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terça-feira, 16 de junho de 2026

Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro


Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro
 
Há muita diarreia mental
Numa montra do Chiado
Anda à solta um animal
Perdido e tresmalhado.
O delírio e a alucinação
Tomaram conta de quem
No meio desta confusão
Está na terra de ninguém.
 
José do Carmo Francisco
 
(Óleo de Marius Borgeaud)

domingo, 14 de junho de 2026

Canção breve para Manuel Monteiro


Canção breve para Manuel Monteiro
 
Há um crime sem perdão
Sofre a Língua de Portugal
O negócio foi uma razão
Faltou coluna vertebral.
Se dizem não regressar
Do crime descomunal
Cada coisa no seu lugar
Os malucos no Hospital.
 
José do Carmo Francisco

(Óleo de Charles Fraser)

sábado, 11 de outubro de 2025

Canção breve do dia 27-7-1970

 


Canção breve do dia 27-7-1970

Soube da morte do velho
Ao ler um telex alemão
Presidente do Conselho
Tudo «a bem da Nação».
Na gaveta da memória
Entre cotações cambiais
Por aqui passou a História
Não temos dois dias iguais.

José do Carmo Francisco


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Novo poema nº 9 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 9 para Ana Isabel

De Outubro de 1958 a Julho de 1961 percorri os quatro anos lectivos da Escola Primária em três anos civis. Entrei na Escola com sete anos mas nunca me sentei na fila dos burros nem dos assim-assim; sempre na dos bons.

Graças a uma carta do pároco da minha aldeia, o Ministro da Educação Nacional autorizou o exame da terceira classe em Abril e o da quarta em Julho de 1961.

Porque nunca é tarde para se fazer justiça que, sempre relativa, não deixa de ser justa mas da humilhação já ninguém me pode livrar.  

José do Carmo Francisco 

(Óleo de Karl Schmidt)


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre Menina e Moça de Lisa


Sobre Menina e Moça de Lisa

Quando Elza foi embora
De volta ao Algarve natal
Falámos mais de uma hora
Naquele átrio principal.
Como não tinha postais
Dos seus quadros antigos
Ofereceu quatro iguais
De pintores seus amigos.
Primitivos modernos
Faltava uma designação
Nos jornais e nos cadernos
NAIFS não estava à mão.
Desenho numa gaveta
Este quadro de Lisboa
Canteiros de uma praceta
Por cima a gaivota voa.
Entre pedras do Mosteiro
E as ameias do Castelo
Olhamos um cacilheiro
E um eléctrico amarelo.
Santa Engrácia, panteão
Autocarro para Belém
Cristo Rei em oração
Reza por nós também.
Que fazemos da cidade
Trajecto de teimosia
Nas praças a liberdade
Nas casas uma alegria.
E quando o dia se cala
Das cantigas e pregões
O artista fecha a mala
Amanhã há mais razões.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Roberto Slodmank)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Louvor do pastel de nata (Doce Real)


Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã
O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura
Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais
No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 8 de maio de 2016

Salinas

Salinas

O sal da minha terra era daqui que vinha
Trazido em vagarosos carros de madeira
O abegão guiava os bois pela manhãzinha
E o destino do sal era a nossa salgadeira

O sabor dessa carne ficava ao nosso gosto
O lume fazia de cada refeição uma festa
Pelo tempo fora desde manhã ao sol-posto
A terra esperava tão incauta e tão honesta

Por quem lhe trazia o adubo feito de suor
A querer multiplicar a grande sementeira
No perfume da ternura, na força do amor
Duma vida mais dura mas mais verdadeira

O sal da minha terra era daqui que vinha
Dois quilómetros-hora, baixa velocidade
Anos depois esta memória está sozinha
O lugar da salgadeira é hoje uma saudade

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Artur Pastor)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Jornal


Jornal

Era um jornal a tua voz tão cristalina
Às três da tarde numa edição especial
A notícia eras tu, natural e vespertina
Ao lado os turistas buscavam Portugal

Gritarei o teu nome na voz dos ardinas
Anunciando esta mais recente novidade
Tu trazes nas tuas mãos tão pequeninas 
Um fogo para dar calor a esta saudade

Guardarei feliz estes fotolitos do teu rosto
Felizmente já não há chumbo nem granéis
No frio de Março tu trazes calor de Agosto
Quando alteras a sombra dos meus papéis

E ao nosso lado ninguém dava por nada
Só eu podia ver nos teus olhos a alegria
Chamar-te jornal é uma forma exagerada
Mas tu foste a melhor notícia do meu dia

José do Carmo Francisco

(Óleo de Emile Bernard)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Via verde na estrada de Benfica


Via verde na estrada de Benfica

Quem sai do hospital só pensa na morte
E depois da filha em férias, nas viagens
As dores abdominais o rosto da má sorte
De não poder sorrir com ela nas portagens.
A produção de saquetas foi descontinuada
O medicamento era assim como a cecrisina
Este é hoje como um copo de água salgada
De doze em doze horas o tempo da rotina.
Quem sai do hospital só pensa na morte
Não lhe convinha morrer se fosse agora
Hoje a filha em férias segue para o Norte
Com a via verde não vai parar a toda a hora.
Vejo uma carroça num pátio de moradia
Parece ficou esquecida pela marcha popular
Há setenta anos os burros desta freguesia
Levavam na marcha gente a sorrir e a cantar

José do Carmo Francisco      


(A fotografia é de autor desconhecido)

sábado, 21 de março de 2015

Sobre Domingos Rebelo «Os emigrantes (1926)


Sobre Domingos Rebelo  «Os emigrantes» (1926)

A mulher veio da Califórnia e faz no olhar
O resumo da viagem ainda no seu início
Porque ela já foi ao outro lado do mar
Onde o sofrimento tem horário e é ofício.
 Há os dois corações nesta viola da terra
E a moldura do Santo Cristo está no lugar
A canção e a oração que o quadro encerra
São a vida que é um mistério por desvendar.
As laranjas que foram riqueza no passado
Estão num cesto a prenunciar prosperidade
No centro o olhar da rapariga está parado
No lugar onde o cais de pedra é já saudade.
Livra o casal do sol o guarda-chuva preto
Pode ser o avô ou tio, talvez até cunhado
Do abstracto se passa logo para o concreto
No quadro eterno que nunca será explicado.

José do Carmo Francisco    

(Óleo de Domingos Rebelo)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Carta a um menino pastor


Carta a um menino pastor

As ovelhas são mansas e os cães obedientes
Neste rebanho que te coube a ti guardar
Da tua flauta saem sempre sons diferentes
E as ovelhas não se afastam desse teu lugar

Na planície sem limites por onde tu passas
Ao tomar conta dos vários rebanhos divinos
Há um limite e a partir dele as desgraças
Apagam-se nos olhos de todos os meninos

Afinal menino é o que continuas tu a ser
Na maneira como falas e como caminhas
Na alegria quando vais lá longe recolher
As ovelhas afastadas distantes e sozinhas

Não sei se sabes mas andamos estranhos
Desde que partiste para a tua nova função
Oxalá consigas cuidar dos teus rebanhos
Como nós vamos cuidar da tua recordação      


José do Carmo Francisco

(Fotografia da autoria de Aníbal Sequeira)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Balada da Serra de São Mamede


Balada da Serra de São Mamede

Ai que prazer estar pedido / Na Serra de São Mamede
Onde há sempre uma ribeira / Que só de olhar mata a sede
Onde há sempre um caminho / À espera de ser andado
E onde o branco das casas / Faz contraste no telhado
Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede
Onde o relógio não corre / E pára se a gente pede
Onde o tempo dura mais / E o olhar tem amplitude
Onde o andar não desgasta  / E o cansaço é mais saúde.
Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede
Onde se pescam os sonhos / Sem ser preciso usar rede
Onde o sol mais se demora / Onde a luz chega mais cedo
Mas o peso do silêncio / Não se transforma em medo
Ai que prazer estar perdido / Entre Esperança e Nave Fria
Surgirá sempre um olhar / Capaz de dar luz de dia
A quem se perdeu na noite / Que envolveu seu coração
Mas se encontrou de novo / A caminho de São Julião.
Ai que prazer estar perdido / Entre Caia e os Mosteiros
Porque os fumos das chaminés / São os sinais mais certeiros
Duma vida mais junto à terra/ Mancha verde a multiplicar
Entre o apelo do Mundo / E o meu desejo de ficar
Ai que prazer estar perdido / Entre os Besteiros e a Parra
Para encontrar uma capela / Com o som de uma guitarra
Ai Serra de São Mamede / Grande desgosto que eu tenho
Não ser eu das tuas aldeias / Não ser também eu serrenho.

José do Carmo Francisco

(in Suplemento Fanal nº 16 de O distrito de Portalegre)

(fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Canção breve para «Canção para Carlos Paredes» de Luísa Amaro


Canção breve para «Canção para Carlos Paredes» de Luísa Amaro

Vem a melodia precisa
Em escala de Primavera
Que surpresa de Luísa
Ouvido que não espera

Quando era só companhia
Da guitarra grande a voar
Apenas olhava e ouvia
Na vertical do meu lugar

De «Devaneios flutuantes»
Ao «Jogral» já encantado
Juntando mundos distantes
Num som puro, imaculado

São raízes, são razões
Dum rio que vem dizer
A letra destas canções
Na pronúncia de mulher

Com Luísa de surpresa
Som numa nave central
A guitarra portuguesa
Faz da igreja a catedral

Tal como numa oração
Junta mundos dispersos
Para fazer uma canção
Já não precisa de versos

Basta-lhe ritmo, vertigem
Duma escala musical
Para chegar à origem
Do som que é Portugal

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)   


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pranto e lamentação de Joana em 22 versos


Pranto e lamentação de Joana em 22 versos

O nosso vinte e cinco de Abril veio tarde de mais
Setenta e quatro deveria ter sido sessenta e um
O meu irmão foi dos primeiros, ainda fardas velhas
E veio numa caixa de pinho como se diz na canção.
Aqui houve plenários, as secretárias tinham tabaco
E eu ia ao lado das manifestações e dos cadernos
Eu então reivindicava outro vinte e cinco de Abril
Para que o meu irmão já não morresse na guerra
As lágrimas de minha mãe teriam ficado por chorar.
Houve delegados sindicais e comunicados a stencil
E votos de punho erguido em plenários concorridos
Nas escadas de vidro vejo subir gente apressada
E nas sombras julgo ver o meu irmão mais novo
Como se não tivesse havido morte nem lágrimas
Que minha mãe chorou quando leu o telegrama.
Não canto, nunca mais cantei as modas da terra
A minha voz está na lama dos caminhos, no escuro
Lá onde toda a harmonia se desintegra tão devagar
Na noite onde o silêncio é mais forte que o soluço
Soluço repetido, magoado, duplo, de duas mulheres
Enquanto meu pai no terraço e fuma outro cigarro
Longe de nós para que ninguém oiça nem perceba.

José do Carmo Francisco  

(O óleo é de Linda Christensen)          

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Lamentação da mondadeira de arroz


Lamentação da mondadeira de arroz

Ontem fui à criminosa
Não há nada que se esconda
Maioral de voz raivosa
Mandou-me para a monda.
Vou passar o dia inteiro
Com os pés na água fria
Chegam as febres primeiro
Logo se afasta a alegria.
No pátio que é nosso mundo
Nunca chega a Primavera
Há um silêncio profundo
Todos ficamos à espera.
Os filhos, noras e família
A mulher que vive ao lado
São para ele a mobília
Do querer descontrolado.
Onde ninguém tem vontade
Própria, nascida em raiz
Nem sonho de liberdade
Fora do que o maioral diz.
Na Senhora de Alcamé
Procissão, bênção do gado
Todo o mistério da fé
Continua indecifrado.
Teimosia milenar
Resiste num tempo lento
Aquilo que vou cantar
É levado pelo vento.   

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Autor Desconhecido)   

sábado, 31 de agosto de 2013

Balada do Vulcão dos Capelinhos


Balada do Vulcão dos Capelinhos

O Vulcão dos Capelinhos
Na voz de Carlos Lobão
Projecta vários caminhos
Numa mesma direcção
Verdades nuas e frias
Contra o pó da emoção
Contra as pobres teorias
Só lhe interessa a razão
Vive sono nos ficheiros
Deixou de contar os dias
Argumentos verdadeiros
Saíram das secretarias
Vê a areia em telhados
E estuda o passaporte
Entre tantos sinistrados
Não resultou uma morte
Kennedy é fotografado
Como grande benfeitor
Mas não ficou provado
Que ele teve tanto valor

Pela carta americana
Bilhete de identidade
Dentro de uma semana
Já começava a saudade
Levam nos seus ouvidos
O som destas procissões
Rosários tão compridos
Envolvem seus corações
Outros embarcam a medo
Moçambique é o destino
Ninguém revela o segredo
Daquele grupo peregrino
Que se interna no capim
Numa terra tão diferente
Mesmo longe era assim
Fortes a querer ser gente
O vulcão dos Capelinhos
Na voz de Carlos Lobão
Projecta vários caminhos
Numa mesma direcção            


José do Carmo Francisco          

(Fotografia de Autor Desconhecido)

domingo, 14 de abril de 2013

A voz de Piedade Rego Costa



A voz de Piedade Rego Costa   (S. Miguel – Açores)

Minha voz passa por cima das ganhoas
Vai para além da Ponta da Madrugada
E desperta nos olhares destas pessoas
O desejo de se jogar um tudo ou nada
Lá onde a rua é o tabuleiro da cidade
Uma mesa de jogos e de fantasia
E se tudo o que eu canto é verdade
Vale a pena esperar um novo dia  

Minha voz passa por cima das ganhoas
Na viagem deste som até ao horizonte
E o eco vai depois perder-se nas lagoas
Depois da curva da estrada e do monte
Lá onde só chega o reflexo diferido
Da canção no mais escuro dum algar
Onde a terra é o silêncio adormecido
À espera da minha vontade de cantar

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor Desconhecido)   

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato



Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato

Para acabar com o luto
De noivas, avós e mães
É que a noite deu fruto
Nas armas dos capitães.
Nas portas da madrugada
De Santarém nos limites
Foi Lisboa atravessada
Pelo grupo de Chaimites.
Passou no Terreiro do Paço
Ali bem defronte do rio
A caminho doutro espaço
Deu a volta no Rossio.
Para cercar com disparos
O Governo de surpresa
O quartel com fiéis raros
Tinha ali a sua defesa.
Porque foi em S. Torcato
Escola Primária pequena
Que desenhou o formato
De tanta força serena.
Vendo o pai ferroviário
Com a lancheira já fria
Quis o país ao contrário
Da guerra veio alegria.
Hoje é só mercadorias
Venda Novas ao Setil
Não se repetem os dias
Na estação que era febril.
Veio um grupo de rapazes
A governar a Nação
São coladores de cartazes
A cobrar a comissão.
Nada sabem do passado
Nem da guerra africana
Cada momento gravado
Cada dia uma semana.
Os votos de dois milhões
São apenas maioria
Porque ganhar eleições
Não chega a democracia.

José do Carmo Francisco 

(Foto de Alfredo Cunha)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Viagem de Pedro


A Viagem de Pedro

O meu amor é uma viagem que não termina
Entre Coimbra e Alcobaça, dois mosteiros
É uma história que cabe inteira e pequenina
Dentro duns versos curtos mas verdadeiros   

Adormeci numa das vilas do Alto Alentejo
Olhando toda a lonjura quente da planície
Tão infinita como é a força do meu desejo
Mas sem volume, sem peso nem superfície

O meu amor é uma viagem que não termina
Entre a Pederneira e este porto da Atouguia
Inês traz-me um mapa na sua voz de menina
E nas mãos empurra as sete ondas da alegria

Fixei todo o meu romance entre água e terra
Entretanto o oceano recuou, ficou para trás
O meu barco apodreceu onde hoje é a serra
Mas o meu amor não encontrou ainda a paz

José do Carmo Francisco 

(foto de Luís Milheiro)  

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


(a Carlos Marques Querido)


Nasci em 1779 em Santa Catarina
Terra de gente muito dada a alcunhas
Minha mãe foi chamada a Abadessa
Gostava de andar de capas pretas
E tinha um porte altivo ao caminhar
Vinha gente de longe para me ouvir
Preguei sermões desde o ano de 1804
Na festa da padroeira Santa Catarina
Na Real Casa Pia de Lisboa em 1828
Na igreja dos Jerónimos ao Domingo
Durante sete anos andei sempre a fugir
Das tropas do general Jorge de Avillez
Que entraram em Bragança em 1834
Expulsaram a guarnição miguelista
E aclamaram de seguida D. Maria II
Avó Isabel Maria e avô Manuel Fialho
Procuraram esconder-me na Cumeira
Um amigo leal pôs quatro almofadas
Nas ferraduras dos cavalos dessa noite
Sem chamar a atenção de quem dormia
Pena eu ter vivido um tempo demarcado
Pedro no Mindelo, Miguel no Alentejo
O ódio enchia os caminhos e as valetas
Eu mesmo me escondi nuns matagais
Onde uma criança me viu desfalecido
Em Almagreira onde morri anos depois
Meu nome ficou em pedra na capela-mór
Destino singular de quem nasceu no dia
Da primeira pedra da Basílica da Estrela
E na vida escreveu palavras como pedras
Por debaixo do meu retrato na sacristia
Um bisneto do sacristão do Padre Agnelo
Lava galhetas na água da torneira prateada
Anos depois assinará um poema obscuro
A ligar de novo o que a morte separou.

José do Carmo Francisco