quarta-feira, 14 de abril de 2021

A sombra de Deus


A sombra de Deus

Um dia, aí por 1983, na principal rua de Algés, um senhor desconhecido e vindo não se sabe de onde, segurou, súbito e enérgico, o meu filho Filipe pelo seu pequeno kispo azul e, assim, o salvou de morrer esmagado por um Mercedes Benz. Eu estava do outro lado da rua, a mãe e as tias estavam distraídas e atravessar a rua mais movimentada de Algés não era para ele um problema. Mas podia ter sido se esse misterioso senhor não tivesse sido rápido e eficaz. Ainda hoje penso no que lhe gostaria de dizer. Por isso lhe chamo hoje ainda, quase trinta anos depois, a sombra de Deus.

Outro dia, muito mais tarde, no ano de 1992 uma médica cujo nome não fixei, percebeu em segundos a gravidade da doença da minha filha Marta. Durante quatro dias alguém do Hospital mandou-a sempre para casa em vez de chamarem um cirurgião para decidir se ela tinha ou não de ser operada. Invadida pela septicémia, o corpo da minha filha lembrava uma criança do Biafra. Pele e osso, olheiras fundas e negras. Ainda hoje julgo ver a sombra de Deus nos longos corredores da Pediatria do Hospital. Talvez seja também e, ao mesmo tempo, a sombra do médico que largou tudo, atirou a bata para o chão e correu (comigo sempre atrás) vários quilómetros no labirinto do grande «H» do Hospital de Santa Maria.

Mais tarde em Abril de 1995 julguei ver de novo a sombra de Deus numa cama articulada de um Lar de Idosos onde a minha mãe sofria entre tubos, lágrimas e vitaminas. Essa mesma sombra, a sombra que eu não conseguira alcançar nem em Algés nem no Hospital de Santa Maria para lhe agradecer a dádiva de uma recusa à morte feita de modo ostensivo no prolongamento da vida. Talvez fosse essa sombra de Deus e a Sua vontade que escolheu a Sexta Feira Santa para levar o corpo da minha mãe já cansada de tanta doença para repousar na sua sombra mais viva que, afinal, todas as nossas luzes.

Nunca lhe toquei, na sombra de Deus. Mas sei, tenho a certeza, que ela já passou três vezes perto de mim. Mas sei, tenho a certeza, que essa sombra recusou aceitar a fotografia da final de uma corrida perdida contra a morte em 1983 e 1992. Não em 1995 pois a minha mãe já tinha morrido muito antes quando descobriu, mesmo sem ler o poema de Hélder Macedo que afinal «os filhos da morta já não eram irmãos».            

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Valter Vinagre)


quarta-feira, 31 de março de 2021

75 (Fernando Venâncio)

 


75 (Fernando Venâncio)

Passava pela Rua Pedro Dias a caminho do Hospital de Jesus, dez anos de viagens pedestres também para o Instituto Britânico antes do quisto dermóide, gigantesco e teimoso. Anos depois, nova operação. Hoje a mesma geografia; só mudou a abordagem das palavras porque o selvagem continua ao piano.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)


sábado, 20 de março de 2021

1923 (As ruas de Buenos Aires)



1923 (As ruas de Buenos Aires)

Quando em 1923 Jorge Luís Borges viu publicado o «Fervor de Buenos Aires», resolveu aproveitar os colóquios e as palestras do British Council para colocar exemplares do seu livro nos bolsos das gabardinas e dos sobretudos do público presente na sala. Havia leitores garantidos porque não se registavam devoluções. Hoje continua quase tudo como em 1923; as alterações são apenas de pormenor.

José do Carmo Francisco

 

domingo, 7 de março de 2021

2006 (O esquilo no jardim)

 


2006 (O esquilo no jardim)
 
Meu neto Pedro elabora
Uma banda desenhada
Em menos de meia hora
E ninguém deu por nada.
Numa cidade escocesa
Em particular excursão
O esquilo foi a surpresa
Que armou a confusão.
Foi um esquilo de jardim
Que queria travar o passo
De quem assado ou assim
Era intruso no seu espaço.
Com respeito ao animal
Assustou, foi assustado
Tudo tem uma moral 
Vai comigo a todo o lado.
 
José do Carmo Francisco
 
(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

327819 (O telefone de Alexandre O´Neill)

 


327819 (O telefone de Alexandre O´Neill)

O meu caderno azul continua igual a 1978, cansei-me de riscar os nomes dos mortos; na Literatura não funcionam os parâmetros do Registo Civil. Sei que o número mudou muito: de 327819 passou a 3427819 e de 3427819 passou a 213427819 mas quando quero mesmo ouvir Alexandre O´Neill abro um dos seus livros e percebo que o Mundo pouco mudou desde 1978.  

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Alexandre Delgado)


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Sobre um tema de Emanuel Félix

 


Sobre um tema de Emanuel Félix

(poema - autógrafo para Manuel Emílio Porto)
 
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
 
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia
 
O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema
 
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
 
José do Carmo Francisco  
 
(Óleo de Charles Simpson)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Memória justificativa do livro «The Busby Years»


Memória justificativa do livro «The Busby Years»
 
(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)
 
A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique
 
Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo treze e no minuto treze a morrer
Em Coimbra, Nené perdido num desastre
Quando o mini não desfez a curva grande
Em Lisboa Toni Kakinda a forte esperança
Da equipa de Caneira e de Simão Sabrosa
Antes Pepe em Belém de vinte e três anos
Com a mãe a trocar bicarbonato por potassa
 
Nunca se fala nos jornalistas também mortos
Os enviados especiais a esse lugar de morte
De onde já não é possível escrever notícias
Morreram todos assim no seu fato completo
Caneta de tinta permanente e bloco de notas
Cachimbo e todos eles de chapéu à Borsalino
Mas tirando as suas famílias e alguns colegas 
Pouca gente recordará hoje os seus nomes
 
Comprei o livro numa livraria em frente
Ao portão do Observatório Astronómico
A separar os dois lugares há um relvado
Uma metáfora imediata de todos os altares
Na liturgia dum jogo afinal mais que jogo
A memória activa, o espaço de sentimento
Lugar verde onde ficaram todos os sonhos
Adormecidos devagar pela diária rotina
 
A vida é na verdade a preto e branco
Por isso estas fotografias são verdade
A cor é apenas a mentira consentida
Só há estas duas cores nas lágrimas
O mesmo para o medo, para a morte
Escusamos de procurar o colorido
A vida é na verdade a preto e branco
E ficou nos velhos álbuns de família
 
Passam por mim japoneses de uniforme
Jovens alunos em passeio de finalistas
Não pensam na morte sequer Hiroshima
Não reparam no livro que levo na mão 
Querem apenas viver e têm a sua pressa
A morte será também um fuso horário
 
José do Carmo Francisco  
        
    (Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Sobre um tema de Vitorino Nemésio

 


Sobre um tema de Vitorino Nemésio
 
                                                                                    Viver nas ilhas pequenas
                                                                         É comprar paz com desconto      
(Vitorino Nemésio)
 
Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias
 
O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores
 
O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico
 
No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs
 
Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto
 
José do Carmo Francisco  

(Óleo de Henry Moret)

sábado, 16 de janeiro de 2021

Não me venham com cantigas (para J.H. Santos Barros 1946-1983)

 


Não me venham com cantigas (para J.H. Santos Barros 1946-1983)
 
Claro que fazer versos dói, não duvido, mas o pior é doer em mim
o que fizeram aos teus versos, soltando os cães que os dizimaram
fingindo esquecer que a melhor homenagem possível é a de respeitar
os teus poemas dos anos 60, 70 e 80. Mas não, mas não.
Como se não bastasse a tragédia de 83, o país de sacanas e de analfabetos
celebrou em trágico os teus 75 anos no passado dia um de Janeiro.
Havia o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que trabalha na TV,
temos um livro povoado de erros crassos e de gralhas que também são erros.
Ao contrário de ti não digo «venham-me com cantigas» mas sim
«não me venham com cantigas» também porque já não tenho idade.
Porque um dia terei de explicar à tua neta que vive nos Estados Unidos da América
esta trapalhada bem portuguesa. Porque ela usa o nome da família da Ivone em Grândola
um nome que define una medida para servir a aguardente nas tabernas.
E eu não sou capaz. Vai para além do meu entendimento.    
 
José do Carmo Francisco  

(Desenho de Cruzeiro Seixas)


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Balada da sardinheira da Abadia

 


Balada da sardinheira da Abadia
 
Manuel Ribeiro de Pavia
Do Alentejo profundo
Faz da Vieira de Leiria
O desenho do seu mundo.
Almocreves nas galeras
Com a pressa de chegar
Sem paragens ou esperas
Voltam as costas ao mar.
A mais bela sardinheira
Canastra não cabe mais
Saiu da Praia da Vieira
Para os distantes casais.
Há quem não tenha dinheiro
Paga-se em quartas de milho
Este dia vive-se inteiro
E assim se cria um filho.
Casas de roupa estendida
Seja dúzia ou quarteirão
A sardinha traz nova vida
A quem a come no pão.
Mesmo no rol dos fiados
Tem cada dia a surpresa
Sabe escolher dos dois lados
Toucinho ou peixe na mesa.
Fritas, cozidas ou assadas
As sardinhas estão no pão
Com sopa de misturadas
A mais feliz refeição.
Esta  bela sardinheira
Da Vieira de Leiria
Caminha a manhã inteira
Para chegar à Abadia.
Com rodilha feita em casa
Ou comprada numa feira
O calor do sol em brasa
Não detém a sardinheira.
Sardinheira do meu sonho
Está no Liceu de Leiria      
Na balada que proponho
Só sobeja a melodia.
 
José do Carmo Francisco   

(Desenho de Manuel Ribeiro Pavia)