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sábado, 11 de julho de 2026

Canção breve para Maria Bonita


 
Canção breve para Maria Bonita
 
Nesta beleza tão serena
Faz liturgia ao seu balcão
Liga o frio da terra romena
Ao sol em brasa do sertão.
Quem surge com o carrinho
Diz se «é dinheiro ou cartão»
Quem vem passa a ser vizinho
Do sorriso nasce uma canção.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque


Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque
 
Tinha que ser escritor este bandeirante
Nome herói de romance em homenagem
Assim a Rússia já não fica tão distante
Numa vida que é também uma viagem
 
Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa
Dá lições de poesia em breve seminário
Entre cerveja e amendoim nasce a beleza
Da Poesia que o Mundo vê ao contrário
 
Somos poucos aqui um grupo acantonado
Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira
Viajamos num bacalhau bem temperado
Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira
 
No Camões a mulher feia vende cocada
Desesperam por um visto os brasileiros
Que pena a vida não poder ficar parada
Aqui onde os poemas nascem inteiros
 
José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)      


sábado, 16 de setembro de 2017

Poema Mais periférico



 Poema mais periférico     (para Fernando Venâncio)

Uma colheita perdida de palavras
Em «Os esquemas de Fradique»
Na prateleira dum alfarrabista.
No país que não lê os seus autores
Não admira este gesto das élites
Quando o livro fica fora do circuito.
Mas alguém o compra para o ler
Dezoito nos depois da dedicatória
Num Mundo que não pára de mudar. 
Periférico, marginal, sem as atenções
O livro está por fim no seu lugar
De onde parece nunca ter saído.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de Walter Humphrey)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Uma voz no centro do Mundo


Uma voz no centro do Mundo

As vozes de algumas mulheres, tal como as montanhas, os rios e as planícies, também se integram numa geografia determinada. Circula também dentro dessas vozes o ímpeto do vento nas alturas, o murmúrio das águas dos rios e o silêncio sem fim das planícies.
O mundo de Cristina nasce todas as manhãs na força do rigor inicial dessa voz antiga que se solta dos cadeados da noite e começa a percorrer as encostas do dia.
Depois, no acumular das horas envolvidas em monotonia, Cristina vai organizando a sua gramática de afectos. Conforme a temperatura da resposta, logo se apercebe a origem provável da pergunta telefonada. Na rua em frente, a janela de Cristina desvenda um dos filmes mudos mais frequentes na cidade de Lisboa: o reboque da Polícia Municipal vai recolhendo um a um os automóveis estacionados fora das linhas brancas desenhadas na pedra negra da calçada. Antes tinham passado pela rua raparigas de farda verde despejando papéis brancos nas escovas de borracha do vidro da frente dos automóveis.
Aos poucos, de modo vagaroso mas firme, a voz de Cristina instala a sua ordem no centro do Mundo. Respira na velocidade por si utilizada no discurso com que ordena as entradas e as saídas de informações em circulação, no seu tempo e no seu espaço. Entre vida e morte, luz e escuridão, alegria e desolação, ruído e silêncio, amor e ódio, a voz de Cristina está no centro do Mundo. Centenas de notícias, de recados, de pedidos, de avisos e de recomendações circulam pela força da sua voz. Uma voz sempre capaz de incorporar no seu desenho sonoro o ímpeto do vento das alturas, o ruído das águas dos rios e o silêncio sem fim das planícies.     

José do Carmo Francisco  

(Óleo de Emile Chambon)  

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Retrato Breve de Alice


Retrato breve de Alice

O mundo inteiro cai nos ombros de Alice
Inteiro, não metade como dizem na China
Neste cardápio das doenças e da velhice
Cabe a Alice uma parcela não pequenina

São dias feitos de rotinas e de trabalhos
Repartidos entre as horas e os minutos
O calor que se desprende dos agasalhos
Junta-se aos dedos quentes e resolutos

Nas refeições preparadas com carinho
E servidas sempre a horas com ternura
No tempo hostil que passa devagarinho
Dos seus olhos sai uma água leve e pura

Em lágrimas invisíveis porém percebidas
Mas que ninguém viu e que ninguém disse
Nos seus ombros há o peso de duas vidas
O mundo inteiro cai nos ombros de Alice

José do Carmo Francisco

(Óleo de Carlos Majuran)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Veneza o terceiro poema - As sombras de Veneza


Veneza o terceiro poema – As sombras de Veneza

Há sempre tempo para uma sombra em Veneza.
Hoje, como nos tempos em que havia touradas e as tabernas improvisadas se colocavam à sombra das igrejas com os barris de vinho cobertos por grandes panos molhados. O vinho sela os encontros, multiplica a alegria do quotidiano suspenso por um intervalo magnético de festa. Surgem assim novas pontes, não de pedra mas de humana ligação, entre vozes e mãos, olhos e palavras. Tudo se liga no diálogo molhado pelo vinho e pela sombra.
Levo de Veneza uma ideia forte de encontros e de procura imediata de uma sombra. Onde a alegria acaba por se instalar no devagar nos minutos prolongados. Há sempre tempo para uma sombra em Veneza.   

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 8 de agosto de 2015

Veneza o Segundo Poema - Os relógios invisíveis


Veneza o segundo poema – Os relógios invisíveis

Há em Veneza um outro conceito do tempo. Sem relógios.

É o sol que abre as portas das pastelarias, pequenos hotéis, mercados ao ar livre, livrarias, restaurantes e, também, dos transportes públicos do grande canal. É a sombra que fecha os taipais das bancas dos feirantes, as portas das lojas, os toldos das esplanadas e afugenta os turistas para os autocarros que os esperam do outro lado do canal, perto da estação do comboio.

Mo intervalo há tempo para tudo. Ou quase: a cidade respira, move-se, dialoga, contempla e dorme como se de um ser humano se tratasse. O tempo deu-lhe a sábia medida do que é justo, urgente e necessário. Por isso nas ruas estreitas há um sereno usufruto do tempo. Ninguém atropela, empurra ou agride aquele com quem se cruza.

Nos relógios invisíveis de Veneza é sempre tempo de viver.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Veneza o Primeiro Poema - Entre a pedra e água


Veneza o Primeiro poema – Entre pedra e água

As ruas de Veneza são iguais às veias e artérias que percorrem os caminhos líquidos da alegria. O mesmo é dizer: não há ruas em Veneza, apenas travessas, becos e praças no intervalo das pedras e da água. 

As ruas de Veneza não existem como as outras ruas de outras cidades: com fumo e ruído e a ânsia metálica de chegar numa pressa para nada. A água dá aos grandes passeios o ritmo de uma vida que nasceu num líquido anterior, num sono descansado, na paz de não haver conflitos porque a placenta os dilui e aniquila. A pedra dá às viagens a força dum passado sempre a resistir à erosão da chuva, do vento e da morte.

Entre pedra e água, as ruas de Veneza não existem mas são verdade.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Mas toda a gente é pessoa (de um título roubado a António Rego)


Mas toda a gente é pessoa (de um título roubado a António Rego)

Morrem meninos em Gaza / Nasce o menino em Lisboa
Da maré cheia à maré vasa / Mas toda a gente é pessoa.
No mosteiro de Alcobaça  / E na morte do fundador
Metade chora a desgraça  / Metade canta o seu amor.   
São Bernardo em agonia   / Na cama faz a divisão
Os tambores da folia  / Ao lado da prostração.
Na Palestina em guerra  /Em vez de descer da cruz
Um pai desce para a terra  / Porque seu filho é Jesus.
Na Pietá tão diferente  / É um pai em vez da mãe
Chora um sonho de gente  / A partir de hoje é ninguém. 
Pois naquela sepultura  / Além do corpo enterrado
É o sonho duma criatura  / Que nunca vai ser sonhado.
Pietá de todos os dias / Na folha do calendário
O David contra o Golias  / É o Mundo ao contrário.
Tal o gueto da Polónia / Tal as câmaras de gás
Faixa de Gaza é insónia  / Mundo sem luz nem paz.

José do Carmo Francisco 

(O óleo é de Justine Brax)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Balada de Mateus Queimado em 1913


Balada de Mateus Queimado em 1913

Meu tio, juiz de Direito
Comarca da ilha de Goa
Veio reformado a preceito
Era a bondade em pessoa

Da Índia eu nada sabia
Com tigres e palmares
Na Ilha era outra alegria
Touros em vários lugares

Na venda do Cambadinho
Cravo, pimenta e canela
Faço um recado sozinho
Espero o meu tio à janela

Entre lágrimas da mãe
Um suspiro mal abafado
Saímos mas não a bem
Despejados no mandado

Uma loiça de tons quentes
Foi sair duns caixotões
Eram colchas diferentes
Estampas, leques, cadeirões

No Mandovi ele insistia
Nós só tínhamos ribeiras
Um caudal só de um dia
Com lamas amareleiras

Um telegrama cifrado
Meio da aula de francês
De Lausanne enviado
Levou meu tio de vez

Pediu-lhe ajuda a filha
Para a fúria da mulher
Ele disse adeus à Ilha
São Francisco Xavier

Conversa interrompida
Do meu tio aposentado
Assim Goa saiu da vida
Do moço Mateus Queimado         

José do Carmo Francisco     

(fotografia de Autor Desconhecido)