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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Canção breve da cutelaria catarinense


Canção breve da cutelaria catarinense

Numa pequena oficina
Toca a roda o fim do dia
Acabou-se a obra fina
Da melhor cutelaria.
E vinha segunda-feira
A comprar o material
Esta ou outra maneira
O trabalho era o ideal.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Isabel Codrington)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Musa em côr de vinho

 


Musa em côr de vinho
 
O vinho é o tempo engarrafado
O álcool, o açúcar, o frio e o calor
Das caves viaja para todo o lado
Chega às mesas dum imperador.
 
Na festa da vindima terminada
Se regista uma alegria repetida
Havia homens em fila na estrada
Cada dia surge de novo outra vida.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 22 de julho de 2018

Poema periférico para João B.S.



Poema periférico para João B.S.

Havia no ar um puro som da trompa de harmonia
No ensaio geral dos Restauradores a meio da tarde
Como no arraial à torreira do sol no centro da Praça.
Sinto no resto desse som todos os bombardinos
Todos os trombones, os fliscórnios ou as trompetes
Sem esquecer esse meu velho cornetim de 1922.
Meu avô José Almeida Penas terá tocado algures
Entre as Alcobertas, a Granja Nova e a Ramalhosa
Todas as manhãs de peditório, procissão e arraial.
Lembro as cavacas das Caldas que no sol e no pó
Se tornavam mais macias com o vinho tinto fresco
Mergulhado na celha com a água mais fria das noras.
És tu que segues hoje na nova marcha do Mundo
No lugar onde meu avô deixou o pequeno som
Do velho cornetim que hoje já ninguém toca.
Não te esqueças porque és mais que uma figura
Trazes no teu olhar o fim das minhas lágrimas
E da marcha mais grave que eu até hoje ouvi. 

José do Carmo Francisco

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Senhora do Monte


Senhora do Monte

Teu nome é princípio de oração
Palavra impressa numa pagela
A marcar um livro no cadeirão
Da casa da costura na janela.
Teus olhos são ponto e destino
Deste romeiro cansado no altar
Feliz por ser mais um peregrino
Com força de sorrir e de cantar.
Teu rosto é a capela tão perfeita
Que nela todo o tempo principia
A cruz entre esquerda e direita
É o centro do amor de cada dia.
Outra coisa não se pode proclamar
No caminho a subir da minha vida
O poema é o teu nome e o teu lugar
Na liturgia quotidiana e repetida.


José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Louvor do pastel de nata (Doce Real)


Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã
O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura
Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais
No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 8 de maio de 2016

Salinas

Salinas

O sal da minha terra era daqui que vinha
Trazido em vagarosos carros de madeira
O abegão guiava os bois pela manhãzinha
E o destino do sal era a nossa salgadeira

O sabor dessa carne ficava ao nosso gosto
O lume fazia de cada refeição uma festa
Pelo tempo fora desde manhã ao sol-posto
A terra esperava tão incauta e tão honesta

Por quem lhe trazia o adubo feito de suor
A querer multiplicar a grande sementeira
No perfume da ternura, na força do amor
Duma vida mais dura mas mais verdadeira

O sal da minha terra era daqui que vinha
Dois quilómetros-hora, baixa velocidade
Anos depois esta memória está sozinha
O lugar da salgadeira é hoje uma saudade

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Artur Pastor)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Sobre uma paisagem de Cesare Novi


Sobre uma paisagem de Cesare Novi

Turismo de habitação, agricultura
Nas janelas abertas à ventania
Quem chega a este cabo não procura
Porque descobre o alfabeto da alegria
O caminho vai dar ao arco das piçarras
No meio ficam as casas do caseiro
O mar imita o som das guitarras
Que entra na porta aberta do celeiro
Para dar ao tempo a luz da melodia
Que tem no mar o foco da vertigem
Península do sossego onde acaba o dia
Que tem na madrugada a sua origem
Aqui o tempo suspende os segredos
Do viajante que sente a serenidade
Deixa na mala a angústia e os medos
Entre o verde e o azul tudo é verdade

José do Carmo Francisco  

(Óleo de Cesare Novi - para festejar o Dia Mundial da Poesia)

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Segunda balada da casa da costura


Segunda balada da casa da costura

Vinha a Dona Ludovina
Costurar era o seu fado
Se a hora era vespertina
O tempo era ilimitado.
Nessa casa da costura
Houve sempre surpresa
Se as linhas eram ternura
Um resultado em beleza.
Fosse botão ou baínha
Fosse baínha ou botão
Nenhuma ficava sozinha
No meio da solidão.
Os vidros desta janela
Rua que foi do Castelo
São a vida paralela
Da lã que está no novelo.
Velha casa de costurar
Camisas novas eu tinha
Se eram velhas ao par
Nascia uma novinha.
Só mudava o colarinho
Feito de punhos sem prata
No Verão que era certinho
A chegar sempre na data.
Minha memória perdida
Na casa onde a costura
Só ficou na minha vida
Porque a balada procura.     

José do Carmo Francisco

(ilustração de autor desconhecido)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Via verde na estrada de Benfica


Via verde na estrada de Benfica

Quem sai do hospital só pensa na morte
E depois da filha em férias, nas viagens
As dores abdominais o rosto da má sorte
De não poder sorrir com ela nas portagens.
A produção de saquetas foi descontinuada
O medicamento era assim como a cecrisina
Este é hoje como um copo de água salgada
De doze em doze horas o tempo da rotina.
Quem sai do hospital só pensa na morte
Não lhe convinha morrer se fosse agora
Hoje a filha em férias segue para o Norte
Com a via verde não vai parar a toda a hora.
Vejo uma carroça num pátio de moradia
Parece ficou esquecida pela marcha popular
Há setenta anos os burros desta freguesia
Levavam na marcha gente a sorrir e a cantar

José do Carmo Francisco      


(A fotografia é de autor desconhecido)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Primeira moda popular


Primeira moda popular

Para lá de Lisboa ainda
Tenho um lencinho a corar
Uma menina tão linda
Eu nunca pensei de amar       (Popular -Baixo Alentejo)

Para lá de Lisboa ainda
No caminho da fresca serra
Uma canção que não finda
Traz o meu peito em guerra

Para lá de Lisboa ainda
Junto à pomba de metal
Há nuvens de ida e vinda
Como num bilhete postal

Tenho um lencinho a corar
Dá o sol na humidade
Não há luz no meu olhar
Se não chego à verdade

Tenho um lencinho a corar
Por causa desta saudade
Enxuguei o meu olhar
Entre o campo e a cidade

Uma menina tão linda
Uma tão linda pessoa
Para lá de Lisboa ainda
Ainda para lá de Lisboa

Uma menina tão linda
Sorriso de camponesa
Na memória desavinda
Só recordo a sua beleza

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração vazio
Fiquei longe do lugar
Entre uma serra e um rio

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração fechado
Bastou apenas um olhar
Para eu ficar do seu lado

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Samuel Luke Fildes)

domingo, 20 de julho de 2014

Canção da pequena camponesa


 
Canção da pequena camponesa
 
Ó pequena camponesa / Nos teus olhos de humidade
É que eu percebo a beleza / Que tu trazes à cidade.
Ó pequena camponesa / Desterrada do teu mundo
Na tua voz a certeza / Dum som perfeito e profundo.
Que essa voz traz ao espaço / Com tabaco e seu cheiro
Com a cana e o melaço / Onde o timbre é verdadeiro.
Onde os registos da voz / ascendem ao lugar cantado
Na rua de todos nós / O som chega a todo o lado.
Na rua da nossa cidade / Onde vens falar à janela
A tua voz é verdade / Na vida e não na novela.
Que a vida não é cinema / Nem a fala é literatura
Tudo entra num esquema / Só a tua voz perdura.
 
José do Carmo Francisco   

(gravura de Alberto de Sousa)

domingo, 13 de julho de 2014

Via verde na estrada de Benfica


Via verde na estrada de Benfica

Quem sai do hospital só pensa na morte
E depois da filha em férias, nas viagens
As dores abdominais o rosto da má sorte
De não poder sorrir com ela nas portagens.
A produção de saquetas foi descontinuada
O medicamento era assim como a cecrisina
Este é hoje como um copo de água salgada
De doze em doze horas o tempo da rotina.
Quem sai do hospital só pensa na morte
Não lhe convinha morrer se fosse agora
Hoje a filha em férias segue para o Norte
Com a via verde não vai parar a toda a hora.
Vejo uma carroça num pátio de moradia
Parece ficou esquecida pela marcha popular
Há setenta anos os burros desta freguesia
Levavam na marcha gente a sorrir e a cantar

José do Carmo Francisco       

sábado, 5 de julho de 2014

Breve canção para «A balada das baleias»


Breve canção para «A balada das baleias»

Tantas bocas à espera
Da riqueza da baleia
Na lancha da Primavera
Não tememos maré-cheia

Os velhos lobos-do-mar
Sentados na nostalgia
Já nada podem pescar
Quando chega o fim do dia

Botes, lanchas e vapores
Na Vigia da Queimada
As vozes dos trancadores
São tempestade poupada

Quando o mar é labirinto
Quando saudade é memória
Tudo aquilo que eu sinto
Faz nascer a nova história

Aqui no centro do Mundo
Casa dos botes, meu lar
Sentimento mais profundo
Tem a fundura do mar

Com chapéu ou em cabelo
Há nestes homens cansados
As muralhas dum castelo
Batido por todos os lados   

Mulheres são como sereias
Lanchas com nome escrito
Fazem as horas mais cheias
Quando se pesca em conflito

As Filarmónicas perdidas
Chegam o som junto ao cais
No mapa das nossas vidas
Há baleias de nunca mais

José do Carmo Francisco

(nota: A Balada das Baleias é um livro de Sérgio Ávila, Ermelindo Ávila e Sidónio Bettencourt, da Ver Açor Editores)    

(Ilustração de autor desconhecido)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Lamentação da mondadeira de arroz


Lamentação da mondadeira de arroz

Ontem fui à criminosa
Não há nada que se esconda
Maioral de voz raivosa
Mandou-me para a monda.
Vou passar o dia inteiro
Com os pés na água fria
Chegam as febres primeiro
Logo se afasta a alegria.
No pátio que é nosso mundo
Nunca chega a Primavera
Há um silêncio profundo
Todos ficamos à espera.
Os filhos, noras e família
A mulher que vive ao lado
São para ele a mobília
Do querer descontrolado.
Onde ninguém tem vontade
Própria, nascida em raiz
Nem sonho de liberdade
Fora do que o maioral diz.
Na Senhora de Alcamé
Procissão, bênção do gado
Todo o mistério da fé
Continua indecifrado.
Teimosia milenar
Resiste num tempo lento
Aquilo que vou cantar
É levado pelo vento.   

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Autor Desconhecido)   

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Senhora da Boa Viagem


Senhora da Boa Viagem

As mais belas colchas nas janelas
Flutuam como bandeiras dum país
Nas filas da Filarmónica paralelas
Eu sou de novo um menino feliz.
Vi o rapaz da Biblioteca no andor
Reconheço um anjinho disfarçado
O vento que nos refresca do calor
Diz que já andou por todo o lado.
Perdido entre andores e bandeiras
Entre o pálio e pendões dispersos
Sinto logo saudades verdadeiras
Da poesia sem linhas e sem versos.
Um tempo onde tudo era imenso 
E a morte na verdade não existia
Na mistura do sol com o incenso
A procissão era o lugar da alegria.


José do Carmo Francisco  

(fotografia de autor desconhecido)