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domingo, 7 de setembro de 2025

Balada da sardinheira da Abadia


 
Balada da sardinheira da Abadia
 
Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.
 
José do Carmo Francisco    
    
(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 20 de janeiro de 2019

Balada da mesa de sete na casa do Monte



Balada da mesa de sete na casa do Monte

A Cultura e a Natureza
Na mesa de sete talheres
No cozido à portuguesa
Predominam as mulheres.
Os homens são apenas três
Dois Zés e Fernando é guia
As mulheres por sua vez
São quatro são a maioria.
Duas Marias uma Manuela
Uma Ana que olha o Sul
Pelos vidros da janela
Da casa de barra azul.
Um vinho branco divino
Na amizade em liturgia
São as linhas do destino
Que se cruzam neste dia.
Há o comboio derradeiro
Na direcção de Lisboa
Só está neste apeadeiro
A sombra duma pessoa.
Fui eu e fiquei à espera
Guia de marcha perdida
Setenta e dois já não era
Solução da minha vida.
Na Rua dos Mercadores
Entre Muralhas e Praça
Orgulho dos moradores
Bairristas de certa raça.
Que é assim esta vaidade
Que não discute ou hesita
Ser do centro da Cidade
Nossa coisa mais bonita.
A Natureza e a Cultura
No dia que não esquece
Aquilo que se procura
É juntar como uma prece
O azul do céu sem limite
O som da Terra a cantar
O poema já não permite
Como um rio vai pró mar.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Álvaro Carvalheiro)

terça-feira, 27 de março de 2018

As casas de Martine



As casas de Martine

São feitas de memória em inventário
As casas de Martine de Norte a Sul
País real para além do calendário
Fixando numa cor que hoje é azul.
São mais que sete casas do poema
São mais que do largo as duas ruas
O poço no meio saiu dum cinema
Cerromaior traz consigo outras luas.
Catálogo de uma viagem a Portugal
Janelas, portas, chaminés, telhados
Olhar do tempo efectivo e natural
Em casas de habitantes afastados.
Casas a quem quero como minhas
Com balcões para eu ficar todo o dia
Águas-furtadas palavras tão sozinhas
Como a força desta nova geografia.

José do Carmo Francisco   

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Balada da sardinheira da Abadia


Balada da sardinheira da Abadia

Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta  bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.

José do Carmo Francisco    

(Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia)


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Terceira moda popular


Terceira moda popular

Viola, minha viola
Tu comes à minha mesa
Tu és a minha alegria
Assim que sinto tristeza             (Popular - Baixo Alentejo)

Eu canto nas tuas cordas
No som da tua madeira
Há alguém que me recordas
Uma musa verdadeira

Queria que o som chegasse
Bem perto do seu lugar
Que desse cor à sua face
E um sorriso ao seu olhar

Queria que toda a tristeza
Fosse varrida do rosto
Sendo a força da beleza
Mais forte que o desgosto

Eu canto nas tuas linhas
Como se fosse um caderno
Junto as palavras sozinhas
Este é um poema moderno

Tu és a minha alegria
A tudo o teu som resiste
Na cantiga ao fim do dia
É que eu deixo de ser triste

Tu és a minha alegria
Mesmo quando não te vejo
Contigo até a manhã fria
Traz um calor de Alentejo

Assim que sinto tristeza
Já procuro a tua imagem
E sentado à minha mesa
Dou início a uma viagem

Viola oh minha viola
Cheguei ao fim da canção
O poema é uma escola
Sou aluno da paixão  

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Peter Harskamp)           

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Segunda moda popular


Segunda moda popular

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado
As casas e os corações
Sempre tudo anda lavado     (Popular - Baixo Alentejo)

Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça

Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo

Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua

Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola

Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte

São casas são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante

Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido

O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos

 José do Carmo Francisco

(fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Primeira moda popular


Primeira moda popular

Para lá de Lisboa ainda
Tenho um lencinho a corar
Uma menina tão linda
Eu nunca pensei de amar       (Popular -Baixo Alentejo)

Para lá de Lisboa ainda
No caminho da fresca serra
Uma canção que não finda
Traz o meu peito em guerra

Para lá de Lisboa ainda
Junto à pomba de metal
Há nuvens de ida e vinda
Como num bilhete postal

Tenho um lencinho a corar
Dá o sol na humidade
Não há luz no meu olhar
Se não chego à verdade

Tenho um lencinho a corar
Por causa desta saudade
Enxuguei o meu olhar
Entre o campo e a cidade

Uma menina tão linda
Uma tão linda pessoa
Para lá de Lisboa ainda
Ainda para lá de Lisboa

Uma menina tão linda
Sorriso de camponesa
Na memória desavinda
Só recordo a sua beleza

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração vazio
Fiquei longe do lugar
Entre uma serra e um rio

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração fechado
Bastou apenas um olhar
Para eu ficar do seu lado

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Lana Khavronenko)

sábado, 7 de março de 2015

Poema para os olhos de Maria Belmira


Poema para os olhos de Maria Belmira

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo todo o fulgor do olhar dos ranchos de ceifeiros. Mas não vi ceifeiros hoje nos campos entre a antiga fronteira de Badajoz e Montemor-o-Novo onde organizo este poema debaixo de uma árvore e perto de um jardim silencioso. Não vi os ceifeiros de Fialho de Almeida na terrível faina de terem sede, separados entre si por seis metros de distância e olhando ao longe os pássaros calados, os cães com a língua de fora, as éguas paradas e tristes, o ar cada vez mais pesado e mais raro.

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo a voz dos ceifeiros saídos directamente dos poemas de Francisco Bugalho – esses mesmos que foram escritos a meia dúzia de quilómetros de Castelo de Vide. Também não vi os ceifeiros deste poeta-lavrador, ceifeiros capazes de levantarem a voz mesmo contra o vento suão, mesmo contra o calor que não afecta a força da sua ternura ao manusear os braçados de espigas como quem tira um pão cozido da arca onde repousa na viagem entre a boca do forno e o branco da mesa.

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo uma paisagem povoada por gente viva mas os meus olhos cansados trazem apenas o pó das máquinas que deixam no seu caminho uma nuvem alta entre a linha do restolho e a linha do horizonte. Aquilo que poderia ser uma forma de conhecimento e de afecto fixa-se neste poema desolado no simples registo mecânico da passagem de uma máquina silenciosa pelo chão da seara exausta.

Peço desculpa. Eu próprio já não devia ter ilusões acerca do sabor do pão que se come hoje em dia. As máquinas cortam as espigas de outra maneira, noutro ritmo e noutra velocidade. Se formos juntar a esse factor a desvalorização da água, do sal e do fermento, percebemos melhor esta actual falta de sabor do pão nas nossas mesas tão cheias de pressa e tão vazias de ternura. 

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Marcos Damascena)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Entre Coruche e Montemor


Entre Coruche e Montemor

Minha musa alentejana
Minha primeira deidade
Tens no olhar de cigana
A força de uma verdade
Ciências, letras e artes
A todas tu vais reger
Tudo divides em partes
Na tua voz de mulher
Minha musa alentejana
A saudade é pesadelo
Passaste na caravana
No teu cavalo murzelo
É mais que cavalo preto
Porque tem cor de amora
Visto em ângulo recto
A trote pela estrada fora
Minha musa alentejana
Carcereira destes versos
Na tua voz tão soberana
Juntas todos os dispersos
Guarda da minha prisão
Tens a chave da cadeia
E no meio da multidão
És a guia que não receia
Minha musa alentejana
A mais linda cabaneira
Abandonas a cabana
Logo à hora primeira
Estradas, veredas, atalhos
Não te esgotam o caminho
É cabo dos meus trabalhos
Estar perto, não ser vizinho
Minha musa alentejana
Eu continuo a procurar
O rasto duma carripana
Que te levou devagar
Quero ser o condutor
Para saber o trajecto
Entre o lugar do amor
E a planície do afecto
Minha musa alentejana
Estás no fim da estrada
Já passou uma semana
E não acabei a balada
Parti à tua procura
E continuo vagabundo
Cantei mas a amargura
É maior do que o Mundo     

José do Carmo Francisco

(Óleo de Jesus de Perceval)