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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Balada da colónia balnear do Montijo



Balada da colónia balnear do Montijo

Numa toalha estendida
Que era como um muro
Estava o mistério da vida
Onde o passado é futuro.
Na caixa de fato de banho
Fundo negro branca espuma
Sem dimensão ou tamanho
Tudo é coisa nenhuma.
Sessenta anos depois
Da colónia balnear
Ficamos aqui os dois
Para sorrir e cantar.   
Na Praia da Figueirinha
Ou será na Cachofarra
Da neblina da tardinha
Só fica uma algazarra.
Do passado é só memória
E do futuro é só sonho
O poema conta a história
Do mistério que proponho.
De tantos anos passados
 A vida não se revela
Anda por todos os lados
Entre sépia e amarela.
Perto do Cais da Cortiça
Com galeras de Pegões
Um sabor a injustiça
Sem motivos ou razões
Mesmo que tente e insista
Num futuro apenas meu
Este filho dum motorista
Nunca irá para um Liceu.
Seu destino é só cantar
Na camionete da carreira
Que a colónia balnear
É tempo de vida inteira.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tempestade de Verão


Tempestade de Verão

Quem diria, quem diria
Quarenta anos depois
Que a balada deste dia
Era feita entre nós dois.
Que na casa da costura
Com dedais em colecção
Uma nuvem de amargura
Traz tempestade de Verão.
Que coração naufragado
Sem direito a cemitério
Vai comigo a todo o lado
Entre a mágoa e o mistério.
Que na areia desta praia
Houve um golpe de calor
E traz no desenho da saia
Meu olhar de pescador.
Quem diria, quem diria
O mundo faz a fronteira
Entre esta luz da Abadia
E toda a Praia da Vieira.
Que Charneca é aridez
E Lezíria é abundância
O teu Bairro português
Fica longe da distância.
É uma casa, é um casal
O poço de água tão fria
Perto da estrada real
Quem diria, quem diria.
Nos livros que eu escrevia
E em poemas de nada
Uma teimosa alegria
Nasce cada madrugada.

José do Carmo Francisco      

(Óleo de Philippe Jacquet)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Espiga de trigo


Espiga de trigo
                            (de um tema de Emanuel Félix)

Olho-te e tu pareces uma espiga de trigo
Atravessando esta avenida de lado a lado
Vais buscar seis ovos no meio do perigo
Não ao galinheiro mas ao minimercado

Talvez seja difícil explicar esta expressão
Espiga de trigo é afinal só uma imagem 
De quem quer ter a terra toda na tua mão
E nos teus olhos o resumo da paisagem

Estamos em Agosto e tu cheiras a terra
Uma terra trazida na pele que é só tua
Que eu beijo no vento agreste da serra
E no escuro entreaberto da luz da Lua

Espiga de trigo é na verdade o que tu és
Quando passas com os ovos na tua mão
Plenitude de mulher da cabeça aos pés

Em ti procuro o sabor do mais antigo pão  

José do Carmo Francisco

(A fotografia é de Autor desconhecido)