Mostrar mensagens com a etiqueta Olhares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Olhares. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de junho de 2026

Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro


Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro
 
Há muita diarreia mental
Numa montra do Chiado
Anda à solta um animal
Perdido e tresmalhado.
O delírio e a alucinação
Tomaram conta de quem
No meio desta confusão
Está na terra de ninguém.
 
José do Carmo Francisco
 
(Óleo de Marius Borgeaud)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Canção breve da despedida


Canção breve da despedida
 
Ficou um beijo na mão
No tempo da despedida
Entre o instinto e a razão
Passam as linhas da vida.
Entre festa e desgraça
Entre sol e escuridão
O que resta do que passa
Ficou o beijo na tua mão.
 
José do Carmo Francisco
 
(Óleo de George Elgar Hics)

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater


Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

 

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)
 
Não tive tempo para nada.
A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.
Não tive tempo para nada.
Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.
Não tive tempo para nada.
Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.
Não tive tempo para nada.
Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco

 
(Fotografia de autor desconhecido)


sábado, 31 de maio de 2025

Canção trigésima sétima para Ana Isabel


Canção trigésima sétima para Ana Isabel

Havendo até quem duvide
Mas este lugar ajardinado
Já foi uma Escola da PIDE
Num pretérito passado.
Há quem teime e insista
Querem apagar a História
O Arquitecto paisagista
Só diploma, não memória.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido - o povo a assistir à ocupação da Escola pelos Militares na Revolução de Abril)


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Musa em castanho claro

 


Musa em castanho claro
 
É côr de terra a tua camisola
Que multiplica a sementeira
A ternura na porta da Escola
É suspensa para segunda-feira.
 
Na luz feliz destes dois dias
Há uma quase certeza de ficar
Como quem sai das fotografias
Quando estava junto ao mar.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Musa em canção nocturna



Musa em canção nocturna
 
No nocturno cancioneiro
O poema é uma resposta
Se poético é verdadeiro
Só a mentira não gosta.
 
Desta estranha liturgia
A ligar como oração
O sonho do novo dia
Entre instinto e razão.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, 22 de dezembro de 2024

Musa em café de subúrbio

 


Musa em café de subúrbio
 
São sete mulheres em duas mesas
Os homens esquecidos, obliterados
Circulam nas rotinas portuguesas
São outros os encontros marcados.
 
Aqui o púlpito é esta televisão
Uma mensagem circula pelo ar
A reportagem no lugar do sermão
Os fiéis no café rezam devagar.
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Mulher em azul e branco

 


Musa em azul e branco
 
Mulher em flôr que perfuma
Este escritório acanhado
Traz uma espécie de espuma
Já passou por todo o lado.
 
No som da voz a melodia
No cabelo a tempestade
Quem diria, quem diria
Que começa outra cidade.
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Musa em azul celeste

 


Musa em azul celeste
 
As ondas são Natureza
Tua voz é uma Cultura
Alcancei uma certeza
Encontra quem procura.
 
Pensamentos profundos
Nascem desta maneira
Na voz que liga os mundos
Há o clarim e a bandeira.
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luis Eme - Foz do Arelho)


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Musa em almoço com Helena e Zé Lopes

 


Musa em almoço com Helena e Zé Lopes
 
Com Francisco e Zé Vilela
Num fanzine imaginado
Na parede que é janela
Vejo a Musa deste lado.
 
É peixe, carne e grelhado
Fruta e doce, café e rua
O repasto terminado
Não acaba e continua.
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Musa à porta da Escola

 


Musa à porta da Escola
 
Cinco e meia na Rua do Telhal
Sobem as escadas mães e pais
À espera das crianças sem igual
Que todas afinal são especiais.
 
Há quem não consiga desligar
Motores e mudanças, lentidão
Quando chove a rua é um mar
A gabardina vai vestir o coração.
 
José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

 

domingo, 10 de novembro de 2024

Musa a ouvir Verdes Anos

 


Musa a ouvir Verdes Anos
 
No coração de quem passa
Verdes Anos, quem diria
Músico Rui, de sua graça
Reinventa a melodia.
 
No Metro Restauradores
Tudo o que era inda está
Ao fundo dos corredores
Os cafés Luanda e Vává.
 

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)

 

terça-feira, 25 de junho de 2024

Novo poema nº 47 para Ana Isabel


Novo poema nº 47 para Ana Isabel

Há nos algarismos desta idade um misto da infância que não se despede dos nove e da maturidade dos quarenta; é uma mulher-menina a olhar o Mundo no Outono de 2021.

Sobe um rumor de alegria dos pratos da Balança que simboliza toda a ternura, todo o sereno equilíbrio e todo o generoso estoicismo do signo que perdura e nunca se despede.  

Porque primeiro chegou num sonho mas o seu tempo cola-se à verdade do quotidiano do calendário na parede seja num talho seja numa oficina de automóveis; qualquer lugar é sempre tempo de Balança. 

José do Carmo Francisco 

(Óleo de Aron Wiesenfeld)


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Novo poema nº 46 para Ana Isabel


Novo poema nº 46 para Ana Isabel

O som de fundo é uma música a metro, canções já batidas ao longo de verões passadas e que hoje são apenas resultado de uma varinha mágica que tudo coloca na mesma bitola; é música para ouvir nos elevadores dos prédios modernos.

Ninguém repara no batuque vazio de música com melodia, há apenas ritmo e nada mais, todos aqui procuram o usufruto da cerveja gelada, do ginger ale com limão, do copo de vinho branco muito fresco.

Porque até a brisa que se levanta do mar incita a não fazer nada, para além de ouvir o telemóvel que por acaso aqui nesta praia não tem propagação em todas as redes.      

José do Carmo Francisco      

(Óleo de Claude Monet)


quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Novo poema nº 40 para Ana Isabel


Novo poema nº 40 para Ana Isabel

Há sonhos que se perdem dentro das ruas escuras e no barulho do mar; talvez sejam mesmo pesadelos porque trazem no seu bojo uma angústia pesada.

A cidade tem a dimensão da narrativa, desenha-se como uma novela com as suas figuras, os seus interesses e as suas expectativas. 

Porque tudo se revela quando o vento empurra a neblina para dentro do mar e os telhados começam a brilhar com o sol que se demora e faz daquela superfície uma espécie de espelho.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Luís Eme - Sesimbra) 


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Novo poema nº 37 para Ana Isabel


Novo poema nº 37 para Ana Isabel

Há uma sombra entre a joeira e o corpo de quem a trabalha para fazer subir a palha e o feijão à procura do sopro de brisa capaz de separar o que o malho na eira não conseguiu.

Este mágico ritual que se repetiu de geração em geração, corre o risco de, em pouco tempo, não ter continuidade nem na família, nem na aldeia, nem no Mundo.

Porque são outros os caminhos e os processos, os tempos e as expectativas; tal como o trigo cujos silos são hoje ninhos de microempresas, o feijão chega em latas às prateleiras dos supermercados. 

José do Carmo Francisco

(Óleo de Antal Neogrady)


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Novo poema nº 36 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 36 para Ana Isabel

Um dia, na Associação Portuguesa de Escritores, Óscar Lopes ouviu uma jovem autora falar dum get together com escritores estrangeiros em visita a Portugal. Poderia e deveria ter dito encontro ou convívio. 

Hoje li numa lavandaria a palavra insólita DORR em vez de DOOR num dos modernaços cartazes bilingues com instruções aos clientes da loja. E mesmo que exista não faz sentido aqui.

Porque se trata de um outro nível; já não o uso indevido de uma expressão inglesa mas o erro crasso de palavra que presumo não existir e não tem razão para integrar o bilingue cartaz.

 José do Carmo Francisco

 (Fotografia de Luís Eme)


segunda-feira, 19 de junho de 2023

Novo poema nº 34 para Ana Isabel

 

Novo poema nº 34 para Ana Isabel

«Há mais caixas! Há mais caixas!» repetia o azedo marido da mulher com evidentes dificuldades cognitivas e de locomoção frente à operadora de caixa na bicha das compras da grande superfície.

Ainda bem para todos estava atrás do casal azedo uma senhora míope que não levava à prática as normas de distanciamento do Ministério da Saúde mas a ela a mulher azeda e o marido nada diziam.

Porque minutos depois o incidente estava esquecido, depois do verde, código, verde do pagamento por cartão multibanco; só o cocó do cão no passeio em frente lembrava o valor da vida do casal.   

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Luís Eme)

 

terça-feira, 16 de maio de 2023

Novo poema nº 32 para Ana Isabel


Novo poema nº 32 para Ana Isabel

Segundo Walter Benjamin, autor citado num livro de Carlos Lobão, «uma das principais responsabilidades do Homem é revelar o esquecido».

Além de tudo o mais, um poema é também um esforço para mostrar o passado e adivinhar no futuro um ou vários caminhos, entre o possível e o provável.

Porque os calceteiros lisboetas de Cesário Verde ou os pescadores poveiros de António Nobre perderam o nome nas emboscadas do esquecimento mas permanecem nos poemas até hoje. 

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Stanley Kubrick)


domingo, 23 de abril de 2023

Novo poema nº 31 para Ana Isabel

 

Novo poema nº 31 para Ana Isabel

A selva do anacoreta é o ponto mais radical da solidão e a juventude da mulher o lugar ambicionado do encontro; de um lado a tristeza, do lado oposto a alegria, de um lado o peso da escuridão, do lado oposto a força da luz.

São dois caminhos, dois mundos, duas maneiras de ser no tempo e no espaço: o poeta oscila o seu discurso entre o sofrimento e o júbilo porque parte do vazio mas não desiste do amor.

Porque o fascínio da vida está nessa tentativa, nesse esforço, nesse olhar que não desiste da procura de uma outra luz por oposição ao diário cinzento do quotidiano. 

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Almada)