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terça-feira, 16 de junho de 2026

Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro


Canção breve nº 2 para Manuel Monteiro
 
Há muita diarreia mental
Numa montra do Chiado
Anda à solta um animal
Perdido e tresmalhado.
O delírio e a alucinação
Tomaram conta de quem
No meio desta confusão
Está na terra de ninguém.
 
José do Carmo Francisco
 
(Óleo de Marius Borgeaud)

domingo, 14 de junho de 2026

Canção breve para Manuel Monteiro


Canção breve para Manuel Monteiro
 
Há um crime sem perdão
Sofre a Língua de Portugal
O negócio foi uma razão
Faltou coluna vertebral.
Se dizem não regressar
Do crime descomunal
Cada coisa no seu lugar
Os malucos no Hospital.
 
José do Carmo Francisco

(Óleo de Charles Fraser)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Canção breve da cutelaria catarinense


Canção breve da cutelaria catarinense

Numa pequena oficina
Toca a roda o fim do dia
Acabou-se a obra fina
Da melhor cutelaria.
E vinha segunda-feira
A comprar o material
Esta ou outra maneira
O trabalho era o ideal.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Isabel Codrington)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Canção breve dos cinco zero

 

Canção breve dos cinco zero
 
Foi uma força do Destino
Do Céu veio tempestade
Houve sopas do Divino
No relvado de Alvalade.
Depois de tantas trapaças
Golos marcados com a mão
Já cheira a Taça das Taças
E a Morte não tem razão.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia retirada do site de “A Bola”)



sábado, 11 de outubro de 2025

Canção breve do dia 27-7-1970

 


Canção breve do dia 27-7-1970

Soube da morte do velho
Ao ler um telex alemão
Presidente do Conselho
Tudo «a bem da Nação».
Na gaveta da memória
Entre cotações cambiais
Por aqui passou a História
Não temos dois dias iguais.

José do Carmo Francisco


segunda-feira, 16 de junho de 2025

Nova marcha de Santa Catarina

 

(Lisboa 14-6-2025, dedicado a Luís Almeida)


Nova marcha de Santa Catarina

Dizem que veio de Espanha
Quem ensinou esta arte
Podia ser da Alemanha
Ou até da Grâ Bretanha
O Mundo é uma só parte.
Começou em oficinas
Gente da casa e dos povos
Unidades pequeninas
Com cornos das Argentinas
Para fazer cabos novos.
Santa Catarina
Teus navalheiros
São a tua imagem
São os primeiros.
Santa Catarina
Meu sentir profundo
O teu nome chega
A todo o Mundo.
Nas Relvas ou Granja Nova
Seja qual for o lugar
Na Quinta da Ferraria
No Peso ou na Vigia
Toca a roda a amolar.
Penas e Casal da Azenha
Seja a Mata ou a Portela
Não há quem te detenha
És a beleza estremenha
És a mais linda aguarela
Santa Catarina
Teus navalheiros
São a tua imagem
São os primeiros
Santa Catarina
Meu sentir profundo
O teu nome chega
A todo o Mundo
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 31 de maio de 2025

Canção trigésima sétima para Ana Isabel


Canção trigésima sétima para Ana Isabel

Havendo até quem duvide
Mas este lugar ajardinado
Já foi uma Escola da PIDE
Num pretérito passado.
Há quem teime e insista
Querem apagar a História
O Arquitecto paisagista
Só diploma, não memória.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido - o povo a assistir à ocupação da Escola pelos Militares na Revolução de Abril)


domingo, 21 de janeiro de 2024

Novo poema nº 42 para Ana Isabel


Novo poema nº 42 para Ana Isabel

Eram frugais os cavaleiros de Nuno Álvares Pereira a caminho de Monchique; davam de beber aos cavalos na ribeira de São Teotónio, a seguir rezavam e só depois comiam pouco e devagar.

É por tudo isso que ainda hoje tanto a imagem e como o altar antigo permanecem e continuam no pequeno Santuário do Monte da Orada.

Porque nem tudo se perde na erosão do tempo que, sempre e todos os dias, trabalha para o lado do esquecimento.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Novo poema nº 39 para Ana Isabel

 

Novo poema nº 39 para Ana Isabel

Ao ver o jurado do Prémio Literário a chá e torradas no melhor restaurante da cidade, o vereador da cultura prometeu-lhe logo assistência médica, dormida num bom hotel e até o pagamento do funeral.

Outra vereadora da cultura afirmou não fazer ideia de quem é Júlio César Machado, provando dirigir aquela área como podia estar nos Resíduos Sólidos, Espaços Verdes, Turismo ou Desporto e Acção Escolar.

Porque no sistema cultural perverso que é o nosso o que conta é encaixar os candidatos; não interessa onde nem como porque o importante é ficarem colocados.  

José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Luís Eme) 

     

quarta-feira, 22 de março de 2023

Novo poema nº 30 para Ana Isabel


Novo poema nº 30 para Ana Isabel

O Itália-Inglaterra em Wembley foi um jogo de sombras. Era 1982 contra 1966 mas os jogadores italianos hoje foram todos Dino Zoff a defender e Paolo Rossi a atacar.

Quando Chiesa sai do campo lesionado num lance violento sem falta assinalada nem cartão amarelo mostrado, a memória recua para 1982; os jogos de Vigo com três empates seguidos entre dúvidas, neblinas e angústias.

Porque no fim venceu o futebol e a única moeda válida foi a usada na escolha da baliza para o desempate pelos pontapés da marca de grande penalidade.     

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)  

       

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Novo poema nº 29 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 29 para Ana Isabel

Atuhalpa Yupanki teve o nome civil de Hector Roberto Chavero e tocava viola com a mão esquerda porque numa das muitas prisões que sofreu os carcereiros lhe partiram os dedos da mão direita.

Mas essa palavra milonga também pode designar feitiçaria, sortilégio e bruxedo para além de mexericos, intrigas, enredos e, por fim, medicamentos.

Porque em São Tomé o nome indica um remédio do qual não resultam melhoras, talvez haja aí um fundo de verdade; a milonga não resolve nada mas ajuda a ver tudo de outra maneira.  

 José do Carmo Francisco

(Óleo de Eduardo Viana)

      

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Novo poema nº 26 para Ana Isabel

Novo poema nº 26 para Ana Isabel

Falta hoje saber a data certa da morte civil do pássaro azul que era o nome dado ao guarda-redes voador José Pereira, de Os Belenenses, nascido em Torres Vedras em Setembro de 1931.

Passados cinquenta e cinco anos recordo este homem, ele fez parte do sonho dos Magriços mas não sabia que tudo estava preparado para a passadeira triunfal à equipa inglesa.

Porque aquela arbitragem além de influente foi decisiva no jogo da final em 1966; o começo do seu do anonimato data de 1967 na ida do Restelo para Aveiro e agora, no Cemitério da Ajuda, só falta mesmo a data.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Novo poema nº 10 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 10 para Ana Isabel

Em Janeiro de 1960 foi a fuga de Peniche; um GNR veio de bicicleta chamar o meu pai para conduzir a camioneta do Palácio da Justiça com um grupo de guardas prisionais, polícias e guardas republicanos.

Iam todos do Montijo para Pegões tentar deter no cruzamento os por eles chamados malandros que tinham fugido do Forte de Peniche pelo lado do oceano com os lençóis a servirem de cordas.  

Meu pai nunca acreditou que os presos de Peniche fossem aparecer em Pegões mas como ele disse baixinho «El-rei manda avançar, não manda chover.»

José do Carmo Francisco 

(Desenho de Cruzeiro Seixas)

    

domingo, 28 de novembro de 2021

Novo poema nº 5 para Ana Isabel


Novo poema nº 5 para Ana Isabel

«Não nos tratamos por V. Exas., não há nada disso. É uma conversa entre rapazes.» - numa carta de Maio de 1906 José Alvalade referia-se assim ao ambiente nos fundadores do Sporting Clube de Portugal.   

Tinha havido uma tentativa no ano de 1902 em Belas, outra em 1904 no Campo Grande mas só em 1906 se organizou o Sporting Clube de Portugal sob o símbolo do leão rampante do Conde de Pombeiro.

Porque é no livro de Luís Costa Dias e Paulo Barata que se explica em pormenor esse tempo dos pioneiros quando ser sócio do Clube implicava uma conduta irrepreensível e ser de boa sociedade, afinal os padrões da época.

 José do Carmo Francisco     

(Postal do Sporting CP)

 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Breve poema nº 39 para Ana Isabel


Breve poema nº 39 para Ana Isabel

 

Lugar de Ser é o título de um pequeno e modesto livro colectivo publicado em 2-6-1971, produzido a stêncil na Escola Comercial Veiga Beirão em Lisboa.

Cinquenta anos depois recordo com alguma emoção, surpresa e ternura esses tímidos  primeiros passos de um ofício a que Alves Redol, poucos anos antes, chamou «charrua em campo de pedras».  

Afinal o que hoje procuro é confirmar as palavras de Manuel Simões sobre os jovens poetas de 1971: «Eis-nos perante uma poesia que reflecte os mais secretos anseios do homem, uma poesia cáustica mas serena, portadora do futuro já em marcha.» 

 

José do Carmo Francisco


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Balada da Rua de Baixo

 



Balada da Rua de Baixo
 
Rua de Baixo, meu mundo
Onde eu regresso cansado
Quando o olhar é profundo
Já andou por todo o lado
 
São casas sem ninguém
De famílias desligadas
Não se ouve a voz da mãe
Na névoa das madrugadas
 
Meu berço e minha escola
Minha casa e minha igreja
O amor não pede esmola
Nas esquinas da inveja
 
Minha paisagem saudosa
Povoada por destroços
Duma sede mais gasosa
Que a água destes poços
 
Filarmónica formada
Manhã cheia de brancura
Há festa não tarda nada
Na rua desta amargura
 
Sete ondas repetidas
São sete beijos do mar
Na areia das nossas vidas
Já só podemos cantar
 
Pode-se cantar um fado
Feito só de melodia
Um homem fica calado
Ao ver a fotografia
 
Minha rua inicial
A vida, anos primeiros
Onde passou triunfal
A paixão dos baleeiros
 
José do Carmo Francisco

(Óleo de  Frederic Bazille)
 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A Sé de Leiria ou 16 fragmentos de um esquecimento



A Sé de Leiria ou 16 fragmentos de um esquecimento

Não vejo nesta Sé a caixa com os ossos do meu bispo
Nem hoje nem em Agosto de 1961 quando aqui rezei
Pelos exames de admissão ao Liceu e Escola Técnica

Estranhei os sinos da Sé e os galos madrugadores
Mais que o colchão de palha tão igual ao do quartel
Que iria ter anos mais tarde nas Caldas da Rainha

Comecemos: nasci numa terra de escritores esquecidos
José António da Silva Rebelo não é só bispo de Bragança
Também é autor dum livro hoje na Biblioteca da Ajuda

Lembranças sobre a felicidade de Portugal foi escrito
No seu tempo de administrador da Casa Pia de Lisboa
E foi sem surpresa dedicado a D. Miguel no ano de 1828

Faustino do Rego em 1525 escreve sobre Ordem de Cister
E Manuel de Moraes sobre Francisco de Assis em 1735
Perdendo-se de seguida nas emboscadas do esquecimento

Na sacristia de Santa Catarina existe um retrato do bispo
Repousam os seus ossos na capela-mór de Almagreira
Onde terá morrido em 1846 à beira de completar 67 anos

Tudo começou no castelo de Leiria, no rei Afonso IV
Por isso a torre da Sé assenta numa sua velha porta
De onde se faz ouvir o som feliz dos seus oito sinos
  
Foi desviado o rio que passava dentro do claustro da Sé
Onde os cónegos pescavam os peixes do seu escabeche
E hoje há descargas da ganância das pecuárias sinistras

O pau-santo da sacristia veio de Belém do Pará, Brasil
Nos barcos vagarosos que levavam cantores de ópera
Músicos e guarda-roupa dos romances ainda por cantar

Há hoje a força do silêncio do Grande Órgão de 1997
Para dar mais realce aos painéis de Simão Rodrigues
E à sua Assunção de Nossa Senhora, nossa padroeira

E minha padroeira mesmo sem ter sido baptizado
Na capela do baptistério da nave lateral esquerda
Nem ter lavado as galhetas no fontanário da sacristia

Estas naves e capela são meu lugar de oração teimosa
Que a morte dos nossos parentes sabe sempre a injustiça
Ou antecipado ajuste de contas entre pecado e perdão                    

Em 1961 no Verão já se falava aqui nas três guerras
E grupos de mães procuravam favores de sargentos
Numas oficinas de Alverca, lá mais perto de Lisboa

Passei nos dois exames mas já estava no Comércio
Ouvi muitas vezes murmurar como quem censura
Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!

A luz de Deus entra nos vitrais, forte, justa, solene
Hoje como já em 1570 as naves gritam às capelas
O fervor da futura sagração quatro anos mais tarde

Entre as pedras e os sinais há um tempo que resiste
Forma-se uma procissão solene à porta da sacristia
O meu bispo vence as emboscadas do esquecimento

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Autor Desconhecido)         

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O coração de madeira


O coração de madeira

                           (a Luís Santos – Natal 2019)

O pequeno coração é feito da madeira de uma velha oliveira das terras de Judá, cansada de dar azeitonas verdes e pretas para o azeite das lamparinas de todos os lugares de devoção: capelas, ermidas, igrejas, catedrais. Repousa nele, pequeno coração, o grito enorme dos sobreviventes de 9 de Abril de 1948 em Der Iassine quando elementos do grupo terrorista Irgun mataram com punhais e atiraram aos poços dessa aldeia pacata duzentos e cinquenta dos seus habitantes. As casas de Der Iassine foram arrasadas e a aldeia é hoje o espaço de um aeroporto mas as chaves das casas ainda são guardadas pelos velhos de hoje, jovens de 1948, que nunca perderam a esperança de voltar às casas onde nasceram.
Por um acaso que ninguém sabe explicar, os corações de madeira de Belém são comprados na Rua Anchieta nos baixos da Basílica dos Mártires de Lisboa. Em Der Iassine não há basílica para os mártires que foram vítimas de Menahem Begin e de Isaque Shamir. O facto de ambos terem chefiado governos significa que o crime pode compensar mas nunca deixa de ser o que é, um crime, um crime sem prescrição. 


José do Carmo Francisco  

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Monte Estoril



Monte Estoril

           (a Francisco José Viegas)

A Literatura não tem, como a Ciência, a possibilidade de recorrer ao Carbono para uma correcta ou aproximada datação seja de um facto ou seja de um documento. Esta foto será talvez dos anos quarenta do século XX quando o escritor Ian Lancaster Fleming transformou o espião verdadeiro «Popov» no ficcionado «agente 007» e o Casino Estoril da realidade no Casino Royale do romance. A ficção tem destas coisas: o jugoslavo deu lugar ao britânico, o espião a trabalhar por conta própria foi substituído por um homem integrado numa organização do Governo. Depois é a praia com apenas quatro toldos de aluguer. E as linhas do comboio sem locomotivas nem carruagens. Ao longe temos Cascais: o fim da linha férrea e o limite da Costa do Sol. Todos nós, mesmo os que não nascemos no Pocinho na Estação de Caminho de Ferro, gostamos de comboios talvez por eles serem a metáfora perfeita da vida como viagem na qual a partida tem tempo certo mas a chegada não tem hora prevista. Estamos preparados para tudo menos para essa inevitável estação final.  

José do Carmo Francisco