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quarta-feira, 18 de março de 2026

Canção breve dos cinco zero

 

Canção breve dos cinco zero
 
Foi uma força do Destino
Do Céu veio tempestade
Houve sopas do Divino
No relvado de Alvalade.
Depois de tantas trapaças
Golos marcados com a mão
Já cheira a Taça das Taças
E a Morte não tem razão.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia retirada do site de “A Bola”)



quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Mulher em azul e branco

 


Musa em azul e branco
 
Mulher em flôr que perfuma
Este escritório acanhado
Traz uma espécie de espuma
Já passou por todo o lado.
 
No som da voz a melodia
No cabelo a tempestade
Quem diria, quem diria
Que começa outra cidade.
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Novo poema nº 40 para Ana Isabel


Novo poema nº 40 para Ana Isabel

Há sonhos que se perdem dentro das ruas escuras e no barulho do mar; talvez sejam mesmo pesadelos porque trazem no seu bojo uma angústia pesada.

A cidade tem a dimensão da narrativa, desenha-se como uma novela com as suas figuras, os seus interesses e as suas expectativas. 

Porque tudo se revela quando o vento empurra a neblina para dentro do mar e os telhados começam a brilhar com o sol que se demora e faz daquela superfície uma espécie de espelho.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de Luís Eme - Sesimbra) 


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Novo poema nº 7 para Ana Isabel



Novo poema nº 7 para Ana Isabel

Algumas das portas dos prédios desta Rua ostentam flores pequenas em cima da madeira da porta como se ela fosse um lugar de oração e não um ponto de passagem.

Nesta liturgia urbana é como se houvesse uma missa campal: o sol, o altar, o calor, a palavra, as espécies do ofertório, as lágrimas da comunhão.

Porque em Janeiro morreu uma menina e por cada sonho adiado surge uma flor sobre a madeira da porta na teimosia ingénua mas profunda de juntar de novo tudo aquilo que a morte separou.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Henri Matisse)


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Canção Breve para Carolina


Canção breve para Carolina

Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.
Cidade que a luz revela
Silhueta pombalina
Entre o rio e a procela
Passa uma mulher-menina.
Que deixa as suas raízes
Num país num continente
Seu olhar tem dois países
Uma imagem diferente.
Na solidão mais povoada
Dum tempo em velocidade
Ninguém a vê assustada
Quando enfrenta a cidade.
Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.

José do Carmo Francisco     


(Óleo de Michael Malm)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Búzio


Búzio

Sofia tem o perfil de sentinela
Na sala povoada por meninas
O olhar abre a cidade na janela
Com cortejo de pressa e rotinas.
Com paisagem de árvores e gruas
Onde sobe material de construção
As chuvas afastam a gente das ruas
Juntando todos de novo em oração.
Sofia tem o perfil de sentinela
Tempo que passou noutra cidade
Há neste céu azul súbita estrela
Que brilha em nova claridade.
Na sombra se aponta o mistério
Pontua o tempo a luz do seu olhar
No Mundo agora em planisfério
A sua voz concentra o som do mar.


José do Carmo Francisco 

(Óleo de Paul Gustave Fisher)   

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os pastores da cidade


Os pastores da cidade

Não vou dissertar sobre o «pastor do ser» que todo o poeta digno desse nome, afinal é. Falo do outro pastor, o pastor da cidade, o que se levanta cedo ou se deita tarde para acompanhar o seu cão no passeio à volta do quarteirão. Vivi no campo, vivo na cidade. Conheço bem o que são os cães nas quintas, nas casas, nas aldeias, nos casais. Tive um cão (o Fadista) que nunca vi entrar na porta da cozinha. Vivia no quintal, dominava a serventia entre a vinha e o pomar. Vivia no seu círculo mas não atropelava o nosso – privado, doméstico e abrigado. Hoje atravesso a cidade e vejo outro tipo de cão. Há o ácido da urina nos pneus, há a porcaria pelos passeios, há anúncios na TV, comida especial, xarope contra as lombrigas, vitaminas, coleiras. Todos os sábados de manhã eu encontro esses pastores da cidade, ternos e pacientes, na condução dos seus cães. Todos os sábados de manhã (vivo perto da Misericórdia de Lisboa) eu encontro um grupo de crianças abandonadas conduzidas pela terna, paciente, atenta e dedicada monitora para o seu passeio matinal. Nada nem ninguém pode substituir as relações verdadeiras. Ternura em segunda mão, amor sucedâneo e sem horizonte humano, nada disso serve. Por essa razão não sou capaz de compreender todos os sábados como não foram coincidentes os caminhos desses pastores da cidade com os caminhos dessas crianças abandonadas. Porque há muita criança a precisar de ternura, de atenção e de um espaço de carinho num lugar sem sobressaltos nem angústias diárias. Afinal, pensando melhor, os cães podem esperar. As crianças já esperaram demasiado tempo e o seu olhar começa a estar cristalizado nas grandes olheiras, negras e fundas, nascidas num tempo assim, tão hostil.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Casa dos Açores


Casa dos Açores

Anabela queria estar mas não podia
Na música e na palavra em recital
A chuva, a tempestade e a ventania
Não a deixavam viajar até à capital.
Nos seus olhos se desenha o Universo
Na sua voz Terra e Água, a Geografia
Um som concentrado mas disperso
Resume toda a origem da Poesia.
Que é juntar de novo o que a morte
Nos ajudou a separar em cada dia
Como se fosse uma oração mais forte
Do que a ganga de toda a nostalgia.
Carla Seixas tocava e Sidónio dizia
A palavra mais perdida e levantada
Foi um tempo de completa harmonia
Na cidade ficou serena a madrugada.

José do Carmo Francisco      

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Perfil



Perfil

Há uma pequena luz que te recorta
Desenha o teu perfil no meio da rua
Como num filme entras numa porta
Deixando uma saudade que é só tua

Perfume, sabedoria ou só presença
É tudo o que só tu tens e te pertence
Se o som da tua voz faz a diferença
A força do teu olhar tudo convence

Além do peso da terra que tu trazes
Eu tenho as canções por ti cantadas
No meio da batalha fazes as pazes
Trazendo flores em vez de espadas

No meu caminho de todos os dias
Só paro nos semáforos da cidade
Quero ouvir de novo o que dizias
Na tua voz há sempre uma verdade

José do Carmo Francisco

(A fotografia é de Ferdinando Scianna)

sábado, 5 de setembro de 2015

Vindima na cidade


Vindima na cidade

Concertinas no lagar
Uma vindima tardia
Fica o rancho a esperar
Pela tua companhia

Na calçada da cidade
Na porta da livraria
Nasce a nova verdade
O encontro e a alegria

Na vindima do desejo
Mamilo é bago maduro
Projecta-se a cada beijo
Uma tesoura em futuro

No socalco da calçada
No relevo de uma blusa
Quem vê não dá por nada
Fica uma imagem difusa

No teu corpo de perfil
Na ilusão da geografia
Em Outubro vejo Abril
Primavera é todo o dia

O sol completa o gosto
Dos bagos de cada cacho
Álcool e açúcar no mosto
Num copo de alto a baixo

Botões são portão da quinta
Blusa é a encosta da vinha
Vindima é de quem a sinta
Na cidade tão sozinha

No lagar das concertinas
Na luz fraca das lanternas
As mulheres são meninas
Nestas vindimas modernas

José do Carmo Francisco  

(O óleo é de Peruzi Yigit)

sábado, 8 de agosto de 2015

Veneza o Segundo Poema - Os relógios invisíveis


Veneza o segundo poema – Os relógios invisíveis

Há em Veneza um outro conceito do tempo. Sem relógios.

É o sol que abre as portas das pastelarias, pequenos hotéis, mercados ao ar livre, livrarias, restaurantes e, também, dos transportes públicos do grande canal. É a sombra que fecha os taipais das bancas dos feirantes, as portas das lojas, os toldos das esplanadas e afugenta os turistas para os autocarros que os esperam do outro lado do canal, perto da estação do comboio.

Mo intervalo há tempo para tudo. Ou quase: a cidade respira, move-se, dialoga, contempla e dorme como se de um ser humano se tratasse. O tempo deu-lhe a sábia medida do que é justo, urgente e necessário. Por isso nas ruas estreitas há um sereno usufruto do tempo. Ninguém atropela, empurra ou agride aquele com quem se cruza.

Nos relógios invisíveis de Veneza é sempre tempo de viver.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Veneza o Primeiro Poema - Entre a pedra e água


Veneza o Primeiro poema – Entre pedra e água

As ruas de Veneza são iguais às veias e artérias que percorrem os caminhos líquidos da alegria. O mesmo é dizer: não há ruas em Veneza, apenas travessas, becos e praças no intervalo das pedras e da água. 

As ruas de Veneza não existem como as outras ruas de outras cidades: com fumo e ruído e a ânsia metálica de chegar numa pressa para nada. A água dá aos grandes passeios o ritmo de uma vida que nasceu num líquido anterior, num sono descansado, na paz de não haver conflitos porque a placenta os dilui e aniquila. A pedra dá às viagens a força dum passado sempre a resistir à erosão da chuva, do vento e da morte.

Entre pedra e água, as ruas de Veneza não existem mas são verdade.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de Autor Desconhecido)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Aldeia


Aldeia

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Uma daquelas aldeias pequeninas
Por cima um monte, a vida cheia
Por baixo o rio de águas cristalinas 

Sinal de vida, o fumo das lareiras
Todos os dias o trigo é a verdade
E as mulheres casadas e solteiras
Cozem o pão no forno sem idade

Eu fiz dos teus olhos uma aldeia
Na esperança de ser um habitante
Acabei preso na grande cadeia
Numa cidade afastada e distante

Hoje sou um citadino desolado
Bate o frio, vem a chuva pela rua
Na aldeia que sonhei do teu lado

Vejo uma casa vazia que é só tua

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Paul Corfield)