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sexta-feira, 29 de abril de 2022

Novo poema nº 13 para Ana Isabel


Novo poema nº 13 para Ana Isabel

Nova Gente de 24-6-21 não tem razão: o jogo Casa Pia-Sporting em Pina Manique foi em 17-10-99 (não em Setembro), o CR7 não foi o capitão de equipa (era o Carlos Marques), o Campeonato era de Iniciados (não de Juvenis).

Nessa manhã foi decisivo o árbitro António Cardoso, o enfermeiro Fontinha, o treinador Palhares e o Delegado Atanásio. Na transferência do Nacional para o Sporting foi importante o Dr. Marques de Freitas, o Dr. Simões de Almeida, Aurélio Pereira, Leonel Pontes e Isabel Trigo de Mira.

Porque não podemos esquecer Luís Dias, Paulo Cardoso, Osvaldo Silva, Paulo Leitão, Luís Gonçalves, Luís Martins e João Couto, salvo erro ou omissão; e «pelos frutos se conhece a árvore».    

José do Carmo Francisco


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Novo poema nº 6 para Ana Isabel


Novo poema nº 6 para Ana Isabel

Esta rua discreta tem um arco de pedra como se fosse um agrafe gigante a unir duas casas; dois blocos de telhado, a parede, as portas e as janelas.

Por aqui passaram noutro tempo muitas carruagens com gente apressada; tanto quanto se podia ter pressa no século XVIII.

Porque tudo se dilui na memória dos afectos pessoais, cinquenta e cinco anos depois da primeira passagem entre a Rua de O SÉCULO (que já foi Rua Formosa) e o Hospital de Jesus.   

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Paulo Guedes)


domingo, 12 de dezembro de 2021

Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel


Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel

Gonçalo Pereira Rosa escreve na N.G.M. que «metade dos enterros realizados em 1839 na cidade de Londres era de pequenas criaturas com menos de dez anos» e dá razão a uma ideia antiga pois «nenhuma filosofia resgata as lágrimas de uma criança».

Claro que Charles Dickens escreveu (era quase inevitável) uma mistura notável de ficção e reportagem no seu «Conto de Natal» tal como cinco anos antes já o tinha feito no seu livro «Oliver Twist».     

O segredo está em saber que os companheiros de Charles Chaplin na carroça de saltimbancos em 1910 eram do mesmo bairro pobre no qual o pai de Charles Dickens foi frequentador da prisão de devedores em Londonbridge, junto ao  Tamisa.

José do Carmo Francisco


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Novo poema nº 1 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 1 para Ana Isabel

«A Poesia não pactua com a mentira» - terá dito Stephen Spender a um jovem poeta de Goa, num ansioso e desejado encontro entre mestre e aprendiz.

Ao juntar a esta frase a informação de que foi sobre a sua poesia que Fernando Assis Pacheco elaborou uma tese de licenciatura em Coimbra, fica tudo mais claro.

Porque o Mundo é pequeno e só o Acaso é grande. Mas nada acontece por acaso.  

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Memória justificativa do livro «The Busby Years»


Memória justificativa do livro «The Busby Years»
 
(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)
 
A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique
 
Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo treze e no minuto treze a morrer
Em Coimbra, Nené perdido num desastre
Quando o mini não desfez a curva grande
Em Lisboa Toni Kakinda a forte esperança
Da equipa de Caneira e de Simão Sabrosa
Antes Pepe em Belém de vinte e três anos
Com a mãe a trocar bicarbonato por potassa
 
Nunca se fala nos jornalistas também mortos
Os enviados especiais a esse lugar de morte
De onde já não é possível escrever notícias
Morreram todos assim no seu fato completo
Caneta de tinta permanente e bloco de notas
Cachimbo e todos eles de chapéu à Borsalino
Mas tirando as suas famílias e alguns colegas 
Pouca gente recordará hoje os seus nomes
 
Comprei o livro numa livraria em frente
Ao portão do Observatório Astronómico
A separar os dois lugares há um relvado
Uma metáfora imediata de todos os altares
Na liturgia dum jogo afinal mais que jogo
A memória activa, o espaço de sentimento
Lugar verde onde ficaram todos os sonhos
Adormecidos devagar pela diária rotina
 
A vida é na verdade a preto e branco
Por isso estas fotografias são verdade
A cor é apenas a mentira consentida
Só há estas duas cores nas lágrimas
O mesmo para o medo, para a morte
Escusamos de procurar o colorido
A vida é na verdade a preto e branco
E ficou nos velhos álbuns de família
 
Passam por mim japoneses de uniforme
Jovens alunos em passeio de finalistas
Não pensam na morte sequer Hiroshima
Não reparam no livro que levo na mão 
Querem apenas viver e têm a sua pressa
A morte será também um fuso horário
 
José do Carmo Francisco  
        
    (Fotografia de Luís Eme)

sábado, 1 de agosto de 2020

Anabela na Coelho da Rocha



Anabela na Coelho da Rocha

Uma lisboeta exilada
Numa terra de nevoeiro
Chega ao fim da estrada
Fica no mês de Fevereiro

Tem saudades verdadeiras
Dos lugares e capelistas
Onde havia sardinheiras
E se compravam revistas

Plateia, Século Ilustrado
Flama, Crónica Feminina
Os homens iam para o lado
As mulheres junto à esquina

Onde grupos de varinas
Vendiam o peixe na rua
E no pó das oficinas
Dormia a sombra da lua

Onde ainda havia carroças
Petróleo, azeite, verduras
As batas brancas das moças
Eram luz das ruas escuras

Onde o vinho e o carvão
Se vendiam numa taberna
E os copos desse balcão
Brilhavam pela lanterna

Onde havia barbearias
E retratos pendurados
Falavam todos os dias
De jogadores admirados

Onde à noite os ardinas
Trazem notícias na mão
As palavras pequeninas
Não chegam ao coração

Eléctricos de atrelado
Com bilhetes de operário
Na paragem do passado
A vida anda ao contrário

Ninguém toca campainha
A dar o sinal de partida
No assento de palhinha
Está sentada a nossa vida

É uma vida misteriosa
Que fica por desvendar
E a poesia tão teimosa
Não desiste de cantar

Uma lisboeta isolada
Numa terra de nevoeiro
Chega ao fim da estrada
Fica no mês de Fevereiro

Casa Fernando Pessoa, 30-11-2006

            José do Carmo Francisco             

(Fotografia de J. C. Alvarez)

domingo, 31 de maio de 2020

Balada das três meninas



Balada das três meninas

Vão cerejas numa caixa
Os limões as tangerinas
Vai a luz da Beira Baixa
O perfil das três meninas.
Vegetal mineral humano
São três mundos numa rede
Vamos já a meio do ano
Calendário na parede.
Nas razões mais obscuras
Se concentra este resumo
Na linha das três figuras
Há um fogo sem fumo.
Porque arde sem se ver
Na força que representa
São três nomes de mulher
Como se fossem noventa.
Multidão vista de perto
Vai a sacudir o Mundo
Um coro de peito aberto
Canta o que é profundo.
Páram na Rua Formosa
Onde antes houve jornal
Oficina poderosa
Tinha a Vida Mundial.
Era Modas e Bordados
Era Século Ilustrado
Os ardinas apressados
Corriam a todo o lado.
Mais acima a Faculdade
Agora é só Museus
Lisboa é uma cidade
De nunca dizer adeus.
Dá para um velho jardim
A recolher o disperso
É raro vermos assim
Resumo do Universo.
Vão cerejas numa caixa
Os limões as tangerinas
Vai a luz da Beira Baixa
O perfil das três meninas.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Leopold Kowalski)

sábado, 9 de maio de 2020

Carteira Profissional



Carteira profissional

A minha Universidade
Foram todos os jornais
No Campo ou na Cidade
As palavras são os sinais.
E a espécie de diploma
Sem frequência ou acto
É uma secreta soma
O virtual bacharelato.
Cada livro um linguado
Ano de setenta e oito
Começava atrapalhado
Acabava já mais afoito.
Nos pavilhões e pistas
Gabinetes, lançamentos
Em notícias, entrevistas
Eram meus os momentos.
Hoje há crise na Imprensa
Leitores faltam na rua
A dúvida faz a diferença 
Mas a paixão continua.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de Aniceto Carmona)

sábado, 28 de setembro de 2019

As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira


As lágrimas azuis de Luís Alberto Ferreira

Era pelo ano de mil nove quarenta e sete
Os Belenenses foram campeões em Elvas
Luís Alberto vinha de Luanda para o Liceu
Já formatado na paixão pelo azul de 1919.
Foi no Atlético de Luanda que começou
Depois no eléctrico do Chile para Belém
Encontrava três dos jogadores famosos
Mas nenhum tinha uma carta de chófer.
Eram as previsões, anseios e augúrios
Ali na palhinha do lugar no transporte
Eram três, eram cinco, era uma abada
No olhar de Amaro, Quaresma, Feliciano.
Tudo era possível mas só nos sonhos
A Revista Stadium não era nada barata
Mas todos queriam as vitórias a haver
A paixão é uma seara a perder de vista.
Da Baía de Luanda ao Mar da Palha
O mesmo azul do mar e das lágrimas
As viagens e os naufrágios esquecidos
Hoje cem anos depois do primeiro dia.

José do Carmo Francisco

(Foto de autor desconhecido)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Balada para Vila Nova da Barquinha



Balada para Vila Nova da Barquinha

Vou abalar, vou-me embora
Quero ir para a Barquinha
Lá eu não sou visto de fora
E sinto a terra como minha.
Montijo, Escola Primária
Vila Franca e Santarém
Está na minha secretária
O Ribatejo é Terra Mãe.
Mesmo que teime e insista
Num destino que se perdeu
Este filho dum motorista
Não foi mesmo para o Liceu.
Foi no Esteiro do Nogueira
Numa memória confusa
Que a mais linda avieira
Se tornou a minha musa.
Na Escola o «Velas do Tejo»
O jornal numa parede
Nasceu assim um desejo
Mas nunca mata a sede.
Nessa Escola Comercial
Com História e Geografia
Meu destino natural
Era o balcão, quem diria.
Em Santarém n´O MIRANTE
A escrever na nova luta
Tudo o que fui em diante
Nasceu daquela recruta.
Sou do tempo em que o avio
Do campino mais sozinho
Quando um pão seco e frio
Dava um petisco quentinho.
Sou do tempo do campino
Sem telemóvel ou jeep
Trabalhava o seu destino
Sem algum medo da gripe.
Roupa que a chuva molhava
Não podia ser substituída
Vinha o Sol que a secava
E era assim aquela vida.
  
José do Carmo Francisco

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Poema para os 70 anos de Toni


Poema para os 70 anos de Toni

(a António Simões / à memória de Homero Serpa)

A locomotiva de Mogofores chegou à tabela. Toni nasceu às dez e meia da manhã.

Luís Alberto Ferreira criou no «Mundo Desportivo» essa alcunha feliz para definir a fusão da força e da técnica. / Da sua janela de Santo Amaro de Oeiras vê os comboios da linha entre Cascais e o Cais do Sodré.

Vítor Manuel viu passar no Tramagal outro comboio com os operários das oficinas do Entroncamento. / Embora nascido nas Mouriscas, foi no Tramagal que uma carta escrita à mão o veio descobrir para em Coimbra ser um herdeiro de Toni na Académica.

Teerão, Lisboa, Coimbra e Anadia são lugares onde a locomotiva de Mogofores passou entre o fervor do relvado e a angústia do banco.

Um dia Décio de Freitas, Raúl Santos e Faro Cal explicaram como havia tantos árbitros na C.P. / Salvador Garcia vinha de Santarém mas outros vinham de Alferrarede, do Barreiro ou do Pinhal Novo. / Assim as ajudas de custo eram mesmo para embolsar.

Os meus netos mais velhos (Tomás e Lucas) chamam em Londres Toni ao meu neto mais novo. E o meu neto Pedro saberá um dia que as assinaturas de Toni e Humberto Coelho estão num livro onde o meu nome foi sonegado na bibliografia.

Uma cabina é também uma locomotiva porque o combustível que pode ser carvão, diesel ou electricidade ajuda a aquecer o coração de todos nós nas manhãs de chuva ou nas tardes de sol. / «Muda aos seis e acaba aos doze» – como na infância que é o tempo em que nem as lágrimas nem os beijos têm preço.

A locomotiva de Mogofores chegou à tabela. Toni nasceu às dez e meia da manhã.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Jornal


Jornal

Era um jornal a tua voz tão cristalina
Às três da tarde numa edição especial
A notícia eras tu, natural e vespertina
Ao lado os turistas buscavam Portugal

Gritarei o teu nome na voz dos ardinas
Anunciando esta mais recente novidade
Tu trazes nas tuas mãos tão pequeninas 
Um fogo para dar calor a esta saudade

Guardarei feliz estes fotolitos do teu rosto
Felizmente já não há chumbo nem granéis
No frio de Março tu trazes calor de Agosto
Quando alteras a sombra dos meus papéis

E ao nosso lado ninguém dava por nada
Só eu podia ver nos teus olhos a alegria
Chamar-te jornal é uma forma exagerada
Mas tu foste a melhor notícia do meu dia

José do Carmo Francisco

(Óleo de Emile Bernard)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Notícia


Notícia
(a António Valdemar)

Um poema é sempre também uma notícia
Uma crónica, foto-legenda ou reportagem
Às vezes é só um simples caso de polícia
Outras, crítica de filme ou nota de viagem

Tal como o jornal pode ter sentidos vários
E até o não- sentido do seu total abandono
Seja a embrulhar lancheiras de operários
Seja não ser lido de tão derrotado pelo sono

Um poema é sempre também uma notícia
Questão de dizer muito em poucas linhas
É também mais um problema de perícia
De saber juntar as palavras mais sozinhas

Palavras que nem sempre estão à vista
Neste dicionário que se chama emoção
No poema circula também um jornalista
Meio perdido entre urgência e lentidão

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Heitor Chichorro)

sábado, 3 de outubro de 2015

Balada para 90 anos da «Gazeta das Caldas»


Balada para 90 anos da «Gazeta das Caldas»

Na balada que é só minha
A memória é uma mistura
Estou nas Caldas da Rainha
Cruzo a Rua da Amargura
Faço exames numa escola
Em Abril e era a terceira
Num frio de usar camisola
O medo era uma torneira
Em Julho a quarta classe
O diploma vem de Leiria
E sem que eu esperasse
Tive um fato nesse dia
Nos Armazéns do Chiado
Que era na Praça da Fruta
Anos depois assustado
Eu começava outra luta
Minha prima Deolinda
Tinha manteiga no pão
Na recruta que não finda
Seu amor era oração
Reencontrei Juventino
Num café à sua mesa
Mal sabia que o destino
Me reservava a surpresa
Hoje se sou jornalista
Devo ao querer imitar
Em jornal ou em revista
Seu percurso singular
Que começou na aldeia
No Jornal Catarinense
Onde a força duma ideia
É razão que tudo vence
Foi nesta automotora
Que o Mundo cresceu
Do menino de outrora
Ao adulto que sou eu
Entre horário da carreira
E o comboio a atrasar
Já não havia maneira
De chegar ao nosso lar
Nem o Vítor da carrinha
Nem o senhor Guimarães
Resolviam à noitinha
Problema de pais e mães
Garagem dos Capristanos
Primeiro café de surpresa
E passados tantos anos
Continuamos na mesa
Noventa anos de idade
Cabeçalho dum Jornal 
Começou numa cidade
Vai ao Mundo em geral
Coração em pé de guerra
Ele chega a todo o lado
É o tempo da minha terra
Numas folhas condensado
Tenho meu nome e retrato
Treze anos de presença  
Há um secreto contrato
Que liga nossa diferença
Numa idade mais madura
Abre-se ao Mundo o jornal
A memória é uma mistura
E esta balada é plural
Nela cabem os projectos
Os sonhos e as alegrias
Os jornalistas concretos
A escrever todos os dias

José do Carmo Francisco               
     

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Balada da Travessa da Queimada


Balada da Travessa da Queimada

Na memória inventada
à esquina da minha infância
A Travessa da Queimada
ficava a grande distância
Nos pavilhões e nas pistas~
nos estádios e piscinas
Nas crónicas e entrevistas
nas notícias pequeninas
Sonhava com os granéis
hoje é só computador
Não há chumbo nem papéis
num écran feito de cor
Mundial  sessenta e seis
 vivido linha por linha
E os magriços foram reis
bem ao lado da rainha
Estava na tropa e sabia
o peso da ditadura
Nas páginas que então lia
com o sinal da censura
E veio a libertação
maior a responsabilidade
Liberdade de expressão
é expressão da Liberdade
Nas etapas da alegria
 um gostinho de esperança
Carlos Miranda escrevia
a história da Volta à França
Eusébio e Agostinho
Lopes e Rosa a correr
No lugar do coitadinho
nascia o verbo vencer
Setenta e nove Outubro
passei para o outro lado
É então que me descubro
com um texto publicado
Nas colunas da amizade
 Vítor Santos e Pinhão
Abriram a claridade
 onde havia escuridão
No jornal de quinta-feira
um poema foi caminho
Poesia verdadeira
não se fecha no cantinho
O que o poema queria
era dar duas metades
Do futuro e da alegria
 do passado e das saudades
Não se vê o fim da rua
nesta longa caminhada
Porque A Bola continua
na Travessa da Queimada   

José do Carmo Francisco  

(Ilustração de Autor Desconhecido) 

domingo, 25 de novembro de 2012

Balada da Calçada do Combro



Balada da Calçada do Combro (ou o «28» de Oleg Basyuk)

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem

José do Carmo Francisco

(Óleo de Francisco Xicofran)