio tarde de mais
Setenta e quatro deveria ter sido sessenta e um
O meu irmão foi dos primeiros, ainda fardas velhas
E veio numa caixa de pinho como se diz na canção.
Aqui houve plenários, as secretárias tinham tabaco
E eu ia ao lado das manifestações e dos cadernos
Eu então reivindicava outro vinte e cinco de Abril
Para que o meu irmão já não morresse na guerra
As lágrimas de minha mãe teriam ficado por chorar.
Houve delegados sindicais e comunicados a stencil
E votos de punho erguido em plenários concorridos
Nas escadas de vidro vejo subir gente apressada
E nas sombras julgo ver o meu irmão mais novo
Como se não tivesse havido morte nem lágrimas
Que minha mãe chorou quando leu o telegrama.
Não canto, nunca mais cantei as modas da terra
A minha voz está na lama dos caminhos, no escuro
Lá onde toda a harmonia se desintegra tão devagar
Na noite onde o silêncio é mais forte que o soluço
Soluço repetido, magoado, duplo, de duas mulheres
Enquanto meu pai no terraço e fuma outro cigarro
Longe de nós para que ninguém oiça nem perceba.

José do Carmo Francisco  

(O óleo é de Linda Christensen)