sábado, 5 de setembro de 2015

Vindima na cidade


Vindima na cidade

Concertinas no lagar
Uma vindima tardia
Fica o rancho a esperar
Pela tua companhia

Na calçada da cidade
Na porta da livraria
Nasce a nova verdade
O encontro e a alegria

Na vindima do desejo
Mamilo é bago maduro
Projecta-se a cada beijo
Uma tesoura em futuro

No socalco da calçada
No relevo de uma blusa
Quem vê não dá por nada
Fica uma imagem difusa

No teu corpo de perfil
Na ilusão da geografia
Em Outubro vejo Abril
Primavera é todo o dia

O sol completa o gosto
Dos bagos de cada cacho
Álcool e açúcar no mosto
Num copo de alto a baixo

Botões são portão da quinta
Blusa é a encosta da vinha
Vindima é de quem a sinta
Na cidade tão sozinha

No lagar das concertinas
Na luz fraca das lanternas
As mulheres são meninas
Nestas vindimas modernas

José do Carmo Francisco  

(O óleo é de Peruzi Yigit)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Veneza o terceiro poema - As sombras de Veneza


Veneza o terceiro poema – As sombras de Veneza

Há sempre tempo para uma sombra em Veneza.
Hoje, como nos tempos em que havia touradas e as tabernas improvisadas se colocavam à sombra das igrejas com os barris de vinho cobertos por grandes panos molhados. O vinho sela os encontros, multiplica a alegria do quotidiano suspenso por um intervalo magnético de festa. Surgem assim novas pontes, não de pedra mas de humana ligação, entre vozes e mãos, olhos e palavras. Tudo se liga no diálogo molhado pelo vinho e pela sombra.
Levo de Veneza uma ideia forte de encontros e de procura imediata de uma sombra. Onde a alegria acaba por se instalar no devagar nos minutos prolongados. Há sempre tempo para uma sombra em Veneza.   

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 8 de agosto de 2015

Veneza o Segundo Poema - Os relógios invisíveis


Veneza o segundo poema – Os relógios invisíveis

Há em Veneza um outro conceito do tempo. Sem relógios.

É o sol que abre as portas das pastelarias, pequenos hotéis, mercados ao ar livre, livrarias, restaurantes e, também, dos transportes públicos do grande canal. É a sombra que fecha os taipais das bancas dos feirantes, as portas das lojas, os toldos das esplanadas e afugenta os turistas para os autocarros que os esperam do outro lado do canal, perto da estação do comboio.

Mo intervalo há tempo para tudo. Ou quase: a cidade respira, move-se, dialoga, contempla e dorme como se de um ser humano se tratasse. O tempo deu-lhe a sábia medida do que é justo, urgente e necessário. Por isso nas ruas estreitas há um sereno usufruto do tempo. Ninguém atropela, empurra ou agride aquele com quem se cruza.

Nos relógios invisíveis de Veneza é sempre tempo de viver.

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Veneza o Primeiro Poema - Entre a pedra e água


Veneza o Primeiro poema – Entre pedra e água

As ruas de Veneza são iguais às veias e artérias que percorrem os caminhos líquidos da alegria. O mesmo é dizer: não há ruas em Veneza, apenas travessas, becos e praças no intervalo das pedras e da água. 

As ruas de Veneza não existem como as outras ruas de outras cidades: com fumo e ruído e a ânsia metálica de chegar numa pressa para nada. A água dá aos grandes passeios o ritmo de uma vida que nasceu num líquido anterior, num sono descansado, na paz de não haver conflitos porque a placenta os dilui e aniquila. A pedra dá às viagens a força dum passado sempre a resistir à erosão da chuva, do vento e da morte.

Entre pedra e água, as ruas de Veneza não existem mas são verdade.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Espiga de trigo


Espiga de trigo
                            (de um tema de Emanuel Félix)

Olho-te e tu pareces uma espiga de trigo
Atravessando esta avenida de lado a lado
Vais buscar seis ovos no meio do perigo
Não ao galinheiro mas ao minimercado

Talvez seja difícil explicar esta expressão
Espiga de trigo é afinal só uma imagem 
De quem quer ter a terra toda na tua mão
E nos teus olhos o resumo da paisagem

Estamos em Agosto e tu cheiras a terra
Uma terra trazida na pele que é só tua
Que eu beijo no vento agreste da serra
E no escuro entreaberto da luz da Lua

Espiga de trigo é na verdade o que tu és
Quando passas com os ovos na tua mão
Plenitude de mulher da cabeça aos pés

Em ti procuro o sabor do mais antigo pão  

José do Carmo Francisco

(A fotografia é de Autor desconhecido)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Primeira moda popular


Primeira moda popular

Para lá de Lisboa ainda
Tenho um lencinho a corar
Uma menina tão linda
Eu nunca pensei de amar       (Popular -Baixo Alentejo)

Para lá de Lisboa ainda
No caminho da fresca serra
Uma canção que não finda
Traz o meu peito em guerra

Para lá de Lisboa ainda
Junto à pomba de metal
Há nuvens de ida e vinda
Como num bilhete postal

Tenho um lencinho a corar
Dá o sol na humidade
Não há luz no meu olhar
Se não chego à verdade

Tenho um lencinho a corar
Por causa desta saudade
Enxuguei o meu olhar
Entre o campo e a cidade

Uma menina tão linda
Uma tão linda pessoa
Para lá de Lisboa ainda
Ainda para lá de Lisboa

Uma menina tão linda
Sorriso de camponesa
Na memória desavinda
Só recordo a sua beleza

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração vazio
Fiquei longe do lugar
Entre uma serra e um rio

Eu nunca pensei de amar
Tinha o coração fechado
Bastou apenas um olhar
Para eu ficar do seu lado

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Samuel Luke Fildes)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Fotografia antiga




Fotografia antiga

Toda de branco ficaste ao colo do teu pai
Pequena e loira tu não podias caminhar
Há as fotografias das quais nunca se sai
Mesmo quando nós julgamos ter um lugar

Mesmo se pensamos ter o poder de decisão
E escolhemos nossos quotidianos caminhos
Descobrimos ser o nosso lugar na procissão
Ali bem perto de todos os outros anjinhos

Era aí que deverias para sempre ter ficado
Nos braços fortes de um pai tão protector
Então o futuro confunde-se com o passado
E havemos de o encontrar seja lá onde for

Não durmas embora seja grande o cansaço
Eu já oiço a filarmónica ali ao fim da rua
Olha bem. É aqui o teu lugar, o teu espaço
A memória dessa menina ao colo é só tua    
                
 José do Carmo Francisco

(A fotografia é de autor desconhecido)    
        

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Nova Casa


Nova casa

Nova casa nascida de um grande desejo
De escrever sobre as pedras e os sinais
A história onde os filhos dão um beijo
À memória não esquecida dos seus pais

Feita do resto de manhãs onde as chuvas
Desenhavam o mapa dos seus caminhos
Entre a colheita das azeitonas e das uvas
E a adega com a aguardente e os vinhos

Feita de resto de tardes lá onde o calor
Derramava nos seus rostos uma ribeira
Entre o volume de fortes bagas de suor
E a certeza duma paixão tão verdadeira

Como aquela que afinal é testemunho
Nesta nova casa hoje enfim renascida
Não é preciso assinar pelo seu punho
Em cada pedra há o sinal da sua vida

José do Carmo Francisco

(O óleo é de Stacey Durand)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Canção para uma noite em Évora (1938) - a Carlos Querido


Canção para uma noite em Évora (1938) - a Carlos Querido

Meu avô José Almeida na noite
Esperava em vão a carruagem
Que nesse dia partira do Barreiro
Com o cofre para pagar aos homens. 
Em Évora apenas os sons da feira
Quebravam a angústia da espera
Dos carpinteiros da Companhia
Construtores dos telhados da linha.
Poucos anos antes no Valado de Frades
Um empregado de seu pai levava
Uma égua mansa pela arreata
Ao soldado chegado de Leiria.
Hoje é diferente. Já pai de filhos
Não acredita nas palavras do chefe
Nem no apontador deste grupo
Atónito na estação da CP em Évora.
Com o bocal da trompete na mão
Aborda um jovem e pede o cornetim
Ali entre a surpresa e a ousadia
No meio do pó do baile rasgado.
Tocou a «Moreninha» e o «Teodoro»
As músicas da moda, anos trinta
Ante o aplauso geral do baile
Logo havia abafado e figos secos.  
Cinquenta anos depois contava a sorrir
Há uma fotografia dele com a bisneta
No sol de Março da nossa terra
Sem saber da morte dos comboios.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia da autoria de Larry Silver)  

terça-feira, 5 de maio de 2015

Balada da Rua da Amargura


Balada da Rua da Amargura

Minha rua tão sozinha / Do tempo de dar o nome
Foi nas Caldas da Rainha / Do medo nascia a fome.
No dia da inspecção / Ainda havia transporte
Quando cheguei à estação / só pensava na morte.
Minha prima Deolinda / Dava-me o pequeno-almoço
Tenho o sabor hoje ainda / Do olhar em alvoroço.
Meu primo também sofria / As mesmas dores pesadas
Guia de marcha num dia / Para guerra e emboscadas.
Entre o Bairro das Morenas / Arneiros e Águas Santas
As ruas são mais pequenas / Na cidade até às tantas.
Na hora de recolher / Setenta e dois, era Abril
Não parava de chover / Porque as águas eram mil.
E nos exercícios finais / Num pinhal junto à lagoa
O mar dava os seus sinais / O destino era Lisboa.
Foi na Rua da Amargura / Entre a Praça e o Jardim
Que eu fui á tua procura / e só me encontrei a mim.

José do Carmo Francisco        

(postal antigo da Praça da Fruta das Caldas)