domingo, 12 de dezembro de 2021

Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel


Brado e clamor nº 21 para Ana Isabel

Gonçalo Pereira Rosa escreve na N.G.M. que «metade dos enterros realizados em 1839 na cidade de Londres era de pequenas criaturas com menos de dez anos» e dá razão a uma ideia antiga pois «nenhuma filosofia resgata as lágrimas de uma criança».

Claro que Charles Dickens escreveu (era quase inevitável) uma mistura notável de ficção e reportagem no seu «Conto de Natal» tal como cinco anos antes já o tinha feito no seu livro «Oliver Twist».     

O segredo está em saber que os companheiros de Charles Chaplin na carroça de saltimbancos em 1910 eram do mesmo bairro pobre no qual o pai de Charles Dickens foi frequentador da prisão de devedores em Londonbridge, junto ao  Tamisa.

José do Carmo Francisco


domingo, 28 de novembro de 2021

Novo poema nº 5 para Ana Isabel


Novo poema nº 5 para Ana Isabel

«Não nos tratamos por V. Exas., não há nada disso. É uma conversa entre rapazes.» - numa carta de Maio de 1906 José Alvalade referia-se assim ao ambiente nos fundadores do Sporting Clube de Portugal.   

Tinha havido uma tentativa no ano de 1902 em Belas, outra em 1904 no Campo Grande mas só em 1906 se organizou o Sporting Clube de Portugal sob o símbolo do leão rampante do Conde de Pombeiro.

Porque é no livro de Luís Costa Dias e Paulo Barata que se explica em pormenor esse tempo dos pioneiros quando ser sócio do Clube implicava uma conduta irrepreensível e ser de boa sociedade, afinal os padrões da época.

 José do Carmo Francisco     

(Postal do Sporting CP)

 

domingo, 7 de novembro de 2021

Novo poema nº 4 para Ana Isabel


Novo poema nº 4 para Ana Isabel

Para Vergílio Ferreira «A música é sempre anterior a si, não existe no momento em que a ouvimos»; eu, modesto escriba, em Iniciais escrevi poemas para diversos compositores e intérpretes.

Um Domingo de manhã, a Filarmónica Catarinense parou à porta da casa: minha mãe fez o bolo de iogurte, minha filha Ana tinha um prato com fatias, meu pai veio encher copos de vinho para os músicos.

Porque as lágrimas não cabiam no estojo do clarinete do primo, num Domingo pouco posterior, morreu de AVC três dias depois, frente à televisão num particular Portugal-Espanha em futebol.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Novo poema nº 3 para Ana Isabel


Novo poema nº 3 para Ana Isabel

«Os livros são como o Teatro, é sempre como se fosse a primeira vez» disse Luís Miguel Cintra, encenador e actor com muitos anos de palco.

Na verdade, desde a escolha dos poemas à criação de um ficheiro no Word, o nervoso miudinho cresce e torna-se igual ao do livro anterior. E este ao anterior deste.

Porque aqui a idade não é um posto e, por mais anos que passem, a confusão permanece e a serenidade não se instala no quotidiano do autor.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Novo poema nº 2 para Ana Isabel


Novo poema nº 2 para Ana Isabel

«A Pátria só de alguns» lê-se no poema «O rio a vida» de Liberto Cruz dedicado a António Valdemar mas sendo um simples verso há nele o peso da farda e do posto, da arma e da guerra, do exílio e da morte.

Não os mesmos mas outros mais novos continuam hoje a querer uma Pátria à sua medida; rural, distante, sem voz porque calada pela força dos ditos legítimos superiores.

Porque na verdade este conflito hoje só muda de cenário e de palco mas no essencial permanece e continua como no passado.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme)


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Novo poema nº 1 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 1 para Ana Isabel

«A Poesia não pactua com a mentira» - terá dito Stephen Spender a um jovem poeta de Goa, num ansioso e desejado encontro entre mestre e aprendiz.

Ao juntar a esta frase a informação de que foi sobre a sua poesia que Fernando Assis Pacheco elaborou uma tese de licenciatura em Coimbra, fica tudo mais claro.

Porque o Mundo é pequeno e só o Acaso é grande. Mas nada acontece por acaso.  

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Breve poema nº 47 para Ana Isabel

 


Breve poema nº 47 para Ana Isabel

«O meu trabalho é brincar» respondeu o meu neto António à vizinha que, na escada do prédio, queria saber dos seus trabalhos de casa; a resposta tem a ver com os seus cinco anos.

Brincar com os pneus do Jardim Infantil, brincar com os animais da selva, seja em livro ou em três dimensões, brincar com as peças do LEGO, brincar, brincar sempre – é este o seu programa.

Afinal para o António o importante é Ser; o Mundo que o rodeia vai, mais tarde ou mais cedo, ao longo da vida, indicar-lhe a importância de Ter.

José do Carmo Francisco

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Breve poema nº 46 para Ana Isabel

 


Breve poema nº 46 para Ana Isabel

 Alguns dos algarismos do meu neto Pedro são perfeitos mas outros são mais que perfeitos; rigorosos, acabados e exactos. Quase parecem saídos do caixotim duma tipografia.

Um dia dei-lhe uma folha A5 e pedi-lhe o registo imediato da sua caligráfica obra de arte. Em 1966 a Caligrafia era uma disciplina do velho Curso Geral do Comércio; não foi assim há tanto tempo.   

Afinal no sangue pisado da vida, ninguém sabe se nas Artes ou nas Letras, vai haver para ele um futuro caminho para o seu actual talento no desenho dos algarismos.

José do Carmo Francisco          

 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Breve poema nº 45 para Ana Isabel

 


Breve poema nº 45 para Ana Isabel

Meu neto Lucas passa todos os dias à porta da casa onde viveu Charles Gounod, ali a meio caminho entre Blackheath Park e o Paragon, com os patos, os ventos e os papagaios de papel.

Quando no telefone o ouço ao piano na perseguição do tom mais perfeito para uma próxima apresentação pública, percebo melhor como toda a obra de arte (até a arte pobre das palavras) precisa do seu tempo de oficina. 

Afinal os aplausos na Sala do Conservatório atingem um valor elevado pois são o preço do trabalho obscuro e continuado que foi preciso fazer para os alcançar.

José do Carmo Francisco