terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Memória justificativa do livro «The Busby Years»


Memória justificativa do livro «The Busby Years»
 
(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)
 
A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique
 
Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo treze e no minuto treze a morrer
Em Coimbra, Nené perdido num desastre
Quando o mini não desfez a curva grande
Em Lisboa Toni Kakinda a forte esperança
Da equipa de Caneira e de Simão Sabrosa
Antes Pepe em Belém de vinte e três anos
Com a mãe a trocar bicarbonato por potassa
 
Nunca se fala nos jornalistas também mortos
Os enviados especiais a esse lugar de morte
De onde já não é possível escrever notícias
Morreram todos assim no seu fato completo
Caneta de tinta permanente e bloco de notas
Cachimbo e todos eles de chapéu à Borsalino
Mas tirando as suas famílias e alguns colegas 
Pouca gente recordará hoje os seus nomes
 
Comprei o livro numa livraria em frente
Ao portão do Observatório Astronómico
A separar os dois lugares há um relvado
Uma metáfora imediata de todos os altares
Na liturgia dum jogo afinal mais que jogo
A memória activa, o espaço de sentimento
Lugar verde onde ficaram todos os sonhos
Adormecidos devagar pela diária rotina
 
A vida é na verdade a preto e branco
Por isso estas fotografias são verdade
A cor é apenas a mentira consentida
Só há estas duas cores nas lágrimas
O mesmo para o medo, para a morte
Escusamos de procurar o colorido
A vida é na verdade a preto e branco
E ficou nos velhos álbuns de família
 
Passam por mim japoneses de uniforme
Jovens alunos em passeio de finalistas
Não pensam na morte sequer Hiroshima
Não reparam no livro que levo na mão 
Querem apenas viver e têm a sua pressa
A morte será também um fuso horário
 
José do Carmo Francisco  
        
    (Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Sobre um tema de Vitorino Nemésio

 


Sobre um tema de Vitorino Nemésio
 
                                                                                    Viver nas ilhas pequenas
                                                                         É comprar paz com desconto      
(Vitorino Nemésio)
 
Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias
 
O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores
 
O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico
 
No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs
 
Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto
 
José do Carmo Francisco  

(Óleo de Henry Moret)

sábado, 16 de janeiro de 2021

Não me venham com cantigas (para J.H. Santos Barros 1946-1983)

 


Não me venham com cantigas (para J.H. Santos Barros 1946-1983)
 
Claro que fazer versos dói, não duvido, mas o pior é doer em mim
o que fizeram aos teus versos, soltando os cães que os dizimaram
fingindo esquecer que a melhor homenagem possível é a de respeitar
os teus poemas dos anos 60, 70 e 80. Mas não, mas não.
Como se não bastasse a tragédia de 83, o país de sacanas e de analfabetos
celebrou em trágico os teus 75 anos no passado dia um de Janeiro.
Havia o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que trabalha na TV,
temos um livro povoado de erros crassos e de gralhas que também são erros.
Ao contrário de ti não digo «venham-me com cantigas» mas sim
«não me venham com cantigas» também porque já não tenho idade.
Porque um dia terei de explicar à tua neta que vive nos Estados Unidos da América
esta trapalhada bem portuguesa. Porque ela usa o nome da família da Ivone em Grândola
um nome que define una medida para servir a aguardente nas tabernas.
E eu não sou capaz. Vai para além do meu entendimento.    
 
José do Carmo Francisco  

(Desenho de Cruzeiro Seixas)


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Balada da sardinheira da Abadia

 


Balada da sardinheira da Abadia
 
Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta  bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.
 
José do Carmo Francisco   

(Desenho de Manuel Ribeiro Pavia)
  
    

domingo, 20 de dezembro de 2020

Poema autógrafo para Ana Santos Barros

 



Poema autógrafo para Ana Santos Barros
 
Partimos sempre de fotografias
Mesmo que não haja películas
Ou os negativos para revelar.
Às vezes é uma memória feliz
Encontro no balcão dum Banco
Almoço no refeitório das Caixas.
Neste caso seria Jardim da Estrela
Tudo nos quatro a preto e banco
E uma das meninas está de vestido.
Terá sido em 1983 e está tudo igual
No Jardim, nas ruas e nas sombras
Que envolvem as legendas do filme.
Será isso afinal: somos só memória
Porque o nosso passado não passou
E está à porta do Jardim da Estrela.
 
José do Carmo Francisco 
 
(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 22 de novembro de 2020

Meditação breve para Agadir


 

Meditação breve para Agadir
 
Treme a terra em Agadir
O passado está presente
Ninguém ali podia fugir
Foi tudo tão de repente.
 
E na montra da livraria
Livro a preço inesperado
Quem diria, quem diria
Que era este o resultado.
 
José do Carmo Francisco
 

(Óleo de Harold Knight)


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque


Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque
 
Tinha que ser escritor este bandeirante
Nome herói de romance em homenagem
Assim a Rússia já não fica tão distante
Numa vida que é também uma viagem
 
Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa
Dá lições de poesia em breve seminário
Entre cerveja e amendoim nasce a beleza
Da Poesia que o Mundo vê ao contrário
 
Somos poucos aqui um grupo acantonado
Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira
Viajamos num bacalhau bem temperado
Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira
 
No Camões a mulher feia vende cocada
Desesperam por um visto os brasileiros
Que pena a vida não poder ficar parada
Aqui onde os poemas nascem inteiros
 
José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)      


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Balada da Rua de Baixo

 



Balada da Rua de Baixo
 
Rua de Baixo, meu mundo
Onde eu regresso cansado
Quando o olhar é profundo
Já andou por todo o lado
 
São casas sem ninguém
De famílias desligadas
Não se ouve a voz da mãe
Na névoa das madrugadas
 
Meu berço e minha escola
Minha casa e minha igreja
O amor não pede esmola
Nas esquinas da inveja
 
Minha paisagem saudosa
Povoada por destroços
Duma sede mais gasosa
Que a água destes poços
 
Filarmónica formada
Manhã cheia de brancura
Há festa não tarda nada
Na rua desta amargura
 
Sete ondas repetidas
São sete beijos do mar
Na areia das nossas vidas
Já só podemos cantar
 
Pode-se cantar um fado
Feito só de melodia
Um homem fica calado
Ao ver a fotografia
 
Minha rua inicial
A vida, anos primeiros
Onde passou triunfal
A paixão dos baleeiros
 
José do Carmo Francisco

(Óleo de  Frederic Bazille)
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Namorar uma cor: verde


Namorar uma cor: verde

Namorar uma cor…

São muito antigas as minhas ligações ao verde. A paixão dessa cor desde sempre escolhida como símbolo, como referência, como preferência, como fixação. Tal como na liturgia da Igreja, o verde é o sinal da renovação, da Primavera, da vida que se multiplica.

Namorar uma cor…

Como se namora uma pessoa, se marcam encontros, se sai à noite, se é e se faz tudo para se ser fiel.

Namorar uma cor…

Desde 1966 que, em Lisboa, mantenho, este namoro. Marco encontros de quinze em quinze dias no relvado do Estádio José Alvalade. Saio à noite nos jogos das competições europeias. Procuro ser fiel ao verde sem hesitações nem desânimos. Festejo as vitórias com muita alegria mas faço das derrotas uma reserva moral para partir ao encontro de novas vitórias. Apenas isso. Nem um sonho. Nem um drama.

Namorar uma cor…

Hoje como ontem gosto de ver o relvado sem ninguém. De vez em quando, sempre no fim da tarde, olho-o no grande silêncio. Vejo nele a sementeira das grandes emoções, dos grandes encontros, dos resultados felizes.

Hoje como ontem o verde é a direcção da Primavera, a presença da Esperança, o sentido da Vida a renascer. Sempre. Para sempre.

(Nota final – Este texto integra o livro «Futebol – iluminuras e textos consagrados» de Julho de 2004 (Editora Sete Caminhos) e foi recuperado em 7 de Outubro de 2020)        

[Crónicas do Tejo 261]

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Autor Desconhecido)


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Balada para Ruslam Botiev


Balada para Ruslam Botiev
 
Sempre que estava frio
Meio da correspondência
Tinha que ir ao Val do Rio
O patrão tinha paciência.
Pode ser o Ricardo Reis
Ou então Alberto Caeiro
Três que podem ser seis
Álvaro de Campos inteiro.
Além do próprio Pessoa
Entre mortos e feridos
Tem no mapa de Lisboa
Os sonhos interrompidos.
Todo o som que ele ouvia
No lugar do nascimento
São as sílabas da alegria
No poema do momento.
Poderia ser uma canção
Ou então uma filosofia
E continua a ter razão
Na porta da Tabacaria.
Uma Mensagem escrita
Para o Prémio Literário
E afinal está de visita
O Mundo é ao contrário.
Guardador de Rebanhos
Também fica no retrato
Há caminhos estranhos
Onde não cabe o contrato.
Este gato fica de fora
Do campo do retratista
Mas miou por uma hora
Para que ninguém resista.
No calendário de parede
Com três, número divino
Abel Pereira mata a sede
De quem decifra o destino.
 
José do Carmo Francisco
 
(Desenho de Ruslam Botiev)