quinta-feira, 21 de julho de 2022

Novo poema nº 18 para Ana Isabel


Novo poema nº 18 para Ana Isabel

Na novela O Tubarão de Vitorino Nemésio há uma personagem que nunca tinha ouvido empregar o verbo desmanchar senão na costura ou em tricot. 

Em resposta à sua pergunta «Tem muitos filhos?» a rapariga que lhe deu água de um cântaro respondeu: «Tenho três, fora o que foi para o Céu e dois desmanchos».

Porque cada palavra tem o seu peso ou densidade e na linguagem usada tem tudo a ver com o lugar de cada um na Sociedade; na verdade só os filólogos estudam o chamado desvio semântico.    

José do Carmo Francisco     

(Fotografia de autor desconhecido)


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Novo poema nº 17 para Ana Isabel


Novo poema nº 17 para Ana Isabel

Às vezes o poema está nas costas de um sobrescrito usado, outras num qualquer resto de fotocópia que uma tesoura cortou; é sempre um espaço em branco e um desafio.

Chamam-lhe arte pobre porque vive do lápis barato ou da esferográfica oferecida por uma Câmara Municipal, nasce sem precisar de luxo público nem de distinção particular.

Porque é da grande escassez de meios que a voz do Homem ganha força e se eleva para cantar ou para reflectir sobre tudo aquilo que não se pode dizer de outra maneira.     

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)   

 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Novo poema nº 16 para Ana Isabel


Novo poema nº 16 para Ana Isabel

Na grande Feira da Rio Maior em 1955 ouvi uma mulher cega cantar assim: «foi numa aldeia alentejana mas que horror/que uma mãe matou três filhos duma vez.

Desgraças, crimes e misérias sempre houve e haverá no Mundo; está tudo explicado na Bíblia e nas Obras Completas de William Shakespeare.

Porque a única resposta à Morte é a Vida, o mesmo é dizer - a juventude de uma mulher feita bandeira de um amor pleno, forte e infinito.

José do Carmo Francisco


sexta-feira, 27 de maio de 2022

Novo poema nº 15 para Ana Isabel


Novo poema nº 15 para Ana Isabel

Ela era uma menina de nove anos em 1983, no Jardim da Estrela a brincar com a irmã depois levar flores ao jazigo do poeta Fernando Pessoa, ele mesmo.

Hoje pediu-me amizade no Facebook e eu disse logo que sim porque sinto nela a proximidade dos pais, da irmã e da filha apesar do sofrimento, da morte e da distância.

Porque mesmo quando me dizem o pior das redes sociais ainda me deixo comover por estas coisas da tecnologia e dos recursos humanos que são quase infinitos.  

José do Carmo Francisco 

 (Fotografia de Luís Eme)


domingo, 15 de maio de 2022

Novo poema nº 14 para Ana Isabel


Novo poema nº 14 para Ana Isabel

Com a escrita de Zetho Cunha Gonçalves há um olhar diferente sobre a Poesia e o Mundo; no livro Transversões temos dois caminhos e duas fórmulas – a canção e a reflexão.

De poeta para poeta, de poema para poema, cada voz traz em si o timbre, a respiração e a temperatura dum certo tempo determinado que desagua no poema. 

Porque se trata na verdade de uma antologia pessoal, na escolha e na versão, o seu valor relativo aumenta e não se discute aqui e agora mais um livro de poemas.

José do Carmo Francisco


sexta-feira, 29 de abril de 2022

Novo poema nº 13 para Ana Isabel


Novo poema nº 13 para Ana Isabel

Nova Gente de 24-6-21 não tem razão: o jogo Casa Pia-Sporting em Pina Manique foi em 17-10-99 (não em Setembro), o CR7 não foi o capitão de equipa (era o Carlos Marques), o Campeonato era de Iniciados (não de Juvenis).

Nessa manhã foi decisivo o árbitro António Cardoso, o enfermeiro Fontinha, o treinador Palhares e o Delegado Atanásio. Na transferência do Nacional para o Sporting foi importante o Dr. Marques de Freitas, o Dr. Simões de Almeida, Aurélio Pereira, Leonel Pontes e Isabel Trigo de Mira.

Porque não podemos esquecer Luís Dias, Paulo Cardoso, Osvaldo Silva, Paulo Leitão, Luís Gonçalves, Luís Martins e João Couto, salvo erro ou omissão; e «pelos frutos se conhece a árvore».    

José do Carmo Francisco


quarta-feira, 20 de abril de 2022

Poema afastado nº 57 para Ana Isabel


Poema afastado nº 57 para Ana Isabel

Nos meus tempos de Ciclo Preparatório lá pelos idos de 1962 em Vila Franca de Xira tive um colega de turma a quem os mais próximos chamavam «talita», palavra que só hoje (2022) descobri ser de origem aramaica e significar «rapariga»,

Hoje não me é possível destrinçar o que ao tempo haveria de irónico no uso dessa palavra; sei apenas que no Brasil está muito vulgarizado o seu uso e há muitos milhares de meninas com esse nome.

Tudo conforme o livro «Jesus de Nazaré» de José da Felicidade Alves que na sua página 19 recorda o Evangelho de São Marcos e as palavras aramaicas no milagre da filha de Jairo: «talitha kum» – que é rapariga levanta-te!

José do Carmo Francisco


quinta-feira, 31 de março de 2022

Novo poema nº 12 para Ana Isabel


Novo poema nº 12 para Ana Isabel

A mulher pobre chorou depois de pedir duzentos euros a um padre para pagar a factura da electricidade; ele vinha da agência bancária onde levantou dois mil euros.

Com tantos problemas humanos no percurso entre o balcão do Banco e a Casa do Gaiato, ele já só tinha um pequeno saldo e foi todo.

Porque é ela diabética e a insulina precisa de frigorífico; se a mulher pobre não pagar esta conta atrasada a Companhia corta a ligação à rede.    

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)   

         

domingo, 13 de março de 2022

Novo poema nº 11 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 11 para Ana Isabel

Na carta de 1926 para Simão Neves o Padre Américo, fundador das Casas do Gaiato, agradece as revistas National  Goegraphic Magazine e afirma: «Eu tenho muita pena dos homens que se embriagam».

Mais tarde em 1940 ajuda uma mulher pobre e desabafa em Coimbra: «Homens que por nada espancam as suas mulheres, choram com pena doutras!».

Porque eram carroceiros, andavam ao fanico mas tinham um fundo de bondade e devolveram ao Padre Américo o dinheiro do bilhete da mulher que ia para Lisboa e teve uma boleia.   

José do Carmo Francisco

(Fotografia de J.C. Alvarez)


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Novo poema nº 10 para Ana Isabel

 


Novo poema nº 10 para Ana Isabel

Em Janeiro de 1960 foi a fuga de Peniche; um GNR veio de bicicleta chamar o meu pai para conduzir a camioneta do Palácio da Justiça com um grupo de guardas prisionais, polícias e guardas republicanos.

Iam todos do Montijo para Pegões tentar deter no cruzamento os por eles chamados malandros que tinham fugido do Forte de Peniche pelo lado do oceano com os lençóis a servirem de cordas.  

Meu pai nunca acreditou que os presos de Peniche fossem aparecer em Pegões mas como ele disse baixinho «El-rei manda avançar, não manda chover.»

José do Carmo Francisco 

(Desenho de Cruzeiro Seixas)