quarta-feira, 22 de março de 2023

Novo poema nº 30 para Ana Isabel


Novo poema nº 30 para Ana Isabel

O Itália-Inglaterra em Wembley foi um jogo de sombras. Era 1982 contra 1966 mas os jogadores italianos hoje foram todos Dino Zoff a defender e Paolo Rossi a atacar.

Quando Chiesa sai do campo lesionado num lance violento sem falta assinalada nem cartão amarelo mostrado, a memória recua para 1982; os jogos de Vigo com três empates seguidos entre dúvidas, neblinas e angústias.

Porque no fim venceu o futebol e a única moeda válida foi a usada na escolha da baliza para o desempate pelos pontapés da marca de grande penalidade.     

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)  

       

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Novo poema nº 29 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 29 para Ana Isabel

Atuhalpa Yupanki teve o nome civil de Hector Roberto Chavero e tocava viola com a mão esquerda porque numa das muitas prisões que sofreu os carcereiros lhe partiram os dedos da mão direita.

Mas essa palavra milonga também pode designar feitiçaria, sortilégio e bruxedo para além de mexericos, intrigas, enredos e, por fim, medicamentos.

Porque em São Tomé o nome indica um remédio do qual não resultam melhoras, talvez haja aí um fundo de verdade; a milonga não resolve nada mas ajuda a ver tudo de outra maneira.  

 José do Carmo Francisco

(Óleo de Eduardo Viana)

      

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Novo poema nº 28 para Ana Isabel


Novo poema nº 28 para Ana Isabel

Tempo de nem livros nem chocolates, nem horizontes vários nem sabores reconhecidos por quem se demora no cadeirão à procura dum impulso para escrever.

Uma biografia pessoal de setenta anos, ao mesmo tempo íntima e pública, está sempre pronta a ser dita em voz alta que é outra das muitas maneiras de escrever.

Porque nesta oficina da escrita as ferramentas estão alinhadas junto à janela e as palavras posteriores esperam o poema em silêncio no torno da obscura arte final.

José do Carmo Francisco  

(Óleo de Carl Larsson)


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Novo poema nº 27 para Ana Isabel


Novo poema nº 27 para Ana Isabel

O consultório é como uma nave espacial, o médico neurologista é também o astronauta viajante com seus sapatos pretos de vento e sua bata branca de luz.

Há uma brisa do mar entre os automóveis do parque e e a sala de espera, como uma  pequena capela de devoção privada onde o altar tem ao centro um livro de 1817 do doutor Parkinson sobre esta patologia.

Porque é antiga a procura de uma cartografia entre a causa e o efeito, entre a dúvida e a certeza, entre o sintoma e a terapêutica.  

José do Carmo Francisco

(Óleo de Henri Matisse)


sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Novo poema nº 26 para Ana Isabel

Novo poema nº 26 para Ana Isabel

Falta hoje saber a data certa da morte civil do pássaro azul que era o nome dado ao guarda-redes voador José Pereira, de Os Belenenses, nascido em Torres Vedras em Setembro de 1931.

Passados cinquenta e cinco anos recordo este homem, ele fez parte do sonho dos Magriços mas não sabia que tudo estava preparado para a passadeira triunfal à equipa inglesa.

Porque aquela arbitragem além de influente foi decisiva no jogo da final em 1966; o começo do seu do anonimato data de 1967 na ida do Restelo para Aveiro e agora, no Cemitério da Ajuda, só falta mesmo a data.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Novo poema nº 25 para Ana Isabel



Novo poema nº 25 para Ana Isabel

Stanley Rous morreu mas a maldição continua. Como em 1966 quando o árbitro suíço e o assistente soviético escreveram torto por linhas direitas. Era o jogo da final do Campeonato do Mundo com a Alemanha Ocidental.

Hoje 7-7-21 dois jogadores com nomes especiais (Sterling e Kane) mostraram como se pode ser especialista em saltos para a relva; o prémio sai sempre como na antiga Feira Popular. Neste caso pode ser o Campeonato da Europa.

Porque parece absoluto mas é tudo relativo como darem o nome de Campeonato a um torneio no qual só a primeira fase o é; todo o resto da prova é formato de Taça.

José do Carmo Francisco      


terça-feira, 22 de novembro de 2022

Novo poema nº 24 para Ana Isabel


Novo poema nº 24 para Ana Isabel

«Tu não estejas sempre a criticar os meus irmãos. Quando tu entraste na minha vida já eles cá estavam e quando dela saíres eles vão continuar.»

Mais palavra menos palavra foi esta a solene advertência a demarcar o terreno interdito daquele que é o permitido.

Porque o homem já sabia que era um verbo-de-encher; o problema foi o modo explícito, cruel e firme como tudo aquilo foi formulado

 José do Carmo Francisco

(Óleo de Paul Lantz)      


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Novo poema nº 23 para Ana Isabel

 

Novo poema nº 23 para Ana Isabel

Na página 150 de Os Pescadores de Raul Brandão há nomes de barcos na Nazaré: Formosa Ana, Luz do Sol, Senhora da Memória, Mar da Vida. Na página seguinte surgem os pescadores Joaquim Chita, Carlos Petinga, Cara Má, Miguel Panelão e Esgaio entre outros. 

É possível que esse pescador Esgaio seja o bisavô do jovem jogador Esgaio que acabou de assinar contrato com o Sporting Clube de Portugal por vários anos.

Porque o que mais lembro desse jovem futebolista são as canadianas por si usadas em 2006 quando recebeu uma medalha num Torneio de Futebol Juvenil em Frielas.

José do Carmo Francisco   

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Novo poema nº 22 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 22 para Ana Isabel

Autor de onze livros, Telmo Ferraz (1925), sacerdote desde 1951, é referenciado sempre pelo seu livro de estreia O lodo e as estrelas, um belo conjunto de crónicas com três edições: 1960, 1975 e 1985.

Capelão da Barragem de Picote nos anos cinquenta, continuou depois o seu magistério pastoral e humanitário em Cambambe (Angola) onde fundou a Casa do Gaiato de Benguela em 1963.

Porque nas estrelas todos temos direito ao nosso Planetário privativo embora a única certeza no lodo seja a de não ter a certeza sobre se as estrelas que vemos hoje ainda existem de facto. 

José do Carmo Francisco  

(Óleo de René Magritte)


domingo, 25 de setembro de 2022

Novo poema nº 21 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 21 para Ana Isabel

Lá pelos idos de 1995, no fim de uma tarde quente de pré-época, fiz para o Jornal Sporting a crónica de um jogo amigável (no Brasil dizem amistoso) entre as equipas «A» dos leões e da Juventus de Itália.

No Estádio José Alvalade vi o jogo ao lado de Gianluca Vialli e de Fabrizio Ravanelli. Não recordo o resultado mas não esqueço a resposta de Vialli quando Sousa Cintra lhe sugeriu um whisky com pedras de gelo: «Obrigado! Água, apenas água!».

Porque as bebidas fermentadas, por mais aceitação que tenham na gramática da vida social, não são as mais indicadas para os, como era o caso, desportistas de alta competição.  

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)