segunda-feira, 15 de junho de 2015

Primeira moda popular


Primeira moda popular

Para lá de Lisboa ainda
Tenho um lencinho a corar
Uma menina tão linda
Eu nunca pensei de amar       (Popular -Baixo Alentejo)

Para lá de Lisboa ainda
No caminho da fresca serra
Uma canção que não finda
Traz o meu peito em guerra

Para lá de Lisboa ainda
Junto à pomba de metal
Há nuvens de ida e vinda
Como num bilhete postal

Tenho um lencinho a corar
Dá o sol na humidade
Não há luz no meu olhar
Se não chego à verdade

Tenho um lencinho a corar
Por causa desta saudade
Enxuguei o meu olhar
Entre o campo e a cidade

Uma menina tão linda
Uma tão linda pessoa
Para lá de Lisboa ainda
Ainda para lá de Lisboa

Uma menina tão linda
Sorriso de camponesa
Na memória desavinda
Só recordo a sua beleza

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração vazio
Fiquei longe do lugar
Entre uma serra e um rio

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração fechado
Bastou apenas um olhar
Para eu ficar do seu lado

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Samuel Luke Fildes)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Fotografia antiga




Fotografia antiga

Toda de branco ficaste ao colo do teu pai
Pequena e loira tu não podias caminhar
Há as fotografias das quais nunca se sai
Mesmo quando nós julgamos ter um lugar

Mesmo se pensamos ter o poder de decisão
E escolhemos nossos quotidianos caminhos
Descobrimos ser o nosso lugar na procissão
Ali bem perto de todos os outros anjinhos

Era aí que deverias para sempre ter ficado
Nos braços fortes de um pai tão protector
Então o futuro confunde-se com o passado
E havemos de o encontrar seja lá onde for

Não durmas embora seja grande o cansaço
Eu já oiço a filarmónica ali ao fim da rua
Olha bem. É aqui o teu lugar, o teu espaço
A memória dessa menina ao colo é só tua    
                
 José do Carmo Francisco

(A fotografia é de autor desconhecido)    
        

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Nova Casa


Nova casa

Nova casa nascida de um grande desejo
De escrever sobre as pedras e os sinais
A história onde os filhos dão um beijo
À memória não esquecida dos seus pais

Feita do resto de manhãs onde as chuvas
Desenhavam o mapa dos seus caminhos
Entre a colheita das azeitonas e das uvas
E a adega com a aguardente e os vinhos

Feita de resto de tardes lá onde o calor
Derramava nos seus rostos uma ribeira
Entre o volume de fortes bagas de suor
E a certeza duma paixão tão verdadeira

Como aquela que afinal é testemunho
Nesta nova casa hoje enfim renascida
Não é preciso assinar pelo seu punho
Em cada pedra há o sinal da sua vida

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Stacey Durand)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Canção para uma noite em Évora (1938) - a Carlos Querido


Canção para uma noite em Évora (1938) - a Carlos Querido

Meu avô José Almeida na noite
Esperava em vão a carruagem
Que nesse dia partira do Barreiro
Com o cofre para pagar aos homens. 
Em Évora apenas os sons da feira
Quebravam a angústia da espera
Dos carpinteiros da Companhia
Construtores dos telhados da linha.
Poucos anos antes no Valado de Frades
Um empregado de seu pai levava
Uma égua mansa pela arreata
Ao soldado chegado de Leiria.
Hoje é diferente. Já pai de filhos
Não acredita nas palavras do chefe
Nem no apontador deste grupo
Atónito na estação da CP em Évora.
Com o bocal da trompete na mão
Aborda um jovem e pede o cornetim
Ali entre a surpresa e a ousadia
No meio do pó do baile rasgado.
Tocou a «Moreninha» e o «Teodoro»
As músicas da moda, anos trinta
Ante o aplauso geral do baile
Logo havia abafado e figos secos.  
Cinquenta anos depois contava a sorrir
Há uma fotografia dele com a bisneta
No sol de Março da nossa terra
Sem saber da morte dos comboios.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia da autoria de Larry Silver)  

terça-feira, 5 de maio de 2015

Balada da Rua da Amargura


Balada da Rua da Amargura

Minha rua tão sozinha / Do tempo de dar o nome
Foi nas Caldas da Rainha / Do medo nascia a fome.
No dia da inspecção / Ainda havia transporte
Quando cheguei à estação / só pensava na morte.
Minha prima Deolinda / Dava-me o pequeno-almoço
Tenho o sabor hoje ainda / Do olhar em alvoroço.
Meu primo também sofria / As mesmas dores pesadas
Guia de marcha num dia / Para guerra e emboscadas.
Entre o Bairro das Morenas / Arneiros e Águas Santas
As ruas são mais pequenas / Na cidade até às tantas.
Na hora de recolher / Setenta e dois, era Abril
Não parava de chover / Porque as águas eram mil.
E nos exercícios finais / Num pinhal junto à lagoa
O mar dava os seus sinais / O destino era Lisboa.
Foi na Rua da Amargura / Entre a Praça e o Jardim
Que eu fui á tua procura / e só me encontrei a mim.

José do Carmo Francisco        

(postal antigo da Praça da Fruta das Caldas)

domingo, 26 de abril de 2015

Canção para um Império em S. Carlos


Canção para um Império em S. Carlos

Dia de bodo não há querela
Senhor Luís venha à janela
Que um foguete está no ar
Venham sopas a preceito
O vinho de cheiro no peito
Esta alcatra é um manjar
E eu saúdo a Impanatriz
Luísa de mão dada com Luís
Dois confeitos num copinho
Eu cheguei do Continente
E no meio desta gente
Nunca me sinto sozinho
Eu peço a este Imparador
Papel de seda por favor
Tal como manda a canção
Peço loiro, cebolas doiradas
Toicinho em taliscas tiradas
Pau de cravo, pimenta em grão
Mas não canto ao desafio
Faço meus versos com brio
E não passo dum amador
Acabou a brincadeira
Viva a bela Ilha Terceira
Luís Bretão Imparador

José do Carmo Francisco

 (fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Balada da casa dos cantoneiros


Balada da casa dos cantoneiros

Roubaram-me os azulejos
Com as letras do meu nome
Roubaram o pão e os queijos
Que me matavam a fome

Roubaram a minha enxada
Pá-balde e carro de mão
Levaram também a estrada
E com ela o meu cantão

Roubaram tudo o que havia
Nesta casa e atrás da porta
Roubaram toda a alegria
E a casa ficou logo morta

Levaram toda a minha vida
Manhãs e tardes de suor
Hei-de encontrá-la perdida
Vá esta vida por onde for

Na cada dos cantoneiros
Há uma paz de cemitério
Saíram os derradeiros
Avançou logo o mistério

Na casa dos cantoneiros
O telhado não tem telhas
Os relógios sem ponteiros
Registam horas já velhas

Na casa dos cantoneiros
A cozinha não faz fumo
À noite tem companheiros
Sem destino e sem rumo

Na casa dos cantoneiros
A água faz inchar as portas
Não é como nos ribeiros
Que fazem falta nas hortas

José do Carmo Francisco

(fotografia de autor desconhecido)

sábado, 21 de março de 2015

Sobre Domingos Rebelo «Os emigrantes (1926)


Sobre Domingos Rebelo  «Os emigrantes» (1926)

A mulher veio da Califórnia e faz no olhar
O resumo da viagem ainda no seu início
Porque ela já foi ao outro lado do mar
Onde o sofrimento tem horário e é ofício.
 Há os dois corações nesta viola da terra
E a moldura do Santo Cristo está no lugar
A canção e a oração que o quadro encerra
São a vida que é um mistério por desvendar.
As laranjas que foram riqueza no passado
Estão num cesto a prenunciar prosperidade
No centro o olhar da rapariga está parado
No lugar onde o cais de pedra é já saudade.
Livra o casal do sol o guarda-chuva preto
Pode ser o avô ou tio, talvez até cunhado
Do abstracto se passa logo para o concreto
No quadro eterno que nunca será explicado.

José do Carmo Francisco    

(Óleo de Domingos Rebelo)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Balada do Cais da Cortiça


Balada do Cais da Cortiça 

Cais da cortiça, vapores
A caminho de Lisboa
 
Samarra de lavradores
 
Contra o frio da proa

A água do cantarinho
O mestre tem na cabina
É do poço do vizinho
Onde a rua faz esquina
 

As galeras de Pegões
 
Chegam aqui de manhã
 
Entre os gritos e razões
 
Na cadeia comarcã

E a gente dos escritórios
Nas janelas da prisão
No maço de Provisórios
Cada cigarro um tostão
 

Em certas ocasiões
 
Vem a carga diferente
A galera traz melões
 
Matam a sede à gente

Com rodas de camioneta
 
São outras velocidades
 
Viagem quase secreta
Entre duas localidades
 

Entre Montijo e Pegões
 
Levam a carga que calha
 
Ou o ferro para portões
 
Ou vinte fardos de palha

E esta galera continua
 
Numa memória já morta
 
Já vem na curva da rua
 
Onde estou à minha porta

José do Carmo Francisco       
 
 ´
(fotografia de autor desconhecido)

sábado, 7 de março de 2015

Poema para os olhos de Maria Belmira


Poema para os olhos de Maria Belmira

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo todo o fulgor do olhar dos ranchos de ceifeiros. Mas não vi ceifeiros hoje nos campos entre a antiga fronteira de Badajoz e Montemor-o-Novo onde organizo este poema debaixo de uma árvore e perto de um jardim silencioso. Não vi os ceifeiros de Fialho de Almeida na terrível faina de terem sede, separados entre si por seis metros de distância e olhando ao longe os pássaros calados, os cães com a língua de fora, as éguas paradas e tristes, o ar cada vez mais pesado e mais raro.

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo a voz dos ceifeiros saídos directamente dos poemas de Francisco Bugalho – esses mesmos que foram escritos a meia dúzia de quilómetros de Castelo de Vide. Também não vi os ceifeiros deste poeta-lavrador, ceifeiros capazes de levantarem a voz mesmo contra o vento suão, mesmo contra o calor que não afecta a força da sua ternura ao manusear os braçados de espigas como quem tira um pão cozido da arca onde repousa na viagem entre a boca do forno e o branco da mesa.

Peço desculpa. Tinha prometido trazer para junto dos teus olhos quando regressasse do Alentejo uma paisagem povoada por gente viva mas os meus olhos cansados trazem apenas o pó das máquinas que deixam no seu caminho uma nuvem alta entre a linha do restolho e a linha do horizonte. Aquilo que poderia ser uma forma de conhecimento e de afecto fixa-se neste poema desolado no simples registo mecânico da passagem de uma máquina silenciosa pelo chão da seara exausta.

Peço desculpa. Eu próprio já não devia ter ilusões acerca do sabor do pão que se come hoje em dia. As máquinas cortam as espigas de outra maneira, noutro ritmo e noutra velocidade. Se formos juntar a esse factor a desvalorização da água, do sal e do fermento, percebemos melhor esta actual falta de sabor do pão nas nossas mesas tão cheias de pressa e tão vazias de ternura. 

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Marcos Damascena)