sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Sé de Leiria ou 16 fragmentos de um esquecimento


A Sé de Leiria ou 16 fragmentos de um esquecimento

Não vejo nesta Sé a caixa com os ossos do meu bispo
Nem hoje nem em Agosto de 1961 quando aqui rezei
Pelos exames de admissão ao Liceu e Escola Técnica

Estranhei os sinos da Sé e os galos madrugadores
Mais que o colchão de palha tão igual ao do quartel
Que iria ter anos mais tarde nas Caldas da Rainha

Comecemos: nasci numa terra de escritores esquecidos
José António da Silva Rebelo não é só bispo de Bragança
Também é autor dum livro hoje na Biblioteca da Ajuda

Lembranças sobre a felicidade de Portugal foi escrito
No seu tempo de administrador da Casa Pia de Lisboa
E foi sem surpresa dedicado a D. Miguel no ano de 1828

Faustino do Rego em 1525 escreve sobre Ordem de Cister
E Manuel de Moraes sobre Francisco de Assis em 1735
Perdendo-se de seguida nas emboscadas do esquecimento

Na sacristia de Santa Catarina existe um retrato do bispo
Repousam os seus ossos na capela-mór de Almagreira
Onde terá morrido em 1846 à beira de completar 67 anos

Tudo começou no castelo de Leiria, no rei Afonso IV
Por isso a torre da Sé assenta numa sua velha porta
De onde se faz ouvir o som feliz dos seus oito sinos
  
Foi desviado o rio que passava dentro do claustro da Sé
Onde os cónegos pescavam os peixes do seu escabeche
E hoje há descargas da ganância das pecuárias sinistras

O pau-santo da sacristia veio de Belém do Pará, Brasil
Nos barcos vagarosos que levavam cantores de ópera
Músicos e guarda-roupa dos romances ainda por cantar

Há hoje a força do silêncio do Grande Órgão de 1997
Para dar mais realce aos painéis de Simão Rodrigues
E à sua Assunção de Nossa Senhora, nossa padroeira

E minha padroeira mesmo sem ter sido baptizado
Na capela do baptistério da nave lateral esquerda
Nem ter lavado as galhetas no fontanário da sacristia

Estas naves e capela são meu lugar de oração teimosa
Que a morte dos nossos parentes sabe sempre a injustiça
Ou antecipado ajuste de contas entre pecado e perdão                    

Em 1961 no Verão já se falava aqui nas três guerras
E grupos de mães procuravam favores de sargentos
Numas oficinas de Alverca, lá mais perto de Lisboa

Passei nos dois exames mas já estava no Comércio
Ouvi muitas vezes murmurar como quem censura
Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!

A luz de Deus entra nos vitrais, forte, justa, solene
Hoje como já em 1570 as naves gritam às capelas
O fervor da futura sagração quatro anos mais tarde

Entre as pedras e os sinais há um tempo que resiste
Forma-se uma procissão solene à porta da sacristia
O meu bispo vence as emboscadas do esquecimento

José do Carmo Francisco (31 Jan. 2011)            

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Pão, o Vinho, a Carne



O Pão, o Vinho, a Carne

Eu também comi desse pão e bebi desse vinho
Entre o sol e o pó na luz da tarde dum arraial
Eu era o rapazinho que transportava a carne
Na travessa com um ramo de louro por cima
Era eu que gritava Quem dá mais ó debotes!
Mesmo sem saber que devia dizer ó devotos!
Sem saber nada e não saber nada era ser feliz.
Era eu que tropeçava nas pedras soltas da rua
Debaixo do pálio ia com a naveta do incenso
Com o turíbulo a deixar no ar o imenso doce
Passando ao lado dos mais humildes currais
Onde os sons da filarmónica faziam responder
Todas as vozes de todos os animais da terra
Cansados dos seus trabalhos de todos os dias.
No fim da procissão logo começava o almoço
No fim do almoço tinha o coreto e a quermesse
Um copo de vinho amolecia as cavacas duras
O sol derretia todo o gelo na tina das gasosas
Enquanto eu derretia todos os tostões em rifas
E os músicos chamavam «marcha tripas a ferver»
À marcha militar «Stars and stripes for ever».
Era o Espírito Santo e eu nesse tempo não sabia
No pão, no vinho e na carne vendida num leilão
Havia em tudo a humidade das lágrimas de Deus
Porque só às crianças cabia o preço do resgate
Dum Mundo cada vez mais longe da Sua Luz
Onde as primaveras já não eram uma estação
Mas um cenário de plástico e de papelão cinzento.
Era o Espírito Santo e eu nesse tempo não sabia
Mas saber não era para mim o mais importante
Porque naquele tempo vivia a festa por dentro
Mas hoje já não há nenhum lugar para mim
Nem na procissão nem nas rifas da quermesse
Nem na mesa do almoço onde não está ninguém
Nem no coreto de onde todos os músicos fugiram.
O poema é uma candeia acesa no meio da noite
Quer ser uma oração a juntar o tempo que ficou
No lado de lá do vazio, da noite e da infância
Lá onde não há pontes a ligarem duas margens
Lá onde o poeta ajoelha num altar de sombras
Para rezar de novo nas mais longas ladainhas
Um poema tão triste, tão teimoso e tão tardio.

José do Carmo Francisco

(Óleo de Caravagio)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato



Balada para Salgueiro Maia em S. Torcato

Para acabar com o luto
De noivas, avós e mães
É que a noite deu fruto
Nas armas dos capitães.
Nas portas da madrugada
De Santarém nos limites
Foi Lisboa atravessada
Pelo grupo de Chaimites.
Passou no Terreiro do Paço
Ali bem defronte do rio
A caminho doutro espaço
Deu a volta no Rossio.
Para cercar com disparos
O Governo de surpresa
O quartel com fiéis raros
Tinha ali a sua defesa.
Porque foi em S. Torcato
Escola Primária pequena
Que desenhou o formato
De tanta força serena.
Vendo o pai ferroviário
Com a lancheira já fria
Quis o país ao contrário
Da guerra veio alegria.
Hoje é só mercadorias
Venda Novas ao Setil
Não se repetem os dias
Na estação que era febril.
Veio um grupo de rapazes
A governar a Nação
São coladores de cartazes
A cobrar a comissão.
Nada sabem do passado
Nem da guerra africana
Cada momento gravado
Cada dia uma semana.
Os votos de dois milhões
São apenas maioria
Porque ganhar eleições
Não chega a democracia.

José do Carmo Francisco 

(Foto de Alfredo Cunha)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque



Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque

Tinha que ser escritor este bandeirante
Nome herói de romance em homenagem
Assim a Rússia já não fica tão distante
Numa vida que é também uma viagem

Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa
Dá lições de poesia em breve seminário
Entre cerveja e amendoim nasce a beleza
Da Poesia que o Mundo vê ao contrário

Somos poucos aqui um grupo acantonado
Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira
Viajamos num bacalhau bem temperado
Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira

No Camões a mulher feia vende cocada
Desesperam por um visto os brasileiros
Que pena a vida não poder ficar parada
Aqui onde os poemas nascem inteiros

José do Carmo Francisco   

(aguarela de Miguel Levy)     

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Viagem de Pedro


A Viagem de Pedro

O meu amor é uma viagem que não termina
Entre Coimbra e Alcobaça, dois mosteiros
É uma história que cabe inteira e pequenina
Dentro duns versos curtos mas verdadeiros   

Adormeci numa das vilas do Alto Alentejo
Olhando toda a lonjura quente da planície
Tão infinita como é a força do meu desejo
Mas sem volume, sem peso nem superfície

O meu amor é uma viagem que não termina
Entre a Pederneira e este porto da Atouguia
Inês traz-me um mapa na sua voz de menina
E nas mãos empurra as sete ondas da alegria

Fixei todo o meu romance entre água e terra
Entretanto o oceano recuou, ficou para trás
O meu barco apodreceu onde hoje é a serra
Mas o meu amor não encontrou ainda a paz

José do Carmo Francisco 

(foto de Luís Milheiro)  

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Trança de Conceição



A Trança de Conceição

Uns dedos a desfazerem a tua trança
Memórias de mãos distantes e antigas
Nas janelas da tua casa de criança
Chega o som de orações e de cantigas

São rezas, são salmos, são ladaínhas
De grupos a subir do vale ao monte
Unidos nas palavras mais sozinhas
E na sede mais ansiosa de uma fonte

Uns dedos a desfazerem a tua trança
São o reflexo da ternura da tua mãe
Para transformar dor em esperança
Sem esperar pela ajuda de ninguém

A tua trança é o relógio e o calendário
Dos dias e dos anos da minha vida
Quem me dera virar tudo ao contrário
A fazer do olhar uma eterna despedida

José do Carmo Francisco   

(óleo de Laine Kainaize)       

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Varanda das Meninas



A varanda das meninas

No beijo que me deste em despedida
Ficou parte do teu tempo concentrado
Uma parte da tua alma e da tua vida
Trouxe ao presente a luz do passado

Quando havia uma varanda de meninas
A olhar para os mascarados no passeio
Depois a atirar centenas de serpentinas
Que ligavam a casa às arvores do meio

Esse mesmo meio onde já só há asfalto
E os fumos dum trânsito feio e doentio
Onde uma sirene me põe em sobressalto
E onde chega o nevoeiro que vem do rio

Este encontro foi breve porque a rotina
Te chamava para as tarefas do dia-a-dia
Foi no beijo que voltaste a ser menina
E a Morais Soares foi a Rua da Alegria

José do Carmo Francisco   

(Óleo é de Marta Shmatava)          

domingo, 2 de setembro de 2012

Balada do Cais das Colunas



Balada do Cais das Colunas

Cais das Colunas, janela
Do Tejo, do Mar da Palha
Registas um barco à vela
Que noite e dia trabalha

Bote, batel ou canoa
Bateira, falua, enviada
Traz o peixe de Lisboa
No preço de quase nada

Varino, muleta, fragata
Cangueiro, proa redonda
Catraio onde a serenata
Não tem voz que responda

E a palha que deu nome
Ao mapa deste estuário
Pode ser sinal de fome
Num lugar ao contrário

Da Chamusca, alagados
Os campos sem animais
Sobe a água nos valados
Há notícias nos jornais

Mistério, o Tejo amplia
Em homens e cacilheiros
E na faina do dia a dia
Os sonhos são verdadeiros

E povoam todo o luar
Da noite do que persiste
As horas de trabalhar
Não dão para ser triste

Inscrevem-se na paisagem
Nos barcos, mercadoria
Ligam uma, outra margem
Na mais teimosa alegria

José do Carmo Francisco

(Foto de Luís Milheiro)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Factura de Conceição


A Factura de Conceição

Quando nasceste caiu todo o peso da Terra
Sobre os ombros já tão cansados da tua mãe
Venceu a vida sobre a morte em pé de guerra
Que tinha levado o teu pai para outro Além

Não pudeste sentir a força dos seus braços
Quando regressava a casa ao fim dos dias
Nem ele sorriu dos teus primeiros passos
Ou emendou as tímidas palavras que dizias

Agora tu devolves à tua mãe essa ternura
De há cinquenta anos mas em duplicado
É quase como quem paga hoje uma factura
Cujo vencimento nunca foi ultrapassado

Uma factura feita das lágrimas e dos sinais
Uma soma de muitos cuidados e de paixões
Corres por ela nos corredores dos Hospitais
Se pudesses eras tu que fazias as transfusões

José do Carmo Francisco           

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


(a Carlos Marques Querido)


Nasci em 1779 em Santa Catarina
Terra de gente muito dada a alcunhas
Minha mãe foi chamada a Abadessa
Gostava de andar de capas pretas
E tinha um porte altivo ao caminhar
Vinha gente de longe para me ouvir
Preguei sermões desde o ano de 1804
Na festa da padroeira Santa Catarina
Na Real Casa Pia de Lisboa em 1828
Na igreja dos Jerónimos ao Domingo
Durante sete anos andei sempre a fugir
Das tropas do general Jorge de Avillez
Que entraram em Bragança em 1834
Expulsaram a guarnição miguelista
E aclamaram de seguida D. Maria II
Avó Isabel Maria e avô Manuel Fialho
Procuraram esconder-me na Cumeira
Um amigo leal pôs quatro almofadas
Nas ferraduras dos cavalos dessa noite
Sem chamar a atenção de quem dormia
Pena eu ter vivido um tempo demarcado
Pedro no Mindelo, Miguel no Alentejo
O ódio enchia os caminhos e as valetas
Eu mesmo me escondi nuns matagais
Onde uma criança me viu desfalecido
Em Almagreira onde morri anos depois
Meu nome ficou em pedra na capela-mór
Destino singular de quem nasceu no dia
Da primeira pedra da Basílica da Estrela
E na vida escreveu palavras como pedras
Por debaixo do meu retrato na sacristia
Um bisneto do sacristão do Padre Agnelo
Lava galhetas na água da torneira prateada
Anos depois assinará um poema obscuro
A ligar de novo o que a morte separou.

José do Carmo Francisco