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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Balada da casa dos cantoneiros


Balada da casa dos cantoneiros

Roubaram-me os azulejos
Com as letras do meu nome
Roubaram o pão e os queijos
Que me matavam a fome

Roubaram a minha enxada
Pá-balde e carro de mão
Levaram também a estrada
E com ela o meu cantão

Roubaram tudo o que havia
Nesta casa e atrás da porta
Roubaram toda a alegria
E a casa ficou logo morta

Levaram toda a minha vida
Manhãs e tardes de suor
Hei-de encontrá-la perdida
Vá esta vida por onde for

Na cada dos cantoneiros
Há uma paz de cemitério
Saíram os derradeiros
Avançou logo o mistério

Na casa dos cantoneiros
O telhado não tem telhas
Os relógios sem ponteiros
Registam horas já velhas

Na casa dos cantoneiros
A cozinha não faz fumo
À noite tem companheiros
Sem destino e sem rumo

Na casa dos cantoneiros
A água faz inchar as portas
Não é como nos ribeiros
Que fazem falta nas hortas

José do Carmo Francisco

(fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Carta a um menino pastor


Carta a um menino pastor

As ovelhas são mansas e os cães obedientes
Neste rebanho que te coube a ti guardar
Da tua flauta saem sempre sons diferentes
E as ovelhas não se afastam desse teu lugar

Na planície sem limites por onde tu passas
Ao tomar conta dos vários rebanhos divinos
Há um limite e a partir dele as desgraças
Apagam-se nos olhos de todos os meninos

Afinal menino é o que continuas tu a ser
Na maneira como falas e como caminhas
Na alegria quando vais lá longe recolher
As ovelhas afastadas distantes e sozinhas

Não sei se sabes mas andamos estranhos
Desde que partiste para a tua nova função
Oxalá consigas cuidar dos teus rebanhos
Como nós vamos cuidar da tua recordação      


José do Carmo Francisco

(Fotografia da autoria de Aníbal Sequeira)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Aldeia


Aldeia

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Uma daquelas aldeias pequeninas
Por cima um monte, a vida cheia
Por baixo o rio de águas cristalinas 

Sinal de vida, o fumo das lareiras
Todos os dias o trigo é a verdade
E as mulheres casadas e solteiras
Cozem o pão no forno sem idade

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Na esperança de ser um habitante
Acabei preso na grande cadeia
Numa cidade afastada e distante

Hoje sou um citadino desolado
Bate o frio, vem a chuva pela rua
Na aldeia que sonhei do teu lado

Vejo uma casa vazia que é só tua

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Paul Corfield)