terça-feira, 4 de junho de 2019

Musa em fim de semana


Musa em fim de semana

Quando chega a sexta-feira
Nas folhas dum calendário
Na Quinta da Regaleira 
O tempo passa ao contrário.

A musa abre um império
De sonhos e de segredos
No poço que é um mistério
O som do mar nos penedos.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Edward Cucuel)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Balada para Vila Nova da Barquinha



Balada para Vila Nova da Barquinha

Vou abalar, vou-me embora
Quero ir para a Barquinha
Lá eu não sou visto de fora
E sinto a terra como minha.
Montijo, Escola Primária
Vila Franca e Santarém
Está na minha secretária
O Ribatejo é Terra Mãe.
Mesmo que teime e insista
Num destino que se perdeu
Este filho dum motorista
Não foi mesmo para o Liceu.
Foi no Esteiro do Nogueira
Numa memória confusa
Que a mais linda avieira
Se tornou a minha musa.
Na Escola o «Velas do Tejo»
O jornal numa parede
Nasceu assim um desejo
Mas nunca mata a sede.
Nessa Escola Comercial
Com História e Geografia
Meu destino natural
Era o balcão, quem diria.
Em Santarém n´O MIRANTE
A escrever na nova luta
Tudo o que fui em diante
Nasceu daquela recruta.
Sou do tempo em que o avio
Do campino mais sozinho
Quando um pão seco e frio
Dava um petisco quentinho.
Sou do tempo do campino
Sem telemóvel ou jeep
Trabalhava o seu destino
Sem algum medo da gripe.
Roupa que a chuva molhava
Não podia ser substituída
Vinha o Sol que a secava
E era assim aquela vida.
  
José do Carmo Francisco

sábado, 18 de maio de 2019

Musa em tarde de esplanada



Musa em tarde de esplanada

Um lugar marcado na esplanada
Para bolo e café contra a rotina
Se passa a correr não dá por nada
Nem vê o perfil da mulher-menina.

Empurrou a neblina da madrugada
Forte e compacta como um muro
Na dúvida aos poucos decifrada
Se desenha o rumo para o futuro.

José do Carmo Francisco

(Quiosque do Oliveira no Principe Real por M. Nagashima)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Balada dos brinquedos da infância (para o Pedro)



Balada dos brinquedos da infância (para o Pedro)

O pedreiro cheira a cal
O carpinteiro a madeira
No ofício de cada qual
Passou uma lavadeira.
A roupa num alguidar
Na cabeça uma rodilha
Não se cansa de cantar
A tarde é uma maravilha.
Passado que se desenha
Lugar de pedra e sabão
A água vem da azenha
Já moeu todo o seu grão.
O brinquedo improvisado
O carro é uma lata lavada
As pinhas estão lado a lado
Como uma junta na estrada.
Para que a carga seja mais
Há uma pedra pequena
E imagino uns animais
Na nossa tarde serena.
Às vezes oiço um sinal
Comboio em S. Martinho
É o vento em vendaval
Traz a chuva de caminho.
Tenho toda a infância
Nas linhas duma balada
Mesmo a grande distância
Aqui ninguém deu por nada.

José do Carmo Francisco

(Óleo de André Henri Dargelas)

Poema autógrafo para Adelino Gomes em 24-4-2019  

domingo, 28 de abril de 2019

Jocelyn e Philip no camarote do Queen Mary 2



Jocelyn e Philip no camarote do Queen Mary 2

Nem tudo cabia no belo saco vede do Sporting
Além do kispo do Tomás, das calças do Lucas
E dos livros da Ana Maria e do Ian Sutherland.
Faltou um comboio para Francisco José Viegas
Faltou também um palco para Jorge Silva Melo
O mesmo é dizer Miguel Torga e Enda Walsh.
Em vão recomendei todo o cuidado a Philip
Por causa dos carteiristas do eléctrico nº 28
Em Barcelona um profissional levou tudo.
Maneira de dizer dinheiro e documentos
Mas não tirou nem podia tirar o espírito
Porque um viajante nunca será um turista.
Vemos a fotografia tirada no Funchal em 1928
A caminho do Rio de Janeiro também de barco
Marinheiro, operário e marquês de Penafiel.
É esta mistura feliz que o saco verde recorda
E insiste na memória do jogo de 1902 em Belas
Ou outro em 1904 no Jardim do Campo Grande.
Vimos a cidade do alto do Castelo de São Jorge
Almoçámos na Paparucha, sentimos as árvores
Mais inesperadas do Jardim do Príncipe Real.
Fizemos a rota das livrarias Bertrand e Ferin
Juntando sague pisado e estilo, vida e poema
Entre o pó dos minutos e a posteridade relativa.

José do Carmo Francisco    

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Balada dos meninos do Montijo em 1958


Balada dos meninos do Montijo em 1958

Os meninos tão diferentes
E já passaram tantos dias
Trazem os olhares quentes
No fervor das nostalgias.
Tantos anos terão passado
Sobre a foto tão singular
Andamos por todo o lado
Voltamos sempre ao lugar.
E até a côr do retrato
Está no tempo passado
Castanho, sépia, exacto
Num desenho recortado.
O tempo desses meninos
É um profundo mistério
Por cada um dos destinos
Entre o cómico e o sério.
Sobre o processo mental
De quem guardou o incenso
Há um olhar principal
Um tempo inda suspenso.
Na naveta da memória
Nas casas da nostalgia
Estamos todos na glória
De cantar em cada dia.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da Colecção Particular de JCF)

sábado, 13 de abril de 2019

Encomendação das Almas no Palácio Baldaya



Encomendação das Almas no Palácio Baldaya

Quem canta por conta sua
Canta sempre com razão
Nas Corgas cantam na rua
No Baldaya foi num salão.
A Cultura e a Natureza
Unidas numa oração
A cantar também se reza
Pela voz dum coração.
Entre as sete senhoras
A voz do homem pontua
Esta liturgia das horas
Numa igreja que é a rua.
Ficou o cheiro da cera
Das velas duma lanterna
Perfume de Primavera
Nem antiga nem moderna.
E num Dia do Senhor
Voz do Campo na Cidade
Veio levantar um clamor
E deixar uma saudade.
Bendita e louvada seja
A força que fez juntar
Numa privada igreja
Este grupo neste lugar.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Autor Desconhecido)

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lamentação de Wanninger a Jorge Silva Melo



Lamentação de Wanninger a Jorge Silva Melo

Tudo na vida se resume a isto:
Não haver quem atenda e pague
As facturas deste encadernador.
Uma, duas, três vezes foi em vão
Ninguém quer saber das facturas
De Wanninger, o humilde oficial.
Karl Valentin continua entre nós 
Nos cafés-teatro de fumo e música
Onde ninguém atende o telefone.
Foi o vazio deste tempo vazio
Onde não se comunica nada
Sequer o princípio da atenção.
Wanninger fala a Jorge Silva Melo
E sabe que «A mesa está posta»
No jardim do Príncipe Real.
De resto tudo continua assim
Sem resposta ao encadernador
Como o poema que ninguém lê.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 21 de março de 2019

Balada para meu neto Pedro (2019)



Balada para meu neto Pedro (2019)

Nos parabéns do postal
Todo feito artesanato
Sem pai ou mãe no aval
Há um directo contrato.
Um balão verde no ar
Rumo a um céu presente
Olha para mim a cantar
Cantigas de toda a gente.
Na boleia desta leitura
Dum livro sobre a Cidade
Lisboa é uma figura
Entre o sonho e a verdade.
No tempo do calendário
Meu neto Pedro sorria
A descer a Voz do Operário
Na escada do fim do dia.
São sessenta e oito ou sete
Os números de cada idade
O futuro tudo promete
No meio da Liberdade.
Seis e oito são a soma
Do dobro do teu registo
Se tem boca vai a Roma
Por isso nunca desisto.
Da ternura em sementeira
Do amor enquanto lema
Uma vida assim verdadeira
Não cabe dentro do esquema.

José do Carmo Francisco

(Fotografia da colecção particular de JCF)

domingo, 10 de março de 2019

Balada breve para Cecília



Balada breve para Cecília

Cidade das sete gruas
Já foi das sete colinas
No labirinto das ruas
Há retratos de meninas.
No balcão sobre a cidade
Não é precisa a mobília
Chega a força e a verdade
Da presença de Cecília.
Na linha do horizonte
Onde o olhar não tem fim
A voz tem água de fonte
Que alimenta um jardim.
Um castelo e uma igreja
As batalhas e as orações
Tudo aquilo que sobeja
São motivos e razões.
Entre distância e espaço
Da paisagem povoada
O olhar desenha um laço
Outros não dão por nada.
Entre a sopa e os talheres
Peixe e carne, refeição
Povoado por mulheres
A sala tem dimensão.
Mesmo breve é alegria
Mesmo frágil é memória
Fica no registo do dia
Um capítulo da História.
Juntar dois Continentes
Fazem parte do Mundo
São distintos e diferentes
E bem iguais lá no fundo.
Perfil de mulher-menina
Sorriso que instala a paz
A balada não termina
Continua e volta atrás.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de Luís Eme)